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Renato Gomes Carvalho Membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses
14.05.2026

A inteligência artificial está a pensar por nós?

A interação constante com sistemas de IA influencia a identidade e a autoestima e torna-se especialmente crítica na formação de opinião, onde a fácil produção e disseminação de conteúdos levantam dúvidas sobre autenticidade e credibilidade,

A história da Humanidade sempre se caracterizou pelo surgimento de novas tecnologias com impacto significativo na vida das pessoas. Quer se trate da roda, do livro, do telefone ou de outra qualquer inovação, sempre que surgiu uma nova tecnologia houve tensões e transformações na vida dos indivíduos e das sociedades. O que está a acontecer com o advento da inteligência artificial generativa insere-se, em parte, nesse racional. Mas a IA traz consigo uma diferença fundamental, expressa na capacidade de tomar decisões autonomamente. Isto está a ter consequências em todas as esferas, desde a militar até aos mecanismos de pensamento e comunicação.

Numa realidade moldada por ecossistemas digitais dinâmicos, baseados em algoritmos e crescentemente automatizados, o advento da IA não é apenas mais uma inovação na lista de inovações na história da Humanidade, mas uma transformação estrutural, com impacto nas formas como pensamos, participamos e nos organizamos coletivamente. Na verdade, tem um efeito paradoxal: tanto potencia o acesso ao conhecimento como pode fomentar dependência tecnológica e enfraquecer a reflexão autónoma. E poderá não chegar a captar totalmente os mecanismos de comunicação humana, como Yuval Harari sugere.

Este é um debate contínuo e as preocupações frequentemente expressas convergem numa preocupação comum: a necessidade de fortalecer a autonomia crítica, a responsabilidade ética e a capacidade de ação coletiva num ambiente digital complexo e potencialmente manipulável.

A interação constante com sistemas de IA influencia a identidade e a autoestima e torna-se especialmente crítica na formação de opinião, onde a fácil produção e disseminação de conteúdos levantam dúvidas sobre autenticidade e credibilidade,

agravadas pela desinformação e pelos deepfakes. Simultaneamente, embora a IA possa ampliar vozes e facilitar a participação cívica, também pode ser usada para manipular discursos e criar mobilizações artificiais, enquanto as desigualdades de acesso podem aprofundar clivagens sociais e a concentração de poder tecnológico em poucas entidades suscita preocupações quanto à transparência, responsabilidade e participação democrática.

O próprio setor da educação, espaço privilegiado de desenvolvimento de competências como o pensamento crítico, a ética digital e a responsabilidade coletiva, enfrenta sérios desafios: como integrar a IA de forma ética, como avaliar aprendizagens num contexto em que a produção de conteúdo pode ser automatizada, e como preparar docentes para um ambiente em constante transformação, sem recorrer exclusivamente à proibição?

Não estou certo de que a IA venha eliminar a capacidade crítica de cada um de nós, mas certamente criou condições para que essa capacidade possa ser enfraquecida se não for ativamente cultivada e se outros contrapesos não forem preservados. Há escolhas coletivas e individuais, por exemplo, na educação e formação pessoal, na regulação e em práticas quotidianas, que vão desde o lazer à forma como nos relacionamos, que hoje são ainda mais críticas. Na prática, não podemos apenas questionar sobre o que é que a IA faz às pessoas, mas também que condições estamos coletivamente a criar para que as pessoas a possam usar sem abdicar da sua capacidade de pensar, questionar e agir em conjunto.

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