Almada: a cidade com rio, mas sem água
A língua do poder local é um prodígio de canalização semântica. A água não falta: “o abastecimento encontra-se condicionado”. A rede não rebenta: “registou-se uma anomalia”. A gestão não falha: “foi activado um plano”.
Em Almada, a água tornou-se uma espécie de aparição mariana: há quem diga que a viu, há quem jure que correu durante uns minutos, há quem tenha enchido dois garrafões antes de o milagre acabar. O resto limita-se a abrir a torneira e a participar, involuntariamente, numa experiência de silêncio patrocinada pela gestão municipal.
Almada tem tudo: Tejo, Atlântico, praias, arribas, pôr do sol, bares, restaurantes, turistas. Só não tem água. Não deixa de ser uma proeza. Com tanta água, falta água. Transformar um serviço básico numa lotaria doméstica exige anos de inacção e muita lata. Porquê? Porque a culpa, claro, nunca mora na Câmara. A culpa é do calor, do verão, do consumo, das piscinas, da população sazonal, das lavagens, das mangueiras, das torneiras, talvez até da gravidade e da derrota com a Grécia no Euro 2004. Aparentemente, Almada foi apanhada de surpresa por esse fenómeno imprevisível que ocorre todos os anos entre Junho e Setembro: turistas na Costa da Caparica.
Durante décadas, o PCP “desadministrou” o concelho. Mau planeamento territorial, más políticas públicas, miséria generalizada. Enfim, para quê perder mais tempo nisto? Comunismo a funcionar. Depois chegou o PS, com discurso de “modernidade”, “cultura urbana”, “inovação”, “transição climática” e outras expressões que não dizem nada, mas enchem cartazes. A alternância trouxe novos protagonistas, novos slogans e novos estilos de fotografia oficial. A canalização, porém, parece ter continuado a viver no seu próprio regime político: o da ruptura permanente. Parece Cuba.
O cidadão comum, esse detalhe irritante entre a propaganda e a realidade, adaptou-se como pôde. Há quem encha tachos antes de dormir. Há quem planeie duches como se estivesse a organizar uma operação militar. Há quem lave louça por turnos, quem guarde garrafões, quem adie máquinas, quem faça contas à higiene dos filhos e dos pais idosos — já para não falar da sua. A vida quotidiana, que já era cara, cansativa e cheia de pequenas burocracias, recebeu agora um suplemento aquático: o receio de não haver uma gota quando for precisa.
Nos negócios locais, a situação ganha contornos ainda mais cómicos, se não fosse trágica. Um café sem água não é um café: é uma sala com mesas. Um cabeleireiro sem água é uma conversa com espelhos. Mas a retórica municipal tem sempre uma expressão limpa para tudo. Onde os comerciantes vêem prejuízo, a autarquia vê “constrangimentos operacionais”. Onde as famílias vêem desespero, alguém no gabinete descobre uma “ocorrência na rede”.
A língua do poder local é um prodígio de canalização semântica. A água não falta: “o abastecimento encontra-se condicionado”. A rede não rebenta: “registou-se uma anomalia”. A gestão não falha: “foi activado um plano”. A população não está furiosa: “foram manifestadas preocupações”. O ridículo não tem pressão baixa; corre sempre com abundância. Abundância que falta à água.
Depois vêm os pedidos de contenção. É o momento moral da peça. A Câmara, incapaz de garantir plenamente o serviço, explica ao cidadão como deve comportar-se. Poupe. Espere. Compreenda. Colabore. Evite. Reduza. Modere. Na verdade são conselhos fáceis de cumprir, na medida em que não há água. O contribuinte passa, assim, de cliente de um serviço público a suspeito principal do colapso. Pagou a rede, paga a tarifa, paga os impostos, paga os prejuízos, mas não tem água — e ainda leva uma catequese sobre responsabilidade. Responsabilidade sua. A da Câmara? Essa nem vê-la.
Mas a política municipal raramente aprecia perguntas com canalização interna. Prefere inaugurações, fotografias, seminários, promessas, roteiros, estratégias e planos com nomes compridos. Nunca falham concertos com nomes sonantes, pagos pelos contribuintes, na altura do verão, para animar a malta. Um cano novo não rende tanto numa campanha como uma praça requalificada. Uma rede invisível não dá corte de fita. A manutenção preventiva não sorri para a objectiva. E assim se percebe boa parte do drama: há obras que dão votos e obras que metem água. Em Almada, parece ter havido demasiada atenção às primeiras e pouca às segundas.
O PCP dirá que o PS governa e, portanto, que responda. O PS lembrará a herança recebida e fará aquela cara compungida de quem encontrou a casa desarrumada, mas já vive nela há tempo suficiente para saber onde está o contador. Ambos terão argumentos. Ambos tentarão salvar a pele. Nenhum deles tem razão. Primeiro, porque governam os dois. Segundo, porque nenhum deles poderá explicar decentemente a uma família sem banho ou a um comerciante de porta fechada por que razão um concelho deste tamanho trata a água como se fosse um privilégio intermitente.
Há qualquer coisa de profundamente portuguesa neste cenário: a infraestrutura envelhece, a administração discursa, o problema acumula, o cidadão aguenta, a ruptura acontece e, no fim, todos descobrem que era preciso ter feito antes aquilo que agora se anuncia com urgência. A emergência, em Portugal, é muitas vezes apenas o nome elegante dado à negligência quando ela finalmente aparece no telejornal.
Os munícipes vão aprendendo a nova liturgia local. À noite, enchem recipientes. De manhã, testam a torneira. Durante o dia, consultam avisos. À tarde, trocam relatos. E, em cada bairro onde a água falha, cresce uma certeza simples: o problema já não é apenas hidráulico. É político. Querem maior prova de incompetência do que não haver água num município que está ao lado de um rio? É que há quem queira que o Estado administre tudo em Portugal. Aqui o liberal gostava que o Estado conseguisse o mínimo dos mínimos: administrar a água.
Durante anos, venderam Almada como concelho de futuro. O futuro chegou. Veio seco, mal canalizado e acompanhado de um comunicado. No fim, talvez seja essa a grande inovação municipal: transformar uma cidade com rio, mar e praias num concelho onde o verdadeiro milagre é encher uma panela de água.
Almada: a cidade com rio, mas sem água
A língua do poder local é um prodígio de canalização semântica. A água não falta: “o abastecimento encontra-se condicionado”. A rede não rebenta: “registou-se uma anomalia”. A gestão não falha: “foi activado um plano”.
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