O valor de um Da Vinci
Pedro Marta Santos
19 de setembro

O valor de um Da Vinci

Em última análise, o valor quantitativo de uma obra-prima – ou de um intragável desastre – depende apenas e só do cheque que alguém está disposto a pagar por ela.

EXISTE ALGO COMO o “valor real” de uma peça de arte? Orson Welles dizia que a realidade “é a escova de dentes, o cheque com o salário e uma sepultura”. Nada há de mais falso do que o preço de um trabalho artístico. The Lost Leonardo, um novo documentário, relança um debate tão antigo como a usura, a propósito do caso de Salvator Mundi, o óleo sobre tela de Leonardo da Vinci vendido em 2017 num leilão da Christie’s de Nova Iorque por 381 milhões de euros, a maior verba jamais despendida por uma obra artística – presume-se que o quadro estará na casa de banho do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, o déspota Mohammad Bin Salman. Há apenas um pormenor: ninguém sabe se Salvator Mundi é um embuste.

Talvez pintado em 1500 para uma consorte de Luís XII, o quadro original era um pavor segundo os critérios mais dóceis. Esteve na coleção privada de Carlos I de Inglaterra ao longo do século XVII e reapareceu em 1900, sendo vendido num leilão em 1956 por 45 libras, até um restauro polémico de 2005 o transformar na tela licitada há quatro anos – a intervenção da especialista Dianne Modestini foi tão profunda que há quem entenda que a assinatura da obra deveria ser sua. O ponto crucial de The Lost Leonardo não é tanto a autenticidade da obra como a imensa subjectividade das avaliações no terreno minado das galerias e leiloeiras de topo, onde o juízo dos peritos e a fúria especulativa dos agentes vale tanto como os factos conhecidos.

Em década e meia, o mesmo quadro passou de 994 euros numa obscura casa de leilões de Nova Orleães para 450,3 milhões de petrodólares. Um quadro valioso pode limpar tudo: dinheiro, má fama, até falta de talento. Ser ou não verdadeiro torna-se, obviamente, secundário, e as políticas de gosto são tão difusas como o nevoeiro de um Bocklin. Não é apenas negócio baixo ou alto comércio. O jogo pertence a um número limitadíssimo de players num microcosmos de peritos ambiciosos e ignorantes gananciosos. Porque vale um Cézanne 211,5 milhões de euros (Os Jogadores de Cartas, vendido ao estado do Qatar em 2011) e um Ticiano 60,5 milhões (Diana e Calisto, comprado 11 meses depois)? Em última análise, o valor quantitativo de uma obra-prima – ou de um intragável desastre – depende apenas e só do cheque que alguém está disposto a pagar por ela. Welles, cujo F for Fake é a abordagem definitiva à psique de um falsário, tem a única resposta que importa: “A verdadeira arte é uma mentira que diz a verdade.”

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui
Opinião Ver mais