Secções
Entrar

Diretor do Programa para Doenças Oncológicas quer lei do tabaco "mais restritiva"

03 de fevereiro de 2019 às 08:34

Apesar dos locais de proibição terem vindo a aumentar e se ter conseguido "controlar de alguma maneira o consumo de tabaco", a "legislação vai ter que evoluir no sentido de ser mais restritiva".

O diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, Nuno Miranda, defendeu este domingo que a legislação do tabaco devia ser "mais restritiva" para diminuir os casos de cancro do pulmão, o mais mortal em Portugal.

"Precisamos de encarar o tabaco como um inimigo", afirmou Nuno Miranda em entrevista à agência Lusa, a propósito do Dia Mundial do Cancro, que se assinala na segunda-feira.

Apesar dos locais de proibição terem vindo a aumentar e se ter conseguido "controlar de alguma maneira o consumo de tabaco", a "legislação vai ter que evoluir no sentido de ser mais restritiva".

"É este o caminho que os outros países têm seguido e têm tido sucesso no controlo do tabagismo e será esse o caminho que, com certeza, nós iremos ter de seguir", disse o médico oncologista.

Para Nuno Miranda, "o consumo em público devia ser mais restrito", dando como exemplo os parques públicos: "Tenho dúvidas que deva ser permitido o consumo de tabaco" nestes locais".

Defendeu anda que deviam acabar os espaços para fumadores, porque "não há maneira de assegurar as boas condições de trabalho a quem lá trabalha".

Questionado se defende a proibição de fumar, afirmou que não: "Tudo aquilo que a história nos diz é que as formas de proibição fosse do álcool, das drogas, tem um efeito nulo no controlo do consumo, até pode inclusive aumentá-lo e levar à existência de circuitos paralelos que lucram com isso e espalham o consumo".

No seu entender, a prevenção "é a melhor arma" para combater o cancro, realçando a importância de reduzir o consumo do tabaco, "a causa evitável mais simples" e que é "responsável por uma maior mortalidade" em termos desta doença.

O oncologista manifestou particular preocupação com o consumo de tabaco nos jovens e nas mulheres, sublinhando que está a acabar a assimetria de género em relação ao cancro do pulmão.

"Hoje em dia a mortalidade em termos de cancro do pulmão é de três mil homens para mil mulheres por ano, mas essa assimetria está a diminuir" pelo aumento do consumo de tabaco nas mulheres.

Para combater esta situação, tem de mudar a atitude da sociedade, em temos culturais, em relação ao tabaco.

"Temos que olhar para esta praga que é o tabagismo de uma forma diferente", "não podemos continuar a considerar o tabaco como uma coisa normal, é tão simples como isto", defendeu.

No caso dos jovens, não se pode ter "meramente uma atitude moralista ou só informadora", é preciso "ter mais do que do que isso e mais do que isso é mudar o comportamento cultural".

"Nós não podemos pensar que um pai ou uma mãe que fuma tem alguma autoridade moral para dizer ao filho para não fumar, porque a autoridade moral é zero", vincou.

Nuno Miranda observou ainda o "aumento significativo" da mortalidade por cancro nos Açores.

Analisando a situação do cancro em Portugal verifica-se que em "todo o território" apenas os Açores registaram "um aumento significativo da mortalidade por cancro", que está associada ao aumento do consumo de tabaco nesta região.

"Uma causa evitável é a razão da maior assimetria a nível nacional em termos de mortalidade por cancro", lamentou.

Traçando um retrato da situação da doença em Portugal, Nuno Miranda disse que é semelhante à dos restantes países europeus.

"Temos até uma mortalidade mais baixa do que a maioria dos países europeus com taxas de sobrevivência mais altas e isso deve-se" a um menor consumo de tabaco e ao "sistema que tem respondido às necessidades" e aos "bons profissionais que prestam os melhores cuidados aos doentes".

Por outro lado, o cancro tem vindo a aumentar e vai continuar a aumentar fruto do envelhecimento da população e das alterações de estilo de vida.

"Temos mais obesidade, mais sedentarismo, as mulheres têm o primeiro filho cada vez mais tarde, temos uma exposição excessiva à radiação solar", apontou.

Segundo estimativas da Agência Internacional para a Investigação do Cancro, da Organização Mundial de Saúde, o número de novos casos de cancro em Portugal ultrapassará este ano os 58 mil, com as mortes por doença oncológica a ascenderem a quase 29 mil.

Os dados adiantam que um quarto da população portuguesa está em risco de desenvolver cancro até aos 75 anos e 10% correm risco de morrer de doença oncológica.

Descubra as
Edições do Dia
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana.
Boas leituras!
Artigos recomendados
As mais lidas
Exclusivo

Operação Influencer. Os segredos escondidos na pen 19

TextoCarlos Rodrigues Lima
FotosCarlos Rodrigues Lima
Portugal

Assim se fez (e desfez) o tribunal mais poderoso do País

TextoAntónio José Vilela
FotosAntónio José Vilela
Portugal

O estranho caso da escuta, do bruxo Demba e do juiz vingativo

TextoAntónio José Vilela
FotosAntónio José Vilela