EMEL gastou mais de €4 milhões no último ano com a rede pública de mobilidade ciclável, mas as queixas amontoam-se: bicicletas estragadas, estações fechadas e aplicação ineficiente abrandam o projeto. EMEL culpa vandalismo, CML mantém-se em silêncio.
O fórum r/lisboa, sub-plataforma do portal digital Reddit, é lar da principal comunidade digital de utilizadores da rede de bicicletas públicas partilhadas da capital: lá são tiradas dúvidas, dadas dicas e, sobretudo, partilhadas frustrações sobre a Gira, gerida pela EMEL, a Empresa de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa.
Estação inativa no Jardim Constantino, em Arroios, com uma bicicleta ainda presa à doca.Pedro Miranda
"Nunca senti tanta frustração com um serviço como com a Gira", disse um utilizador há um mês, queixando-se de uma aplicação "péssima, bicicletas em mau estado" e "apoio ao cliente que demora uma eternidade". "Até quando esta app continuará a ser horrível?", pergunta outro, ao passo que um terceiro se queixa de que "nunca há bicicletas" e que "as que funcionam estão degradadas"
– "já nem vou falar da aplicação porque é um degredo, como todos sabemos", remata.
Uma pesquisa por "Gira" na plataforma leva a centenas de publicações e comentários deste teor, que pintam um retrato pouco elogioso de um serviço utilizado diariamente por muitos lisboetas. Há reclamações relativas a bicicletas degradadas, com motores defeituosos, travões gastos e pneus furados, atendimento ineficaz, docas que não funcionam, estações fechadas e, sobretudo, uma aplicação que deixa muito a desejar, bloqueando regularmente, falhando em detetar a localização do utilizador (o que o impede de utilizar a bicicleta) e registando erros sistemáticos.
Os depoimentos, publicados anonimamente na plataforma, são corroborados pela MUBi, a Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, que à SÁBADO diz que, nos "grupos de WhatsApp dos associados" da organização, este é um tema recorrente. "Recebemos muitas queixas de que a aplicação tem imensos problemas, os utilizadores muitas vezes tentam retirar a bicicleta e ela não sai", refere o representante da associação.
Estação inativa na Avenida General Roçadas, na Penha de França. O bairro, a Avenida Almirante Reis e a Baixa são as zonas mais afetadas pelo fecho de estaçõesPedro Miranda
Já José Manuel Caetano, presidente da FPCUB - Federação Portuguesa de Cicloturistas e Utilizadores de Bicicleta, que diz prestar consultoria sobre mobilidade ciclável à EMEL, prefere enfatizar as virtudes do sistema. Conta que a federação recebe "montes de reclamações" mas vinca que a Gira é hoje um serviço essencial para a mobilidade suave na cidade: sem contar com os alugueres de velocípedes por turistas, diz, "sete em cada dez bicicletas a circular em Lisboa são Gira".
Por sua vez, a MUBi diz que os seus membros "recomendam a utilização das aplicações não-oficiais", referindo-se à mGira e à Gira+, alternativas desenvolvidas em regime open source que interagem com os servidores da EMEL para desbloquear bicicletas e que, segundo a associação, "funcionam melhor do que a original".
Em julho de 2025, Tiago Teles e Rodrigo Palmeirim, criadores da Gira+, disseram ao jornal Lisboa Para Pessoas (LPP) que a sua intenção era trabalhar com a EMEL para desenvolver uma melhor plataforma e que gostariam que "houvesse uma atitude mais colaborativa" por parte da empresa, considerando "muito aborrecido da parte da EMEL serem tão hostis" para com os programadores.
Ao mesmo órgão, a EMEL admitiu dificuldades na operação da aplicação, decorrentes do "número de bicicletas e estações" e do "crescimento de clientes utilizadores", e disse ter já investido numa nova aplicação, através de um concurso público, lançado em dezembro de 2024, para um contrato no valor de €1,5 milhões. Mais de um ano decorrido, os problemas mantêm-se.
Mesmo em algumas estações ativas, como esta, na Avenida da República, muitas bicicletas estão frequentemente indisponíveisPedro Miranda
Um investimento de 4 milhões de euros em 12 meses
Desde então, os investimentos da EMEL na Gira multiplicaram-se, com dezenas de contratos assinados com empresas privadas para melhorar o serviço público de bicicletas de Lisboa. Mas, para os utilizadores, o balanço estará ainda por apurar.
