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Enviada de segunda a domingo às 21h
Este Governo, ao longo deste último ano, deu um contributo claro para o aumento da procura e o agravamento da crise da habitação.
No meio da crise política, passou relativamente despercebido a publicação pelo INE do índice de preços da habitação para o 4.º trimestre de 2024. Confirmou-se uma realidade há muito sentida no terreno – há 10 anos que os preços das casas não subiam tanto, tendo crescido 11,6% face ao mesmo período do ano anterior.
É verdade que o mercado da habitação é diferente. A procura conhece tanto flutuações imprevisíveis como variações estruturais. Veja-se a utilização nacional e internacional de imóveis como bens de investimento. Por outro lado, a oferta demora tempo a responder, designadamente o tempo de licenciar e construir uma casa. Todavia, é verdadeiramente um dos bens onde não se pode dizer que o mercado seja eficiente ou indiferente à regulação ou à intervenção do Estado.
No caso, este Governo, ao longo deste último ano, deu um contributo claro para o aumento da procura e o agravamento da crise da habitação. Tivemos o regresso do regime dos residentes não-habituais, o travão à mão-de-obra imigrante na construção, alertada por um Ministro deste próprio Governo, e, ainda, a liberalização do alojamento local, com o fim da suspensão de novas licenças e da contribuição extraordinária que equilibrava a carga fiscal entre estes e o arrendamento. Acresce a isto o Governo ter atrasado a possibilidade dos inquilinos registarem os seus contratos, o que não só lhes daria mais direitos como também permitia às famílias deduzir legalmente a sua renda ou ao estudante deslocado receber o apoio ao alojamento.
Infelizmente, esta subida dos preços da habitação vem, na prática, eliminar o efeito que a isenção de IMT e Imposto de Selo tiveram na capacidade aquisitiva dos jovens. Para uma casa com o preço médio (216 mil euros, em 2024) é habitualmente devido cerca de 6.600€ na totalidade destes dois impostos. Ora, se as casas tiveram um aumento de preços, em média, de 11,6%, esta "casa média" subiu de preço 22.450€ ao longo do último ano. Já em 2023, o preço das casas subiu apenas 7,8%. Tivesse o Governo sido capaz de manter o preço da habitação a crescer ao mesmo ritmo do ano anterior, o preço da casa tinha encarecido menos 6.800€. Ou seja, as poupanças fiscais dos jovens são menos de um terço do aumento total do preço das casas em 2024. São pouco menos do que a diferença entre o que os preços cresceram em 2023 e 2024.
Que parte do aumento do preço se deve a que política é, obviamente, muito difícil de analisar. Que haja jovens que tenham beneficiado da medida, também é natural. Resta saber se, com o aumento dos preços, hoje haja menos jovens a poder comprar casa do que havia há um ano. Segundo os últimos dados do Banco de Portugal, a percentagem de jovens entre os 18 e 35 anos no total das pessoas que compraram casa em 2024 (42,7%) até pode ser maior do que o de 2023 (40,6%) mas é menor do que o verificado nos dois anos anteriores. (43,1% em 2022 e 44,2% em 2021).
Tudo junto, está bom de ver que, ao aliviar alguns dos travões à procura imobiliária que o Governo do PS tinha introduzido, a política de habitação deste Governo assume-se como um monumental fracasso. Podíamos recorrer a outros exemplos – como o atraso de 6 meses na resposta a candidaturas do Porta 65 ou o anúncio de IVA a 6% para todas as obras, gerando um incentivo para adiar obra à espera da entrada em vigor de uma versão barata do imposto.
Portugal ainda vive uma crise da habitação. É uma realidade que encontra espelho internacional, por muito que seja especialmente grave aqui. No próximo dia 18 de maio, o país vai a votos e pode escolher não só lideranças como também projetos para o país. Todavia, como cantava Sérgio Godinho sobre o seu amigo Casimiro, cuidado com quem tudo promete. É preciso "ter cuidado com as imitações".
A destruição estende-se muito para além do que algum órgão de comunicação social conseguiria retratar: estradas secundárias intransitáveis, habitações isoladas, empresas paradas, campos devastados, populações exaustas.
Pode estar fora de moda, mas, como Mário Soares também dizia, um político assume-se. Eu sou socialista e este artigo não é sobre as eleições – é um remédio para um dos seus sintomas. É o elogio que o socialismo merece.
O idealismo deu lugar ao cinismo, logo agora que mais precisávamos dele, quando não nos podemos dar ao luxo de relativizar os nossos princípios. Porquê e para quê? Nesta encruzilhada dramática da nossa vida em comum, temos de enfrentar de forma lúcida as razões que podem informar uma decisão destas.
As sondagens apontam para uma espécie de montanha-russa de preferências eleitorais. No espaço de poucos meses, aquilo que parecia um fait accompli para Gouveia e Melo e, depois, para Marques Mendes, tornou-se um penoso martírio para ambos.
Tudo demora tempo. Tudo custa muito dinheiro. Tudo é disperso pelo território e por centenas, senão mesmo milhares de agentes, entre Estado, autarquias e privados, que tornam qualquer processo de transformação ainda mais lento e custoso.
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