Bonecas de trapos
João Pereira Coutinho Politólogo, escritor
28 de abril de 2018

Bonecas de trapos

Já aconteceu chegar o feriado e, por brevíssimos momentos, não saber a razão para tantas lojas fechadas. Só então a data se faz luz. Não conheço maior homenagem ao 25 de Abril: tratá-lo como se trata o oxigénio. Sem pensar

AQUI HÁ UNS ANOS, um "jornalista cultural de esquerda" (peço desculpa pelo longo pleonasmo) entrevistou-me. O motivo da conversa era um livro meu, intitulado Conservadorismo, que levou o jornalista à pergunta decisiva: o que pensava eu do 25 de Abril?

Disse-lhe o que pensava: não gosto de alardear em público as minhas virtudes públicas; mas uma delas, talvez a mais preciosa e rara, é nunca ter defendido na vida qualquer ideologia ou regime autoritário. O fim de uma ditadura é sempre de celebrar.

Ele, tomado por um formigueiro interior, começou a balançar-se na cadeira. Temi que caísse, como o velho António em 68. Não caiu. Optou antes por persistir na pergunta – uma, duas, três vezes – esperando secretamente uma confissão de amor ao dr. Salazar e ao dr. Marcello.
Ponderei fazer-lhe a vontade, por mera caridade cristã. "O dr. Salazar tinha um cabelo estupendo", eis a frase que me passou pelo miolo.

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