Na era da supercomunicação, em que há mais notícias do que o dia tem minutos, e por isso todos gritam para ser ouvidos, não falta quem esteja cansado de noticiários e notícias, causas e ativistas, lutas por direitos e afins.
Isto aconteceu há sete anos em Pittsburgh, na
Pensilvânia. O fundador da Helping Butler County, uma iniciativa de ajuda
comunitária, soube que uma amiga ia estar na Marcha do Orgulho Gay com a
organização Free Mom Hugs (Dão-se Abraços de Mãe). E pensou: Falta aqui
qualquer coisa. Na maioria das vezes, esses jovens não têm o apoio do pai. E
decidiu agir. Comprou online uma T-shirt que dizia “Dão-se Abraços de Pai” e, no dia da marcha,
juntou-se à amiga. Ela chama-se Denna Hayes, ele Howie Dittman.
foto Miguel RomeiraDR
Quando chegaram, não estava muita gente, e Dittman pôs-se
descontraidamente na conversa. De repente, olhou para o lado, e parada à sua
frente estava uma rapariga de lágrimas nos olhos. Não disse nada, e ele também
não: abraçaram-se, apenas. A jovem não lhe contou a sua história, apenas chorou
e disse “obrigada” várias vezes. E Dittman percebeu que aquela desconhecida
fora condenada a viver com o peso da rejeição. De um dos pais ou de ambos.
O momento foi testemunhado por quem passava, e até ao fim
da marcha aconteceu uma de três coisas: havia os que ignoravam aquele homem a
oferecer abraços e seguiam o seu caminho; havia os que iam abraçá-lo de sorriso
aberto; e havia os que paravam, liam a T-shirt, avançavam e desfaziam-se em lágrimas nos braços dele. O
evento durou três horas. Dittman parou de contar os abraços quando ia nos 700.
No regresso a
casa, sentiu-se dividido: por um lado, estava feliz por ter participado no
evento, pela dinâmica que se criara e pelas emoções vividas. Por outro, estava
cheio de frustração e revolta. Sendo ele pai de um rapaz e de uma rapariga, não
conseguia compreender que alguém expulsasse de casa um filho de 19 anos por
causa de quem ele amava.
Nessa noite, entrou na sua conta do Facebook e escreveu
uma carta aberta a esses pais. Pediu-lhes que pensassem no filho, tão afastado
deles, que chorava nos braços de um estranho que oferecia “abraços de pai”.
Pediu-lhes que imaginassem o sofrimento desse jovem. E pediu-lhes que não
fossem esse progenitor que rejeitava. Porque os pais são supostamente quem nos
apoia sempre e de maneira incondicional (e tanto que isto é dito…) Porque os
jovens (e jovens adultos, e adultos) traumatizados que ele conhecera tinham de se
aconselhar sobre amor, dinheiro e a vida em geral, e teriam de procurar figuras
substitutas com quem fazer isso. E porque teriam de construir, sem os pais,
memórias que outros têm com os pais, e teriam de as partilhar com outros que
não os pais. E com quem passariam férias? E a quem telefonariam quando
precisassem — como todos precisamos de vez em quando — de amor incondicional? Com
quem festejariam alegrias e vitórias? A quem fariam as perguntas importantes?
Ao escrever aquela carta aberta, Dittman não conseguia
esquecer casos de pais que não falavam com os filhos havia 15 ou 20 anos, só
por eles se apaixonarem por alguém do mesmo sexo. Entendia que os pais podem
ter expectativas quanto à vida dos filhos, mas ele próprio, como pai, queria que
os seus fossem felizes, que encontrassem amor, e que estivessem acompanhados e
em segurança. Só isso. Não traçara um plano de vida para eles cumprirem.
Quando foi dormir, a sua publicação fora partilhada 12
vezes. De manhã, o número subira para 600. Viria a ser partilhada 385 mil
vezes e, somando a atenção que teve em cada uma dessas contas secundárias,
terciárias e por aí fora, o número chegaria aos milhões. Dittman foi notícia na
People e no USA Today, foi entrevistado para a CNN e não foi entrevistado
para a Time porque não quis faltar à cerimónia de formatura da filha.
Quem me contou isto foi o próprio, com quem falei há dias.
Sempre que chega junho, esta história volta às redes sociais. Soube dela este
ano e pensei: Será que isto se tornou uma iniciativa regular? O que é feito
deste homem? Vai havendo notícias da iniciativa Free Mum Hugs e da
voluntária Denna Hayes, mas não dele. Contactei-o numa rede social, expliquei
ao que vinha e Dittman aceitou conversar comigo. O seu gesto não se tornou uma
iniciativa regular, explicou, porque ele nunca teve essa intenção, antes pensou
que outros lhe dariam continuidade; e porque, no seguimento da covid-19, esse
terramoto que abalou o mundo, muita coisa mudou, incluindo a maneira como nos
relacionamos e passámos a defender causas, e nem tudo lhe agrada nesta última, por
isso optou por não estar nessas trincheiras e prosseguiu apenas com a
iniciativa de ajuda comunitária.
