Petrarca, Will Smith e amores falsos como Judas
Pedro Marta Santos
10 de abril

Petrarca, Will Smith e amores falsos como Judas

Se Petrarca era um voyeurista e um stalker mas praticava há 700 anos, Will Smith é um lobo machista em pele de cordeiro no século XXI. O discurso a seguir ao tabefe autodefiniu-o como um paladino do amor.

NO MAIOR ESCÂNDALO dos 94 anos de história dos Óscares, esse centro internacional de massagens ao ego, um ego em particular explodiu após uma piada, transformando-se num estalo. Resultado: durante 15 dias, discutiram-se incessantemente os limites do humor e as fronteiras da liberdade de expressão. O que teve a lambada de Willard Carroll Smith Jr. na cara de Christopher Julius Rock III a ver com humor ou liberdade de expressão? Zero. A lamparina de Will na bochecha de Chris aparenta-se sim com a definição que muitos homens e mulheres – sim, mulheres – têm de Amor. Talvez o modelo de amor romântico mais importante da civilização ocidental, a poesia lírica de Petrarca, um dos fundadores do Renascimento, nasceu da paixão do humanista de Arezzo por Laura de Noves, uma jovem de 17 anos recém-casada com um conde antepassado do Marquês de Sade. Fez ontem, 6 de Abril, precisamente 695 anos que Petrarca viu pela primeira vez Laura, em 1327, era uma Sexta-Feira Santa, na igreja de Sainte-Claire de Avignon. Segundo os dados disponíveis, jamais trocaram uma palavra. Petrarca passou os três anos seguintes a seguir Laura pela cidade papal, observando-a, fazendo-lhe esperas. Hoje, chamar-se-ia assédio, e o apaixonado teria de esconder sob o hábito a pulseira electrónica. Petrarca saiu da Provença, ganhou fama e regressaria em 1337, para mais anos de perseguições nas sombras, enquanto escrevia os Canzoniere, deificando a musa cujo rosto nunca tocou. Claro que Francesco, o não amante de 1327, não pode ser avaliado à luz de 2021. Mas boa parte dos arquétipos do amor na longa história do Ocidente são casos de estudo de obsessão misantropa antes de se transformarem no essencial: a arte. Se Petrarca era um voyeurista e um stalker mas praticava há 700 anos, Smith é um lobo machista em pele de cordeiro no século XXI. O discurso a seguir ao tabefe autodefiniu-o como um paladino do amor. Uma hora antes, a linguagem gestual e as palavras de uma sexta à noite no Cais do Sodré denunciaram-no como um alfa que defende a sua dama ao soco. Jada, a “ofendida”, não tomou a iniciativa, não o impediu e jamais o censurou. Em Will, a autobiografia que lançou a 9 de Novembro, Smith procura desnudar a sua fragilidade enquanto o retrato final o revela como figura invencível. O pânico de agradar vem do tempo em que, aos 13 anos, viu demasiadas vezes o pai a bater com o punho no rosto da mãe. Agora, Will fez precisamente o mesmo julgando fazer o oposto. Logo na primeira página do livro, o actor escreve que “Will Smith, a estrela de cinema, é uma construção projetada para me esconder do mundo. Para proteger o covarde”. Ora nem mais. 

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