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João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
29 de agosto de 2026 às 08:18

Terroristas na Festa do Avante

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Edição de 26 de agosto a 1 de setembro

No Seixal, este Agosto, no ano 1448 da era islâmica, os comunistas reconhecerão os seus e o estado português sumir-se-á mofino, negligente, desavergonhado.

A «Frente Popular para a Libertação da Palestina» está presente pela quinta vez na «Festa do Avante!» desde que a União Europeia a designou, em Junho de 2002, como organização terrorista. 

O estado da Palestina, proclamado em 1988 pela «Organização para a Libertação da Palestina» de Yasser Arafat foi, por sua vez, reconhecido por Portugal em 2005 e o seu nonagenário presidente Mahmoud Abbas envia, também, mais uma vez, uma delegação à festa dos comunistas portugueses. 

Logo se será o que venha a sair do debate agendado para hoje, no Seixal, sobre a «Palestina Livre e Independente», mas certo é que a FPLP está em conversações com o «Hamas», a «Jihad Islâmica» e outros opositores da «Organização para a Libertação da Palestina» para a eventual formação de listas conjuntas para eleições legislativas nos territórios palestinianos. 

Adiadas desde 2006 as eleições em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Gaza estão marcadas para 28 de Novembro, algo que, talvez, galvanize o PCP que tem uma atracção compreensível por combatentes antissionistas e anti-imperialistas.  

A «Frente Democrática para a Libertação da Palestina», de Nayef Hawatmeh, com carimbo marxista-leninista, também já foi ao Seixal em 2019, por exemplo, e, naturalmente, em matéria de «libertação nacional» e «progresso» os luso-comunistas, como afirma Paulo Raimundo, não reconhecem «critérios arbitrariamente impostos por entidades sem qualquer credibilidade» como a União Europeia. 

A credibilidade da violência é, de facto, o que importa. 

No Levante a custo se destrinça quanto pesam e ao que possa levar a prática sistemática de violência letal por fins políticos de estados – caso de Israel ou do Irão – e de uma infinidade de militâncias nacionalistas, religiosas, sectárias. 

Há muito a aprender ainda assim. 

A «Frente Popular para a Libertação da Palestina», uma das facções nacionalistas, com laivos marxistas e pan-arabistas, vincadamente secular, criada, em 1967, pelo médico George Habash, oriundo de família cristã ortodoxa, é um caso exemplar. 

Habash, numa compita incessante com rivais, num emaranhado de cisões e traições, apostou em chegar aos céus e foi pioneiro ao abrir uma campanha sistemática de pirataria aérea política. 

O primeiro sequestro ocorreu em Julho de 1968 quando três militantes embarcaram em Roma num voo da companhia israelita «El Al» com destino a Telavive e forçaram os pilotos a aterrar em Argel. 

Em Fevereiro de 1969 a opção passou por atacar a tiro, com granadas e dinamite para explodir um Boeing da «El Al» que se preparava para descolar de Zurique e aí, surpresa, surgiu, pela primeira vez, uma mulher. 

Um tripulante morreu no tiroteio, um terrorista foi abatido por um segurança da «El Al», e os demais atacantes foram detidos na pista do aeroporto. 

Amina Dahbour, de 24 anos, pioneira num ataque deste género, e outros dois militantes da FPLP seriam condenados a 12 anos de prisão e a detenção iria dar origem a uma das mais espetaculares operações da FPLP.  

Antes, porém, outra palestiniana de 25 anos impor-se-ia nos anais do terrorismo aéreo para maior orgulho de Habash. 

Leila Khaled e Salim Issawi apoderaram-se de um avião da companhia norte-americana «TWA», em Agosto de 1969, e desviaram-no da rota Roma-Telavive para aterrar em Damasco. 

Leila, militante da ala esquerda laica do nacionalismo palestiniano, ascendeu de imediato ao estrelato de heroína da luta contra o sionismo e o imperialista. 

Um ano mais tarde as coisas complicar-se-iam.  

Leila e um camarada nascido em S. Francisco, filho de um nicaraguense e de uma norte-americana de ascendência irlandesa, Patrick Argüello, fracassaram no intento de capturar um voo da «El Al» saído de Amesterdão com destino a Nova Iorque. 

