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Eurico Reis Juiz Desembargador Jubilado
25.01.2026

França 2002 e Portugal 2026 - A falência moral e ética de alguma direita

Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais em Portugal não foram tão maus como alguns supunham.

Ao contrário do que aconteceu em França em 2002, há em Portugal um candidato de uma das Esquerdas a disputar a segunda volta das eleições presidenciais e que, o que é muito relevante e significativo, venceu a primeira volta com uma diferença de 7,6% na votação relativamente ao candidato que o irá acompanhar nesse novo escrutínio (31,12% contra 23,52%).

O que é lamentável e constitui uma vergonha para o país que o outro candidato nessa segunda volta seja o representante da extrema-direita racista, xenófoba, homofóbica e fascista que, com uma preocupante impunidade, viola os mais elementares direitos humanos, uma criatura abjecta, mentirosa e sem escrúpulos, que, para se promover, semeia o ódio e a intolerância e quer destruir a Democracia e o Estado de Direito.

Recordo que, em França, em 2002, a divisão das Esquerdas provocou que, por uma diferença de 0,68% dos votos entre Jean-Marie Le Pen e Lionel Jospin (16,86% para o primeiro e 16,18% para o socialista), a segunda volta das eleições presidenciais fosse disputada entre o então já presidente Jacques Chirac (que apenas teve 19,88% dos votos) e aquele líder da extrema-direita francesa.

O gaulista Jacques Chirac acabou por ser reeleito para um segundo mandato com 82,21% dos votos contra 17,79% de Jean-Marie Le Pen.

Muito gostaria eu que tal resultado fosse replicado, em Portugal, no próximo dia 8 de fevereiro.

Porque, realmente, preservação da Democracia, do Estado de Direito e do pleno exercício dos direitos humanos universais, no nosso país terá tudo a ganhar com uma derrota esmagadora de André Ventura.

Relembro que, mesmo com esse resultado de 17,79% de Jean-Marie Le Pen, o panorama político em França não voltou a ser o mesmo e que, actualmente, o partido gaulista e o partido socialista, que foram as formações políticas dominantes (e que se alternavam no poder) durante a Vª República, têm votações residuais.

Ora acontece que, em 2026 e ao contrário do que ocorreu em França em 2002, quando todas as Esquerdas e as Direitas não gaulistas, apesar de todos os defeitos do candidato, apelaram ao voto em Chirac e nele concentraram os seus votos, em Portugal, os partidos da Direita institucional (PSD, CDS e Iniciativa Liberal) e alguns dos seus principais dirigentes, proclamam uma social e politicamente perigosa “equidistância” relativamente aos dois candidatos.

Isto quando a escolha é mais do que óbvia e António José Seguro é a pessoa que, pela sua decência e probidade e porque é aquele que sabe defender o Interesse Nacional e os interesses e aspirações das várias camadas do Povo, merece ser eleito o novo Presidente da República.

E, estou convicto, vai sê-lo.

Só que, insisto, para bem de todos e todas nós e do país, André Ventura tem de ter uma derrota esmagadora.

Até porque, independentemente de todas as questões de natureza política, é isso que ele pessoalmente merece.

Como já referi, o discurso político de André Ventura é contrário a todos os Valores Éticos e Morais que constituem a base ideológica que sustenta, fundamenta e estrutura a Democracia e o Estado de Direito.

E Democracia só há uma e não precisa de adjectivações - o termo “democracia iliberal” foi inventado para dar credibilidade a alguns Estados, em especial os da Europa de Leste que emergiram ou se reorganizaram após o colapso (eu gosto mais de usar o termo “implosão”) da URSS e do Pacto de Varsóvia.

Para além disso, a sua postura racista, xenófoba e intolerante, constitui uma inversão total da posição universalista e empática que sempre foi a assumida pelos portugueses e pelas portuguesas onde quer que se encontrassem.

Claro que existem muitos problemas no nosso país, sendo o da imigração um deles, e que, há já muito tempo - demasiado tempo - mais exactamente quando começaram a ser fechadas as esquadras de bairro que asseguravam o tão indispensável e reconfortante para as populações policiamento de proximidade, as questões da segurança interna do país têm sido grosseiramente descuradas.

Só que todos esses problemas, incluindo os da Saúde, da Habitação e dos baixos salários, foram causados porque, nos últimos 20 ou 25 anos (e não nos 51 anos subsequentes a 25 de abril de 1974, como falsamente André Ventura e o seu Chega repetida e incessantemente proclamam) tudo foi entregue ao arbítrio desregulado da “mão invisível do Mercado”.

E o combate à criminalidade faz-se contra os criminosos, seja eles quem forem, e não contra este ou aquele grupo étnico e/ou cultural em particular.

Porém, para além de tudo isso, André Ventura é, ele próprio, uma pessoa desprezível, um rufia mentiroso e sem vergonha que, despudoradamente, explora o descontentamento e as fragilidades das pessoas para assegurar o seu poder pessoal.

Na verdade, e para mencionar aquilo que, em termos pessoais, me choca e enoja profundamente, Ventura que, como representes da Igreja Católica já assinalaram, se comporta ao arrepio dos Valores e da Ética Cristã, usa e abusa uma encenação de um pretenso catolicismo com evidentes intenções políticas, o que constitui uma infâmia asquerosa e até blasfema, que demonstra muito bem a sua podridão ética e moral.

E é porque Luís Montenegro, João Cotrim de Figueiredo e Pedro Passos Coelho, entre outros, e as direcções do PSD, do CDS e da Iniciativa Liberal não são capazes de se distanciar desse homem sem escrúpulos, que os posso acusar de terem perdido a bússola moral e ética que deve governar a vida e a acção de todos os membros da Comunidade e muito particularmente daqueles que, de uma forma ou de outra, ocupam postos de liderança política nessa Comunidade.

E é disso mesmo que eu os acuso.

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