O Governo sempre-em-pé
Eduardo Dâmaso Director
22 de julho

O Governo sempre-em-pé

Costa tem uma teimosia proverbial, mas sabe muito bem que nunca chegará ao fim da legislatura em condições de ter o PS a lutar por uma maioria clara se não renovar a equipa. Resta saber se ainda é capaz.

António Costa lidera um Governo exausto, cheio de ministros desgastados e ansiosos por abandonar o barco, mas resiste, contra ventos e marés. O primeiro-ministro sempre foi um conservador – no estrito sentido da conservação – em matéria de solidariedade política com os seus homens, mesmo quando não fazem parte do restrito clube dos seus amigos. É historicamente defensor de uma espécie de governo sempre-em-pé, que resista contra ventos e marés e não ceda às dificuldades, por homéricas que sejam. É a sua maneira de estar na política, não tem outra. Por isso, faz repetidamente de bombeiro dos seus ministros, mesmo quando já nem o mais fanático militante socialista os defende. Foi assim em todos os seus governos.

Com Constança Urbano de Sousa, mesmo quando já tinha a memória de curto prazo e o espírito afetados, não pela idade mas pela evidente incapacidade. Tem sido assim com Tiago Brandão Rodrigues, há muito reduzido a uma paralisante insignificância política. É assim com Eduardo Cabrita, há muito capturado por um enclausuramento político e mental voluntário, que esmagaram a sua capacidade de manobra política e pulverizaram a sua voz no espaço mediático.

Mas, por este caminho, e apesar da grande resistência ao desgaste político que António Costa sempre teve, por variadíssimas razões, mantendo níveis bastante razoáveis de popularidade e intenção de voto para quem teve de enfrentar a pandemia e está há seis anos nas funções de primeiro-ministro, arrisca-se a ser ele próprio não remodelável mas o responsável por uma inexorável paralisia da governação. Beneficia-o a circunstância de enfrentar um PSD em profunda crise e uma oposição de direita genericamente dispersa, sem liderança nem estratégia. Muito provavelmente até vai ganhar as eleições autárquicas e, com isso, desferir um golpe profundo no PSD que deverá entrar em convulsão e num processo de mudança de líder. Mas isso será escasso benefício para um sistema partidário que se vai afundando aos poucos, qual Titanic, no desprestígio das funções políticas, no enraizamento das redes clientelares, na incapacidade de combater a corrupção e, com isso, promover a igualdade dos portugueses perante a lei e o Estado, na gestão de uma bazuca milionária que deverá financiar reformas estruturantes e não meras cosméticas de circunstância.

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