O cheiro da casa
Bruno Nogueira Humorista
07 de setembro de 2023

O cheiro da casa

Quando se vendeu a casa, a casa já não era a mesma. Era uma boa casa, mas já não era a mesma. Se eu lá voltar vou ver coisas que quem lá mora não vê. Vou ver o sítio da cozinha onde a minha mãe guardava os chocolates para eu não chegar, a parede do quarto dos meus pais que eu pintei com batom.

AS CASAS TÊM OS CHEIROS do que lá se viveu. São construídas com cimento e tijolos, portas, paredes, um chão que quando está a ser feito ainda não sabe o que o espera. São caixas-fortes que nascem sem passado nenhum. Quando se constrói uma casa, constrói-se uma cápsula do tempo. Rectângulos que vão resistir a anos de tragédias e alegrias. Vivi num apartamento durante toda a minha infância e adolescência, num sexto andar, letra B. Era lá que o meu mundo começava e acabava todos os dias. Foi lá que aprendi a andar, que namorei, que discuti, que sofri por amor, que estive doente, que fui feliz, que fui insuportável; foi lá que me nasceram e caíram os dentes de leite, que vi pela primeira vez o pai Natal, e que descobri pela última vez que o pai Natal era afinal uma pessoa da nossa família. Naquela casa que já tem outros donos, eu brincava na sala com uma cidade da Playmobil, com uma consola Nintendo verde do Popeye, e com um yoyo brilhante da Coca-Cola que ganhei num torneio que fizeram na entrada do meu prédio. Acordava e sentava-me à frente da televisão Salora a ver os desenhos animados, e a ser crescido. Foi naquela casa que descobri de perto formigas e asas de moscas no microscópio que me foi oferecido num daqueles natais em que o pai Natal ainda não era da minha família. A casa tinha um cheiro, e esse cheiro era o dos meus pais, o da minha irmã, e o meu. Cada divisão tinha um cheiro diferente, e a soma de todos era o cheiro da nossa casa. Fomos nós que o fizemos sem querer, e que depois passou a ser um cheiro que já nem sabíamos que existia até voltarmos a entrar nela ao fim do dia. Cheirava aos nossos perfumes e corpos juntos. Só dávamos conta que não estava lá quando aparecia um cheiro intruso que alterava o nosso. Uma casa pode demorar anos até ter um cheiro que é só dela, até construir essa narrativa silenciosa de quem lá vive; mas não demora muito até ficar sem ele. Da cozinha via-se Monsanto e o Estádio da Luz aceso em noites de jogos. Viam-se outras casas, e quando olhava para a janela delas imaginava se teriam uma vida igual à nossa. Eram uma banda desenhada com pessoas que apareciam e desapareciam daqueles quadradinhos. Às vezes paravam num deles e cruzávamos olhares, e uma vez por outra acenos. Depois eu ia para dentro, entre vergonhas e sentir-me crescido. A sala era ao lado da cozinha, e tinha um candeeiro em ferro forjado, e um armário grande onde estavam muitos livros da Reader’s Digest, e cassetes VHS de filmes ou de videoclipes que eu gravava da MTV. No cimo desse armário estava um busto em cobre de alguém que nunca soube quem era, um estranho que ouvia as nossas conversas. Naquela sala tive o meu primeiro grande susto, quando a minha mãe demorou muito a chegar do trabalho, e eu colado à janela a olhar para a estrada, a achar que se já era noite e ela não estava, o mundo ia acabar. Foi naquela sala que disse aos meus pais que queria ser actor, e depois ficou silêncio à mesa. A mesa de jantar era redonda, mas mudava de tamanho consoante as pessoas que recebíamos em casa. Quando vinha alguém encaixávamos no meio umas tábuas e ela ficava maior, numa forma oval. Durante muito tempo a mesa tinha muitas tábuas aos fins de semana, nos aniversários e nos natais. Havia um corredor com duas casas de banho, o meu quarto, o quarto dos meus pais, e o quarto da minha irmã. O meu quarto era a minha primeira casa dentro da minha casa, onde punha em ordem a minha pequena vida, e onde tinha as dúvidas todas. A porta tinha uma mancha escura, de uma vez que eu decidi que queria tudo pintado de preto, e os meus pais – e bem – salvaram-me da minha ideia a tempo. No verão era tão quente que eu dormia com um borrifador de água, que borrifava para o ar, para que chovesse um bocadinho de frio em cima de mim. Gostava quando me deitava mais cedo que os meus pais, para os ouvir na sala, depois no corredor, e por fim a minha mãe a desmaquilhar-se na casa de banho, os frascos a abrir e a fechar. Adormecia a ouvir rádios locais, onde falavam ao telefone com pessoas sozinhas que tinham insónias.

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