2026: Tecnologia de ponta, mentalidades medievais
Os momentos mais perigosos da História não são aqueles em que tudo colapsa, mas aqueles em que todos fingem que nada está a mudar. Em 1026, ninguém previa a avalanche de transformações que se seguiria.
A História raramente muda de repente. Prefere fazê-lo em silêncio, nos interstícios, nos anos que não ficam nos manuais escolares. O ano de 1026 foi um desses momentos. Não marcou o fim de um império nem o início de uma revolução. Marcou algo mais subtil: o instante em que a ordem antiga continuava de pé, mas já não explicava o mundo. Mil anos depois, 2026 parece assustadoramente semelhante.
Em 1026, a Europa vivia a ilusão da estabilidade. O Império Bizantino ainda parecia poderoso, o Sacro Império tentava impor autoridade sobre uma nobreza fragmentada, e o mundo cristão acreditava que a sua estrutura política e religiosa era duradoura. No entanto, por baixo dessa superfície, as forças que iriam redefinir o continente já estavam em movimento. O poder central enfraquecia, as periferias ganhavam margem de manobra e a violência futura, cruzadas, guerras dinásticas, colapsos imperiais, germinava em silêncio.
Não foi diferente no mundo islâmico da época. Culturalmente vibrante, economicamente sofisticado, mas politicamente fragmentado, avançava para uma dispersão de poder que tornaria inevitável o choque com o Ocidente nas décadas seguintes. Também aí, em 1026, quase ninguém falava de declínio. Falava-se de continuidade. Era o erro clássico.
Portugal, em 1026, não existia. Mas isso é apenas uma meia-verdade. Existia como território, como fronteira, como experiência política. O espaço que viria a ser português era uma margem do mundo cristão europeu, dependente de um centro distante, sujeita a conflitos constantes, obrigada a desenvolver uma cultura de autonomia prática sem soberania formal. Foi nessa condição periférica que se aprendeu a negociar poder, a sobreviver entre ordens maiores e a construir identidade antes de a proclamar. Portugal não nasceu quando o centro era forte; nasceu quando o centro já não conseguia controlar as margens.
Avancemos mil anos. Em 2026, também vivemos numa ordem que insiste em apresentar-se como estável, mas que já não convence plenamente. As instituições internacionais permanecem, os tratados continuam assinados, os discursos repetem fórmulas gastas. Contudo, o comportamento real dos Estados mostra outra coisa: desconfiança, fragmentação, alianças fluidas, regresso da força como instrumento legítimo de política externa. A ordem construída após a Segunda Guerra Mundial ainda existe no papel, mas perdeu capacidade de organizar o mundo.
Tal como em 1026, os grandes centros de poder parecem cansados. Saturados. Incapazes de responder com rapidez a desafios que se acumulam: tecnológicos, demográficos, climáticos, militares. E, tal como então, são as margens que se adaptam primeiro. Estados pequenos, regiões periféricas, sociedades flexíveis percebem mais cedo que as regras mudaram, mesmo quando ninguém o admite oficialmente.
Portugal em 2026 volta a estar numa margem. Não já como fronteira militar, mas como fronteira económica, social e política dentro de uma Europa que hesita entre aprofundar-se ou fragmentar-se. Dependente de estruturas maiores, com pouco peso para impor agendas, mas com uma longa tradição de adaptação estratégica. A diferença é crucial: em 1026, esta margem ainda não sabia que viria a ser Estado; em 2026, sabe que é Estado e teme perder relevância.
É aqui que o paralelo histórico se torna incómodo. Os momentos mais perigosos da História não são aqueles em que tudo colapsa, mas aqueles em que todos fingem que nada está a mudar. Em 1026, ninguém previa a avalanche de transformações que se seguiria. Em 2026, também ninguém consegue descrever com clareza a ordem que virá. Mas os sinais estão lá: erosão da autoridade central, crise de legitimidade das instituições, retorno da lógica de força, sociedades divididas entre medo e nostalgia.
A História ensina que, nestes períodos, não vence quem é maior, mais rico ou mais antigo. Vence quem lê melhor a transição. Portugal só foi decisivo quando percebeu cedo que o centro enfraquecia e agiu antes de a nova ordem se cristalizar. Quando esperou demais, pagou caro.
1026 foi um ano silencioso. 2026 promete sê-lo também. E isso é precisamente o que o torna decisivo. Nos anos silenciosos, definem-se as trajetórias; nos anos ruidosos, apenas se colhem as consequências. A questão que fica não é se o mundo vai mudar, isso é inevitável, mas se Portugal, herdeiro de uma longa experiência de vida na margem, ainda sabe reconhecer o momento em que o silêncio antecede a rutura.
A História não se repete. Mas rima. E, quando rima durante mil anos, convém escutar com atenção.
2026: Tecnologia de ponta, mentalidades medievais
Os momentos mais perigosos da História não são aqueles em que tudo colapsa, mas aqueles em que todos fingem que nada está a mudar. Em 1026, ninguém previa a avalanche de transformações que se seguiria.
Greve geral: Quando o direito dos outros entra pela nossa casa dentro
Uns pais revoltavam-se porque a greve geral deixou os filhos sem aulas. Outros defendiam que a greve é um direito constitucional. Percebi que estávamos a debater um dos pilares mais sensíveis das democracias modernas: o conflito entre direitos fundamentais.
Proibir a apanhada? A infância no banco dos réus
Que tipo de sociedade estamos a construir quando recorremos aos tribunais para tentar proibir a apanhada?
“Operação Obélix”: A fraude engorda quando o Estado emagrece
Os sistemas públicos precisam de alarmes, alertas e indicadores automáticos. No caso de Obélix, era impossível não notar que uma única médica prescrevia milhares de embalagens em volume muito superior ao padrão clínico nacional.
Os cartazes do Chega: A tolerância é o antídoto
Não devemos negar às pessoas a oportunidade de avaliar a verdade por si mesmas.
Edições do Dia
Boas leituras!