Investigação

No mundo secreto das estufas

Paulo Barriga 13 de julho

Já lhe chamaram a “Califórnia da Europa”. Mas um surto de Covid-19 revelou o lado “faroeste” do novo eldorado agrícola português. O negócio de milhões em exportações, que necessita de milhares de braços de trabalho importados, foi capturado por apenas uma multinacional: a Driscoll’s. Enquanto houver água. Viagem aos bastidores da exploração em Odemira.

Existem muitas maneiras diferentes de dizer Driscoll’s. Com esse nome, ou com outros, está em quase tudo o que diz respeito às framboesas nas estufas da costa Sudoeste. Com sede em Watsonville, na Califórnia, o maior produtor mundial de frutos vermelhos instalou-se em Portugal em 2004, perto de Zambujeira do Mar, sob a designação de Berryport. Hoje, a Driscoll’s controla a quase totalidade dos cerca de mil hectares de framboesas que se plantam no interior do Perímetro de Rega do Mira. Num circuito fechado, quase blindado, mas com ramificações que se estendem desde o pequeno produtor local às mais altas organizações do setor agrícola nacional.

Não é para menos. Embora o Instituto Nacional de Estatística ainda não tenha publicitado os dados definitivos do Recenseamento Agrícola de 2019, os resultados preliminares apontam para um crescimento acima dos 2500% da produção de frutos vermelhos em Portugal nos últimos 10 anos, impondo-se a framboesa como a lavoura emergente. Estimam as associações sectoriais que perto de 90% das plantações deste fruto florescem precisamente no concelho de Odemira. De acordo com a Lusomorango, uma sociedade anónima com sede em São Teotónio e que se apresenta como Associação de Produtores de Pequenos Frutos, o setor mantém-se como "campeão das exportações agrícolas nacionais". Em 2020 as vendas ao exterior atingiram os 247 milhões de euros.

É fruta. Muita fruta. Mais concretamente, 39 mil toneladas de fruta. E só os 42 produtores associados à Lusomorango geraram no ano passado mais de um quarto desse valor, transacionando para o exterior qualquer coisa como 65 milhões de euros. No entanto, a Lusomorango é apenas mais uma de entre as muitas formas de dizer Driscoll´s. Não apenas porque é presidida por Luís Miguel Pinheiro, que foi funcionário, analista de negócios e diretor administrativo desta multinacional norte-americana, como todos os seus associados estão capturados pela chamada "ditadura do modelo fechado de produção".

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui
A Newsletter SÁBADO É TODOS OS DIAS no seu e-mail
NEWSLETTER EXCLUSIVA PARA ASSINANTES O resumo das notícias pela redação da SÁBADO, sempre ao início da manhã. (Enviada de segunda a sexta)