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João Carlos Barradas
14.03.2026

O desafio do tudo ou nada no Irão

O tudo ou nada nuclear é o que mais importa nesta guerra.

Capturar o urânio enriquecido ou criar zonas de alta radiação que impeçam o acesso às reservas iranianas são duas opções arriscadas e de tremendo custo político que Israel e os Estados Unidos terão de considerar a curto prazo.

Os bombardeamentos de Junho do ano passado não «obliteraram» o programa militar nuclear iraniano, ao contrário do que afirmou Donald Trump.

Acresce que os ataques norte-americanos e israelitas estão longe de levar à queda de um regime empenhado numa guerra de desgaste dificilmente sustentável para a Casa Branca.

A mobilização das milícias Basij, dos corpos de polícia regular, de Guardas da Revolução e Forças Armadas, tem permitido fazer frente à ofensiva e a eventual contestação e subversão internas.

O Irão terá perdido perto de dois terços das suas as capacidades militares, mas conta ainda com meios suficientes para destabilizar as monarquias do Golfo e o tráfego marítimo.

Apesar da incerteza quanto à coesão política da República Islâmica – patente no desconcerto quanto à liderança efectiva de Mojtaba Khamenei, O Oculto – e às vias de subsistência económica do regime,

está descartada a hipótese de que esta guerra leve ao poder alternativas compatíveis com os interesses urgentes ou mediatos dos Estados Unidos e Israel.

É improvável, de resto, que o conflito acabe com acordos políticos de segurança mútua entre Teerão, os Estados Unidos, Israel, estados do Golfo Pérsico, e demais países vizinhos, da Rússia e Turquia ou do Azerbaijão ao Paquistão.

A urgência em assegurar a navegação comercial no Estreito de Ormuz, aliás, levou já a compromissos de estados que tentam evitar um envolvimento directo na guerra.

Washington tarda em prover eventuais escoltas militares à navegação comercial ou em lançar tropas contra múltiplos focos de ataque ao tráfego no Estreito de Ormuz dispersos ao longo da costa iraniana.

O ministro dos transportes de Ancara, Abdulkadir Uraloglu, anunciou, assim, sexta-feira, que Teerão permitira a travessia do Estreito de um dos 15 navios com pavilhão turco que se encontram no Golfo.

França e Itália tentam, por sua vez, negociar com Teerão salvo-condutos para petroleiros e navio de transporte de gás-natural.

O tumor nuclear

Mesmo que no curto prazo as capacidades de operacionalizar um dispositivo nuclear para detonação estejam comprometidas, Teerão conta com recursos humanos qualificados e conhecimentos tecnológicos suficientes para retomar um programa militar.

Atingir o patamar de 90% de enriquecimento de urânio para armar um dispositivo nuclear é, ainda, algo ao alcance do Irão.

Na central de Ispahan encontram-se provavelmente soterrados ou salvaguardados em condições incertas cerca de 200 quilos de urânio enriquecido a 60%, segundo a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

Em Natanz e Fordow, além de outros locais desconhecidos, poderão, igualmente, estar acessíveis reservas de urânio para utilização militar, ascendendo a um total de 440 quilos, de acordo com o director-geral da AIEA, Rafael Grossi.

Unidades do Joint Special Operations Command norte-americano e de forças especiais israelitas têm capacidade para apoderar-se de Natanz, pelo menos, para possibilitar a técnicos especializados condições para lidar com materiais radioactivos.

As condições de combate no Irão e o acesso a instalações subterrâneas onde se encontrem os

cilindros de urânio em estado gasoso exigem, contudo, uma presença no terreno de milhares de militares por um período prolongado.

O tudo ou nada nuclear é o que mais importa nesta guerra.

Se Israel e os Estados Unidos fracassarem na erradicação a curto e médio prazo do programa militar nuclear iraniano nunca haverá possibilidade de negociações de paz e ainda maior será a tentação de proliferação regional de armas atómicas.

No rescaldo de mais uma guerra impor-se-á, mais uma vez, a fatídica e triste constatação de que qualquer estado desprovido de armas atómicas estará sempre à mercê das potências nucleares.

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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