Secções
Entrar
Ricardo Borges de Castro Analista e Consultor
09.01.2026

Cartão de bingo para 2026

Não sabemos o que nos reserva o bingo geopolítico de 2026. A única certeza é que nos esperam surpresas.

Visto de Bruxelas, 2026 pode ser um ano de rutura para as relações transatlânticas. Quando se aproxima o primeiro aniversário do início do segundo mandato de Donald Trump, apesar da imprevisibilidade ser a imagem de marca do magnata, a UE sabe mais do que sabia há um ano com que linhas é que se cose. Ou melhor, sabe as linhas com que não se pode coser. Para além disso, como sempre, os europeus serão confrontados por crises que não estavam no horizonte para 2026, a começar pela remoção de Nicolas Maduro do poder pelos americanos ao terceiro dia de janeiro. Convém pensar nestas crises ou possíveis acontecimentos mesmo que muitos levantem mais questões do que respostas. E o importante não é prever; é preparar para o pior… e esperar o melhor. 

“E se…?”

Como já expliquei aqui, a antecipação estratégica não visa fazer previsões. Isso é para os meteorologistas. Mas, na prospetiva estratégica, deve fazer-se o exercício do “E se…?” para refletir e preparar para situações que mesmo sendo menos plausíveis ou contrárias a cenários base ou até preferenciais, podem ter impacto sobre o futuro ou invalidam premissas sobre as quais algumas decisões políticas são tomadas. É um género de ‘bingo geopolítico’ que vale a pena jogar porque pode ajudar a lidar com situações futuras inesperadas, mas possíveis.  

Olhar para trás

Outro exercício fundamental na prospetiva estratégica é olhar para trás não no sentido de fazer uma contabilidade sobre se se ‘acertou’ no futuro, mas antes perceber como se pode melhorar a antecipação de eventos possíveis ou plausíveis. Mais do que o que se pensou sobre o futuro – seja neste exercício de Ano Novo seja noutras atividades prospetivas – o importante é o como se pensou esse futuro. 

Olhando para o Bingo proposto em 2025, é fácil constatar que muito do que estava no cartão não aconteceu. No entanto, alguns acontecimentos aproximaram-se mais da realidade, embora com contornos diferentes. O número mais certeiro foi o 31: “E se… Israel atacar (com ou sem apoio dos EUA) instalações nucleares do Irão?” Depois, seguiu-se o número 16: “E se… uma minoria de bloqueio rejeita o Acordo EU-Mercosul no Conselho da União Europeia?” Na terceira posição ficou o número 33: “E se… Xi Jinping e Trump fazem um acordo comercial ignorando os europeus?” Finalmente, quase empatado, ficou o número 50: “E se…Trump usa meios coercivos para forçar o controlo americano sobre a Groenlândia?”, que tem tido desenvolvimentos políticos já no início deste ano e se mantém no Bingo para 2026. 

Ora, juntamente com o bombardeamento americano às instalações nucleares do Irão, no desfecho daquilo que Donald Trump batizou de “Guerra dos 12 Dias”, os outros temas estiveram todos presentes na agenda europeia, não com aquela configuração exata, mas com implicações importantes para o papel da UE no mundo e para as suas prioridades políticas e económicas. E são assuntos que vão continuar a figurar no ano que começa. 

Bingo geopolítico

O ‘Cartão de Bingo’ da UE para 2026 está cheio de incertezas. A maioria decorre de eventos ou situações que Bruxelas não controla mesmo que possa ter alguma influência sobre elas. O que não pode é ficar indiferente porque todos os acontecimentos no cartão para 2026 têm consequências para o bloco europeu e podem exigir um posicionamento ou ação por parte dos 27.  

Bingo geopolítico para a UE em 2026

Bingo 2026

Um ano de rutura?

Não obstante as convulsões internacionais dos últimos anos e das declarações de querer tornar a UE num ator geopolítico mais autónomo, a realidade é que os líderes europeus ainda não conseguiram demonstrar que têm a vontade política suficiente e os níveis de unidade necessários para lidar conjuntamente e de forma estratégica com questões internacionais que afetam a Europa. Aliás, este problema tem vindo a agravar-se. 

No atual contexto, há um dilema adicional que torna tudo mais difícil. Se os maiores desafios externos de médio e longo prazo continuam a ter origem na Rússia ou na China, atualmente, a principal fonte de preocupação para Bruxelas é a imprevisibilidade dos EUA e o ‘protecionismo intervencionista’ da atual administração que pode levar a uma rutura nas relações transatlânticas. 

Não sabemos o que nos reserva o bingo geopolítico de 2026. A única certeza é que nos esperam surpresas. 

Bom 2026! 

P.S. – para os leitores que leiam em inglês e gostem de fazer projeções geopolíticas, podem inscrever-se nesta plataforma aberta: https://www.rangeforecasting.org/

Mais crónicas do autor
09 de janeiro de 2026 às 07:00

Cartão de bingo para 2026

Não sabemos o que nos reserva o bingo geopolítico de 2026. A única certeza é que nos esperam surpresas.

19 de dezembro de 2025 às 08:40

Cinco para a meia-noite

Com a velocidade a que os acontecimentos se sucedem, a UE não pode continuar a adiar escolhas difíceis sobre o seu futuro. A hora dos pró-europeus é agora: ainda estão em maioria e 74% da população europeia acredita que a adesão dos seus países à UE os beneficiou.

28 de novembro de 2025 às 07:00

A Europa à mesa ou no menu?

Depois do sobressalto inicial, discute-se quem está e quem não está à mesa das negociações e diz-se que sem europeus e ucranianos não se pode decidir nada sobre a Europa ou sobre a Ucrânia.

14 de novembro de 2025 às 07:00

O momento da Europa para a antecipação estratégica*

Os decisores políticos europeus continuam a ser ‘surpreendidos’ por acontecimentos e incerteza. Mais atividade prospetiva na Europa é certamente bem-vinda.

24 de outubro de 2025 às 07:00

Portugal 2050

Uma das ideias centrais é dotar Portugal de uma “visão” de futuro e de “agilidade” para fazer face a um mundo em constante mudança e aceleração.

Mostrar mais crónicas
Descubra as
Edições do Dia
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana.
Boas leituras!