Mas calma: Dittman assegurou-me (e pude comprová-lo
durante hora e meia de conversa) que continua a defender tudo o que defendia
nesse dia, e a deplorar que haja filhos que deixam de ter os pais na sua vida
porque amam, não porque odeiam. Nas suas palavras, continua a ser um aliado. De
resto, no dia em que as posições se “desextremarem” e tornar a haver
disponibilidade para ouvir os 90 por cento que não estão nos extremos, mas na
vasta extensão de permeio, é quase certo que ele tornará a participar em
eventos semelhantes, com o mesmo coração aberto.
E aqui fica um facto curioso, ou talvez eloquente: Dittman
aceitou recentemente um convite para participar numa conferência em que estes assuntos
seriam discutidos, mas o organizador do evento recuou à última hora. Não foi
avançado um motivo, mas, embora Dittman não tenha assumido uma posição pública,
é possível que o promotor da conferência se tenha inteirado de que ele também
tinha reservas e tencionava falar delas.
Se conto esta última parte, é por ser reveladora: em anos
recentes, o debate público degradou-se muito. Cada vez menos há troca de
ideias, porque em seu lugar surgiu a troca de insultos. Leio publicações de
comentadores com posições com que não simpatizo, e algumas incomodam-me muito,
mas preocupa-me tanto ou mais a linguagem: esquerdalha, direitalha, histeria,
eu sei lá. Howie Dittman avisou-me antes de falarmos que tinha reservas que
podiam desagradar-me e ir contra o que eu tencionava destacar, mas respondi que
queria ouvi-lo na mesma e conheci alguém que, para lá de causas e bandeiras,
tem a mesma preocupação que teve há sete anos, e abraçaria todas aquelas
pessoas na mesma.
Até porque salvou vidas. Dos milhares de mensagens que
recebeu no Facebook, e a que respondeu até à última, ficou-lhe na memória o
caso de um jovem que tinha tirado essa tarde de folga para ir ver os amigos e a
família: ia despedir-se deles, sem lhes dizer que era esse o propósito, e à sua
espera em casa estavam os comprimidos com que ia suicidar-se. E então chegou a
casa, leu a notícia e escolheu viver.
Estamos num momento em que causas, ideias, convicções e
crenças se tornaram outra vez guerra. Pode não acontecer num campo de batalha
físico, pode não se derramar literalmente sangue, mas é uma luta sangrenta na
mesma. E quem está na frente de combate sente, talvez, que não pode parar um
instante, ser moderado, ouvir antes de gritar, ou pensar antes de dar um passo
que será tiro e queda nas notícias, mas não é grande ideia (e se os que dão notícias
adoram esses passos, que para o mal e para o mal são espetáculo…)
Sempre foi assim. Sempre houve os que estiveram na frente
de combate e se bateram com todas as armas, para os que viessem depois terem
vidas apenas normais. Aconteceu e acontece com todas as causas. A da paz, por
exemplo. Aconteceu e acontece com maiorias. Os trabalhadores. As mulheres, que são
hoje 49,7% para 50,3% de homens no mundo
— não estão em maioria, mas, em número, medem-se de igual para igual. E aconteceu
e acontece com minorias, mas não vou dar exemplos, porque as minorias são demasiadas
e entretanto instalou-se um certo cinismo do “já estou farto de ouvir falar
de…” Mas todos nos lembramos, à cabeça, de duas ou três.
Na era da supercomunicação, em que há mais notícias do
que o dia tem minutos, e por isso todos gritam para ser ouvidos, não falta quem
esteja cansado de noticiários e notícias, causas e ativistas, lutas por
direitos e afins. Começamos sempre por não ter paciência para causas que não são
preocupação nossa, e por não querer saber de direitos cujo desaparecimento não
nos beliscará. Mas convém não esquecer o que escreveu o pastor luterano alemão
Martin Niemöller em 1946: “Primeiro, vieram buscar os a, depois os b,
depois os c, e eu fiquei calado, porque não era a, nem b,
nem c. Então, vieram buscar-me a mim, e não restava ninguém para
me defender.”
Este texto não é ideológico nem político. Quis apenas
contar o caso real de uma pessoa comum que teve um gesto extraordinário. Há atos
como o de Howie Dittman, que não são panfletários nem guerrilha, mas apenas
generosos, compassivos, humanos. Aquecem corações, fazem milhares sentir-se
menos sozinhos e salvam vidas. Quando estivermos cansados desta causa ou
daquela, ou acharmos que estes ou aqueles “já estão a exagerar”, podemos pensar
só nisto. Porque é assim que o diálogo acontece. E no dia em que perdermos
completamente a capacidade de dialogar,
teremos deixado de ser animais racionais.
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