O populista André Ventura não se queria associar. Na véspera, anunciou o voto contra. No Parlamento, puxou a si a intervenção para falar grosso. Mas a montanha pariu um rato. Já com as votações a decorrer, é anunciado um acordo escrito para deixar passar o projeto.
Regresso às nossas crónicas, enriquecido pelo nascimento do
meu filho Luís e pelo mês de licença que gozámos juntos. A semana do meu regresso foi profícua e
equívoca, e não me refiro ao drama entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus.
Montenegro, por fim, acedeu às condições de José Luís Carneiro para viabilizar
o Orçamento do Estado, aprovando uma linha para continuar as obras do PRR e
dando garantias quanto à revisão constitucional. Por boa medida, aprovou com a
abstenção do CHEGA a sua nova lei do arrendamento.
Horas
antes, parecia certo que a proposta do Governo chumbaria. Empacotado com uma
necessária modernização das regras de despejo, Pinto Luz desfaz praticamente
todas as proteções e direitos de um inquilino. Se antes um senhorio só podia
rescindir unilateralmente o contrato após 3 anos, agora poderá fazê-lo por mera
comunicação prévia. As rendas em novos contratos, limitados à inflação mais 2%,
deixarão de ter qualquer controle. Desde o fim do limite à caução ao aumento do
número de rendas antecipadas, a proposta de lei é de um desequilíbrio total.
O
populista André Ventura não se queria associar. Na véspera, anunciou o voto contra. No Parlamento, puxou a si a
intervenção para falar grosso. Mas a montanha pariu um rato. Já com as votações
a decorrer, é anunciado um acordo escrito para deixar passar o projeto.
A cambalhota do CHEGA não surpreende.
O duplo mortal a que todos assistimos no pacote laboral diz-nos tudo sobre a
coluna vertebral do seminarista de Mem Martins. Mais preocupante é quanto é que
o PSD teve de oferecer para o fazer dançar. Consistentemente em 3.º lugar nas
sondagens, o Governo não se pode dar ao luxo de derrotas políticas. A pouca
agenda reformista que ainda lhes resta tem de avançar, a qualquer custo. E Ventura
sabe disto. Sabe que tem a faca e o queijo na mão.
A lei do arrendamento levou a relação
entre a AD e o CHEGA a um novo patamar: o acordo escrito. Luís Montenegro tinha,
até ao momento, governado à vista, escolhendo os parceiros parlamentares que
lhe são mais convenientes para cada ocasião. É um modelo invulgar. Na maioria
dos países europeus, a formação de um governo é precedida por semanas de negociações.
No fim, há um acordo global - público, firme e escrutinável por todos. Foi
assim, nomeadamente, com a afamada “Geringonça”.
Agora há
acordo escrito, mas este está sob sigilo. Desconhecemos o seu âmbito – se é
limitado a esta lei – e quais são as suas contrapartidas. Ao longo deste ano,
já muito se suspeitava que alguma radicalização do PSD seria condição da
extrema-direita para salvar as alterações ao Código de Trabalho. Chegou-se,
mesmo, a debater se o Governo não iria, por isso, aceitar a descida da idade da
reforma. Na altura, à última da hora, foi tudo por água abaixo. Mas agora que
não foi, e que há um papel que o comprova, importa saber porquê. E com que
consequências.
A
assinatura do primeiro acordo escrito entre PSD e CHEGA é, goste-se ou não, o
atravessar de um rubicão político. É mais um passo na normalização da
extrema-direita no nosso país. Alguma direita moderada acha que o faz por
estratégia: assim, a extrema-direita está mais condicionada, esvaziada. Outra
admite que o faz por mera conveniência política. Seja como for, isso não pode
ser indiferente a qualquer democrata, e muito menos ao PS.
Nestes 2 anos e meio, o PS tem
viabilizado Orçamentos e outras leis, não obstante a agenda radical das burqas
e bandeiras ou o ataque ao SNS e à escola pública. Se hoje o Governo diz que
não há margem para mais medidas de alívio do custo de vida é porque aprovou com
o CHEGA a descida do IRC e os benefícios às “rendas moderadas”, cujo impacto
orçamental chegará em 2027 aos 1500 milhões de euros.
Já no início do ano, Carneiro tinha
avisado, perante a indiferença de Montenegro, que a paciência tem limites. No Congresso, com Montenegro a privilegiar
Ventura nas negociações para o Tribunal Constitucional, Carneiro avisou que era
altura de decidir e que quem semeia ventos, colhe
tempestades. A audácia de firmar um acordo com o CHEGA no mesmo dia em que
Carneiro anuncia a viabilização do Orçamento do Estado é mais uma machada na
relação de confiança que Montenegro devia estar a construir – não só com o PS,
mas com o país.
Não tem de
ser assim. Esta semana, um conjunto de personalidades do PS e PSD lançaram uma
carta aberta a defender entendimentos entre estes dois partidos centrais. O
diálogo dos moderados é também um dos fins do Instituto Progresso, lançado no
final de agosto.
Somos muitos a querer esse caminho mas
ele exige respeito e lealdade. Como escrevemos na moção que levámos ao
Congresso do PS, pactos de regime não são a mesma coisa que um bloco central. Não
precisam de servir para suspender as diferenças entre os partidos, mas como chão
comum sobre o qual transformemos o país e valorizemos as escolhas alternativas
de cada um.
Como explicou António José Seguro, no discurso do 5 de Outubro, a estabilidade
não é um fim em si mesmo. Mas é uma condição essencial para as coisas se
fazerem. Agora mais que nunca, cabe ao PSD decidir com quem quer fazer acordos e
a que preço.
O populista André Ventura não se queria associar. Na véspera, anunciou o voto contra. No Parlamento, puxou a si a intervenção para falar grosso. Mas a montanha pariu um rato. Já com as votações a decorrer, é anunciado um acordo escrito para deixar passar o projeto.
O país não pode ficar satisfeito com debater se este é o momento para reformar o nosso sistema de pensões. Devemos mesmo debater quais os seus verdadeiros desafios e que soluções podem estar à altura.
O Ministro da Defesa poderia ser hoje a estrela do Governo. Portugal prepara-se para comprar 3 das mais avançadas fragatas do mundo. Infelizmente, as suspeitas levantadas pelo Chega de participação privada no negócio da venda das fragatas foram elevadas a drama político-judicial pelo próprio Ministro.
O problema nunca foi o Primeiro-Ministro descansar. Foi ter sentido necessidade de anunciar ao país que não o faria, como se trabalhar sem parar fosse certificado de empenho e tirar férias uma pequena deserção do dever.
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