Argüello morreu na refrega com seguranças da «El Al» e passageiros quando os pilotos recusaram abrir a porta do cockpit e efectuaram uma manobra de emergência, fazendo o avião descer a pique. 

Khaled não conseguiu explodir as granadas que trazia, foi imobilizada e detida pelas autoridades inglesas depois do aparelho aterrar de emergência em Londres a 6 de Setembro de 1970, 

Este fracasso não comprometeu a operação de desvio de aviões para a Jordânia para exigir a libertação de presos palestinianos concebida pelo chefe operacional da FPLP, Wadie Haddad, outo palestiniano oriundo de família cristã-ortodoxa, nacionalista e pretensamente marxista-leninista.   

Numa altura em que se agravavam os confrontos diários entre as tropas beduínas do rei Hussein a «Al Fatah» de Yasser Arafat e demais facções palestinianas, a FPLP tinha ocupado um antigo aeródromo em Zarqa, no noroeste da Jordânia. 

Dawson’s Field servira a «Royal Air Force» na II Guerra Mundial e iria receber os aviões que a FPLP planeara desviar, bem como os reféns.      

Dois militantes que não tinham conseguido acesso ao voo da «El Al» em Amesterdão embarcarem em alternativa num Boeing da norte-americana «Pan Am» e desviaram-no para Beirute, seguindo depois para o Cairo, onde fizeram explodir o aparelho ao aperceberem-se de que não seria possível aterrar em Dawson’s Field. 

No mesmo dia aparelhos da «Swiss Air» e da «TWA», foram desviados na Europa para o antigo aeródromo britânico no deserto jordano. 

A 9 de Setembro foi a vez de um voo da companhia britânica «BOAC» ser sequestrado no Bahrain, elevando para 310 os reféns dos guerrilheiros da FPLP que se encontravam, por sua vez, na mira de militares jordanos.    

Negociações inconclusivas quanto à exigência de libertação de 56 terroristas palestinianos, libaneses e argelinos, a dispersão dos reféns por hotéis em Amã, campos palestinianos e residências clandestinas, monopolizaram as atenções.  

O grande momento de terrorismo para televisão – uma apoteose que levaria ao sequestro de atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique e ao 11 de Setembro da «Al Qaeda» – chegou dia 12 de Setembro quando a FPLP trouxe uma equipa da «Independent Television News» britânica de Amã para filmar no crismado «Aeroporto da Revolução» a destruição dos três aviões. 

Eram 15:30hh, no deserto da Jordânia, quando o operador de câmara palestiniano Ghassan Dallal e o jornalista inglês Michael Nicholson filmaram as explosões  

Nesse sábado o terrorismo espectacular veio para ficar.  

Quatro dias depois rebentava a guerra aberta que levaria à expulsão dos guerrilheiros palestinianos da Jordânia; «Setembro Negro», capítulo fatídico de uma saga sangrenta. 

As heroínas Amina Dahbour e Leila Khaled iriam, entretanto, contar-se entre sete terroristas libertados pelas autoridades suíças, alemãs e britânicas.  

A FPLP tentava evitar vítimas civis, e, por uma  imensa sorte, apesar da anarquia e improvisações em Dawson’s Fiel, nenhum refém seria morto no «Aeroporto da Revolução».  

Setembro finou-se e, logo então, o coração traiu Gamal Abdel Nasser, a grandiloquente voz egípcia do pan-arabismo. 

No Cairo, a 1 de Outubro de 1970, Amina, na compostura de um tailleur cinzento, e Leila, de calças e casaco escuros, estariam presentes levando uma coroa de flores no funeral de Nasser. 

Nunca mais se veria tal coisa. 

Muitas guerras depois, os radicais islamistas varreram todo esse mundo. 

A FPLP é um resquício doutra era.   

Vítima de ataque cardíaco, Habash faleceu em Amã em 2008, e as octogenárias Amina e Leila ainda hoje se contam entre os vivos, veneradas como pioneiras de uma revolução palestina que falhou ao prometido.  

No Seixal, este Agosto, no ano 1448 da era islâmica, os comunistas reconhecerão os seus e o estado português sumir-se-á mofino, negligente e desavergonhado. 

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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