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João Carlos Barradas
11.07.2026

Bondades e manhas do político à míngua de água

Há, contudo, coisas sem perdão e entre elas contam-se deixar as gentes na penúria de água ou no desalento da terra queimada.

Demorou a entrar no cardápio dos media institucionais a realidade comezinha da falta de água no município de Almada, enquanto o chefe do governo ia à bola, se acumulavam os problemas com guarda-sóis nas praias e exames nacionais.

Quando televisões, rádios e jornais deram pela míngua de água num município situado precisamente sobre o maior dos 62 sistemas aquíferos do país – Margem Esquerda do Vale do Tejo/Sado – começaram, então, as proclamações políticas.

A presidente da câmara, Maria de Medeiros, mostrou-se consternada ante «uma realidade difícil» e desconversou-se sobre investimentos por fazer na rede de abastecimento.

Trocaram-se acusações com a mesma convicção e sabedoria despendida na prevenção de fogos e cheias, denúncia de maus-tratos a idosos, expansão e modernização da rede ferroviária, entre outras questões candentes.

 Até próxima desgraça noutro recanto esquecido, a Margem Sul – esse «deserto» no dizer boçal, em 2007, de Mário Lino, ministro das Obras Públicas de José Sócrates – congrega as atenções de políticos e suas cortes, tanto mais que o Mundial já se foi. 

E que esperar dos decisores?

Poucochinho, um exemplo de liderança por um magno desígnio nacional ou qualquer coisinha?

As expectativas têm muito a ver com as imagens ideais do político que são, afinal, disputas entre propaganda e realidades encaradas em função do viés, interesses e aspirações de cada pessoa e seu círculo social.

Prestes a desabarem sobre nós as comemorações dos 900 anos da Fundação de Portugal, lembre-se a imagem do soberano propalada nesses primórdios por cronistas, pregadores, letrados.

Contemplamos hoje esse ideal de monarca cristão nas figurações em pedra, pinturas, tapeçarias e outras formas visuais.

Das lendas em torno da Batalha de São Mamede entre Afonso Henriques e Peres de Trava (1128), pelas crónicas das dinastias afonsina e joanina, perpassa um ideal físico de plenitude na saúde, força, beleza e virilidade, e de virtudes morais como a sabedoria, honra, amizade.

Entre hagiografias e críticas dissimuladas ou implícitas, eram sempre as virtudes cardeais de prudência, justiça, temperança e fortaleza, a definir a moralidade em que assentava a conduta do monarca.

Acresciam as virtudes teologais da fé, esperança e caridade para definir o perfil do rei cristão

Eram o que as crónicas denominavam as «bondades e manhas» exigidas à cabeça coroada, e a que o monarca se obrigava também, no exercício do poder real.

Levaria séculos até ganharem peso as razões de Maquiavel ao tentar ultrapassar as contradições insolúveis entre o ideal do monarca cristão e o exercício quotidiano do poder.

O fosso entre a «Cidade de Deus» e a «Cidade Terrena» fora há muito reconhecido e desde o século V, com Santo Agostinho, esta distinção passara a confundir-se com a luta entre o Bem e o Mal pela consumação do desígnio de Deus.

O florentino não veio, no século XVI, negar o valor das tradicionais virtudes cristãs ou enveredar pelo combate à Igreja.

Esclareceu, no entanto, que na esfera autónoma da política, a honestidade moral obrigava a reconhecer que para a efectiva conquista do poder e sua preservação importa a «virtù», a determinação, a impiedade e a inteligência, para aproveitar as oportunidades que a «fortuna», o acaso, propiciam.

Maquiavel é a ideia de política secularizada, sem laivos de predestinação divina, de uma república ou principado fortes governados em prol dos seus cidadãos.

Na ambígua relação de religião e política a massificação das disputas pela legitimidade na escolha das formas de poder e seu exercício, cada vez mais virulentas a partir do século XIX, tanto favoreceu vias democráticas, quanto regimes autoritários, ditatoriais e totalitários.

O poder delegado pelo povo soberano estilhaçou qualquer ideia unívoca do político como monarca representativo da nação ou do fulgor da Cristandade.

A imagem da virtude política – que não se confundia com outros atributos obsoletos das ordens de clérigos ou guerreiros – oscilou, assim, entre respeito pelo pluralismo, normas legais equitativas e independência do ramo judicial, busca de consensos na alternância eleitoral de governantes e a virulência do líder predestinado a impor pela força a vontade da nação, da raça, de classe.    

No universo circunscrito de democracia parlamentar representativa, ora vigente em Portugal, a imagem ideal do político ou da política num estado laico, assente no princípio da igualdade, é algo incerta.

Na ausência de precisões sobre ideias políticas, parecem vingar certas características pessoais, importando imenso o engenho demonstrado a comunicar por muito vaga que seja a pretensa mensagem.

  Vestir-se no primor da circunstância que requeira a selfie, aprumar-se, esmerar-se no gesto simpático ou ameaçador, é fulcral, é belo.

Poetava Vinicius de Moraes: «As muito feias que me perdoem. Mas beleza é fundamental.» 

O que vale para a «Receita de Mulher» do poeta carioca importa também para a receita de político fêmea ou político macho, sem desconsideração por outras formas de vida.  

Autodomínio, moderação, força de carácter, prudência, uma forte convicção de justiça, desapego e reconhecimento da pluralidade de crenças, capacidade de comunicar e ouvir, são, genericamente, qualidades reconhecidas e prezadas

O desaforo, boçalidade imoderada, incontinência verbal, o dizer e desdizer-se, são, ao invés, características igualmente apreciadas. É o gáudio de quem envereda pela violência contra gente que se despreza e amesquinha, proclamando de forma tenaz certezas imorredoiras.

Na ambiguidade da vida umas e outras qualidades confundem-se como defeitos ou virtudes, tal como uns têm fé na protecção divina e outros nem tanto ou mesmo nada.

Existe, ainda assim, um reconhecimento generalizado de que em «obras e pensamentos» é errado ou inconveniente prevaricar por roubo, furto qualificado, corrupção activa ou passiva, abuso de crianças, crimes sexuais e fiscais, infracções ao Código da Estrada, adultério e homicídio.  

Conclua-se que, na ausência, que a todos constrange, de uma imagem ideal, prevalecente e impositiva, do que devem ser «bondades e manhas» do político há, contudo, coisas sem perdão e entre elas contam-se deixar as gentes na penúria de água ou no desalento da terra queimada.

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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