O Deus das criptomoedas
Margarida Davim Jornalista
21 de setembro

O Deus das criptomoedas

As pessoas acreditam neste tipo de coisas porque ser rico é o sonho de quase todos aqueles que contam tostões.

Alex Mashinsky é aquilo a que se chama "um empreendedor", o equivalente a um semideus ou um profeta. O currículo e a fortuna que fez em negócios em áreas tecnológicas valeram-lhe esse estatuto. O YouTube e o talento para evangelizar seguidores fizeram o resto.

Criou a Celsius Network, uma plataforma de empréstimos de criptomoedas. Prometia taxas de juros de mais de 18% em depósitos de criptomoedas, mas mais do que isso: prometia libertar as pessoas do sistema bancário, elevar os cidadãos comuns aos píncaros da fortuna e, de alguma forma, guiá-los para um El Dorado financeiro a que de outra maneira não poderiam aceder.
As prelecções eram, claro, "anti-sistema" e as promessas tentadoras. Mas este prometido reino dos céus ruiu como um baralho de cartas, este ano, quando as fragilidades do mercado das criptomoedas deixaram a nu o que mais não era do que um esquema em pirâmide.
As pessoas acreditam neste tipo de coisas porque ser rico é o sonho de quase todos aqueles que contam tostões. Mas a liberdade da fortuna não é a única cenoura que estes burlões tecnológicos acenam para angariar investidores incautos.
Em quase todas estas empresas de criptomoedas há um discurso semelhante: uma narrativa montada para criar uma ideia de comunidade. E um ataque ao "sistema". Os iluminados deste novo mundo de riqueza virtual apresentam-se como libertários.
De que se libertam eles? Do Estado e dos impostos, aqueles que têm sido nas sociedades ocidentais democráticas os pilares do sentimento de pertença a uma "res publica" comum.
O seu discurso é o de um individualismo sem limites, construído em cima da tese de que quem alcança o sucesso é quem o merece. E, no entanto, eles aspiram à ideia de pertença e por isso se afirmam como comunidade.
Há tempos, ouvi uma cronista do Financial Times, muito céptica em relação às criptomoedas, dizer que num mundo em que as religiões e as ideologias perdem terreno estas novas crenças ocupam esse vazio moral e ético. "Todos queremos acreditar em alguma coisa", dizia.
É possível que sim. E é possível que estas novas comunidades ganhem espaço e imponham novos sistemas políticos. Mas seria trágico que embarcássemos nisso sem reflectir no que significa este endeusamento do virtual, que desliga por completo a produção de valor de alguma coisa palpável, como o trabalho e as coisas que ele produz.

Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico

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