O desafio da natalidade e o cogumelo português
Tiago Pereira Membro da Direcção e Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses
13 de julho

O desafio da natalidade e o cogumelo português

O momento que vivemos, pela sua imprevisibilidade, incerteza e insegurança associada, é propício a uma maior fixação no tempo presente e a um adiamento de decisões com forte impacto no futuro como a maternidade e paternidade.


O primeiro jogo eletrónico da colecção "Super Mário" foi lançado em arcade no ano em que nasci. Dois anos depois chegaria às consolas da Nintendo e continuaria a construir o espaço que ainda hoje ocupa no imaginário da minha geração e das seguintes. Estávamos em 1985, exactamente 120 anos após a data da primeira publicação do Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll e esse jogo partilharia com a história uma curiosa particularidade: num e noutro a protagonista e o protagonista crescem com cogumelos, quando chocam com eles no jogo ou comem um dos seus lados no livro. 

"O que nós esperamos é uma aproximação da pirâmide etária àquilo a que chamo a imagem do cogumelo da bomba atómica (...) em que a parte central e a base da pirâmide se encolhem acentuadamente e o topo aumenta". Ana Fernandes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, disse-o em declarações recentes sobre as mudanças que espera na estrutura populacional em Portugal quando forem revelados os dados do Censo de 2021 e que apontarão a um cogumelo que, contrariamente aos do jogo e do livro, não nos faz crescer. Pelo contrário. 

São múltiplas as causas para a rápida transformação da pirâmide etária da população residente em Portugal. Umas francamente positivas, como o grande aumento da esperança média de vida, da escolarização e do período de formação da população e a maior, embora ainda desigual, integração das mulheres no mercado de trabalho. Outras negativas, como o efeito da crise socioeconómica da última década, os níveis de precariedade, a instabilidade laboral e de rendimento económico e a inconstância no saldo migratório do país. Finalmente, uma particularmente desafiante, a natalidade. 

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