Do Base, portal de consulta de contratos públicos, constam 25 contratos ligados à GIRA, quase todos por concursos públicos, adjudicados pela EMEL a nove empresas, entre elas a Lightmobie, Edmtech, Castanheira & Castanheira, Stand Ciclomarca e Sociedade Ciclista Lusitana.
Esses contratos correspondem, sobretudo, a investimentos em "peças e componentes para as bicicletas", "serviços de reparação de componentes eletrónicos" e "serviços de manutenção corretiva extraordinária de bicicletas" e, todos somados, ascendem ao valor de quatro milhões de euros (mais exatamente, €4,105,832.74) nos últimos 12 meses. O ritmo do investimento parece estar a aumentar: em 2026, já foram gastos 2,1 milhões de euros (€2,113,469.82) em serviços deste tipo, 1,3 milhões (€1,341,524.16) dos quais nos últimos quatro meses.
Só no desenvolvimento da nova aplicação, além dos €1,5 milhões concursados em 2024, foram adjudicados €1,084 milhões às empresas Vaimoo e Resopre para "aquisição de solução informática para gestão, operação técnica e comercial do Sistema de Bicicletas Públicas Partilhadas" em setembro de 2025, num concurso limitado por prévia qualificação. O serviço foi contratado com prazo de execução de três anos.
Estação de 26 docas fechada na Avenida Manuel da Maia, junto ao Instituto Superior TécnicoPedro Miranda
Excluindo um total de 32 mil euros (€32,011.60), adjudicados à compra de "luvas de trabalho e calçado para os trabalhadores" da Gira, os restantes 2,99 milhões (€2,989,821.14) foram investidos na recuperação e manutenção de velocípedes públicos, não tendo sido suficientes, ainda assim, para estancar as queixas dos ciclistas lisboetas.
Em maio, a EMEL atribuiu a uma onda de vandalismo o estado de degradação de bicicletas, docas e estações, dizendo que tinha registado, até aquela altura, "272 atos de vandalismo que afetaram de forma severa 81 estações". Acrescentou que tem procedido "de forma sistemática à reposição do serviço, reabrindo as estações com a maior celeridade possível", mas referiu que se têm verificado situações de reincidência, garantindo estar a desenvolver "soluções técnicas", sem especificar quais.
À data da escrita deste artigo, pelo menos 34 estações Gira estavam desativadas por toda a cidade, com particular incidência nas zonas da Baixa, Avenida Almirante Reis e Penha de França.
EMEL culpa vandalismo e não define prazos
Em resposta às questões da SÁBADO, a EMEL conta que enfrenta "uma nova vaga de criminalidade mais agressiva, focada no arrombamento e na destruição deliberada de docas e estações", que responsabiliza pelos "constrangimentos sentidos pelos utilizadores". Concretizando em números, refere que, desde janeiro, registaram-se "700 atos de vandalismo" que destruíram 1.400 docas e retiraram temporariamente do sistema "mais de 1.000 bicicletas", o que, dizem, já representou um prejuízo de €3 milhões.
Para combater a onda de vandalismo, a empresa conta que tem participado "ocorrências junto das autoridades policiais", além de desenvolver "um trabalho de proximidade" com órgãos locais. Quanto às docas e estações, diz que, a "curto prazo", está a instalar "novos equipamentos mais robustos e resistentes ao arrombamento" e, a "médio prazo", está a implementar "um nível de segurança mecânico adicional para mitigar o furto de bicicletas".
Questionada sobre o valor dos contratos e o resultado prático do investimento, a EMEL respondeu que se destinam "a assegurar a manutenção regular e continuada da rede GIRA" e que, portanto, não estão "diretamente associados ao vandalismo" apesar de este representar "uma pressão excecional sobre esta capacidade operacional".
Quanto à concretização do investimento de mais de um milhão de euros na aplicação há quase um ano, a empresa responde que "está em desenvolvimento uma nova solução integrada de suporte à GIRA" – sem especificar quando chegará –, sendo a aplicação móvel "apenas uma das componentes visíveis desse ecossistema". Em relação às aplicações não-oficiais e a comparação do seu desempenho com a da EMEL, refere apenas que "não é justo comparar a simplicidade de uma interface de terceiros à gestão completa de um backoffice que permite o funcionamento integrado de toda a operação GIRA".
À Câmara Municipal de Lisboa, a SÁBADO perguntou que avaliação faz do atual estado de funcionamento da GIRA, que diligências tomou para combater o vandalismo do sistema e qual o resultado prático do investimento de mais de €4 milhões na melhoria da plataforma. Até ao momento, não obtivemos resposta.
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