Por cá, sublinhe-se, suscitou, até agora, maior indignação o palco faustoso e dispendioso da Jornada Mundial da Juventude do que o sofrimento, a humilhação, os crimes ignominiosos praticados em toda a lonjura do tempo contra vítimas inocentes.
Quando o Boston Globe deu, em 2002, um grande exemplo, uma grande lição de jornalismo de investigação, abrindo a porta para nos mostrar o primeiro grande escândalo de abusos sexuais na Igreja dos Estados Unidos, percebeu-se que estava criada uma dinâmica de denúncia que poderia ser imparável. Adivinhava-se a dinâmica pública da exposição do horror depois de décadas de sofrimento privado. O sofrimento de todos aqueles a quem foi roubada a inocência e a alma, que foram esmagados por uma repugnante força de domínio absoluto, físico e espiritual, na igreja, no confessionário, no seminário, impondo a lei do silêncio – essa realidade insofismável sobre a chantagem que une a Igreja e a máfia. A todas essas vítimas foi retirado, pela vergonha e pelo medo, o dom da palavra livre, na família, em casa, em todo o espaço público. A relação de poder mergulhava, afinal, na ancestralidade desse medo construído sobre a ignorância das ovelhas e a subserviência de todo o rebanho, vergados, uns e outros, pela necessidade de acreditar no caminho da salvação.
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