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Pedro Proença Advogado
01.05.2026

Operação Influencer: a ciência forense do “toca e passa”

Em vez de uma verdade encapsulada e distante, temos uma verdade participada, comunitária, quase convivial. Se várias mãos tocaram, várias consciências atestam. É a prova em regime de condomínio.

Há investigações que entram para a história pela sua sofisticação técnica. Outras, pela sua capacidade de transformar o detalhe mais prosaico numa metáfora nacional. A Operação Influencer, ao que parece, decidiu trilhar o segundo caminho. Entre notas contadas sem luvas e escutas que surgem dois anos depois, constrói-se um enredo onde o rigor convive com a informalidade, como quem diz, laboratório com esplanada.

Comecemos pela contagem de dinheiro, afinal, o gesto mais pedagógico de todos. A imagem é irresistível. Pacotes de notas, mesa preparada, concentração digna de exame nacional… e mãos nuas, desassombradas, a fazer o que as mãos portuguesas sempre fizeram melhor, resolver. Há aqui um certo romantismo táctil. A prova, outrora tratada como entidade quase sagrada, com luvas, pinças e uma reverência quase litúrgica, dá lugar a uma abordagem mais próxima da mercearia de bairro. Não é descuido. É proximidade. É o Estado a dizer: “confio tanto na verdade que posso tocá-la.”

Dir-se-á que a cadeia de custódia exige cuidado, que as impressões digitais são matéria sensível, que a contaminação pode comprometer leituras. Tudo verdade, mas talvez estejamos a perder o ponto. O método “toca e passa” democratiza a prova. Em vez de uma verdade encapsulada e distante, temos uma verdade participada, comunitária, quase convivial. Se várias mãos tocaram, várias consciências atestam. É a prova em regime de condomínio.

Claro que há quem torça o nariz. Gente que fala de protocolos, de procedimentos, de “boas práticas”. Pessoas que gostam de luvas. Mas talvez a inovação esteja precisamente em libertar a investigação desse excesso de formalismo. A luva, convenhamos, cria distância. A mão nua aproxima. E numa época em que tanto se fala de proximidade entre instituições e cidadãos, nada como começar pelo contacto directo com a matéria probatória. O Estado que toca é o Estado que sente.

Passemos à outra pérola. Uma escuta que aparece dois anos depois. Aqui já não estamos no domínio do tacto, mas da audição, ainda que com um ligeiro atraso, como em certas transmissões de televisão. Há quem veja nisto uma

falha. Eu prefiro ver uma opção estética. A justiça, tantas vezes acusada de ser demasiado rápida para uns e demasiado lenta para outros, ensaia uma terceira via, a via do tempo certo. Nem cedo demais, para não precipitar conclusões, nem tarde demais, para não perder o suspense. Dois anos é um número redondo, com dignidade. Dá para maturar, para deixar assentar, para que a escuta ganhe densidade narrativa.

Imagine-se a escuta a envelhecer em barrica, como um bom vinho. No primeiro ano, ainda verde, cheia de arestas. No segundo, mais encorpada, com notas de carvalho e uma persistência que se prolonga no final de boca. Quando finalmente é servida ao público, já não é apenas uma gravação mas sim um produto curado. A prova, aqui, não é apenas colhida. É uma prova afinada.

Há também um lado quase arqueológico neste aparecimento tardio. Como se a investigação fosse um sítio em escavação contínua, onde, de tempos a tempos, alguém exclama: “encontrámos mais isto”. A diferença é que, em vez de ânforas romanas, surgem áudios contemporâneos. E, tal como na arqueologia, a descoberta fora de tempo não invalida o achado, apenas reconfigura o contexto. O passado, afinal, é um lugar cheio de surpresas.

Dir-se-á que a surpresa, em matéria de justiça, deve ser doseada. Que o previsível é amigo da segurança jurídica. Concordo. Mas também é verdade que a previsibilidade excessiva aborrece. E a Operação Influencer, pelo menos nisso, não aborrece. Entre a mão sem luva e a escuta tardia, há um fio condutor que é a recusa do tédio. A investigação como narrativa, com ritmo, com pontos de viragem, com cliffhangers. Se a verdade é uma construção, por que não admitir que também pode ser uma história bem contada?

Há quem tema que, no meio desta coreografia, se perca a fiabilidade da prova, a integridade do processo, a confiança dos cidadãos. São receios legítimos. Mas talvez devamos reconhecer que a confiança, tal como a prova, também se constrói por camadas. E, paradoxalmente, há momentos em que a exposição das fragilidades, seja a mão que toca, seja o áudio que tarda, contribui para uma compreensão mais honesta do sistema. Não é um mecanismo perfeito. É um organismo vivo, com idiossincrasias, com improvisos, com aquele jeitinho que nos é tão familiar.

No fim do dia, a Operação Influencer deixa-nos uma lição inesperada. A justiça não é apenas um conjunto de normas, é também um conjunto de gestos. Alguns são técnicos, outros simbólicos. Alguns pedem luvas, outros pedem mãos. Alguns chegam a horas, outros chegam depois. O importante, dirão, é que cheguem. E que, quando chegarem, saibamos o que fazer com eles.

Talvez um dia voltemos às luvas, às pinças, aos prazos imaculados. Ou talvez descubramos que, entre o laboratório e a esplanada, há um território intermédio onde a verdade se constrói com menos cerimónia e mais humanidade. Até lá, ficamos com a imagem das notas contadas com dedos que deixam marca e escutas que chegam com atraso, como certas cartas importantes, que demoram, mas acabam por aparecer na caixa do correio. E quando aparecem, todos querem lê-las.

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