A peça Afro Sal.Oyá devia subir ao palco esta quinta-feira 11 de junho, no âmbito dos Festivais Gil Vicente, em Guimarães. Mas mal entrou no pequeno auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), a encenadora Isabél Zuaa anunciou que o espetáculo não iria ser apresentado. A encenadora portuguesa de origem guineense denunciou uma situação de racismo e violência envolvendo o diretor técnico d’A Oficina. A cooperativa cultural diz não ter encontrado provas de racismo, mas decidiu encaminhar uma participação ao Ministério Público.
Ao jornal Público, Zuaa explicou que tudo começou no último ensaio antes da apresentação da peça, tendo uma técnica, alegadamente, quase acertado com um microfone suspenso na cabeça de uma atriz. Depois da equipa de Zuaa ter reclamado, essa mesma funcionária saiu, voltando depois com o diretor técnico d'A Oficina. "Ou vais pedir desculpa agora à minha técnica ou não vai haver espetáculo nem vai haver técnico nenhum aqui", terá dito o homem a Isabél de forma agressiva. “Mesmo não tendo dito palavras racistas, é racista na sua conduta", afirmou Zuaa ao diário.
“Sentimos que, se eu fosse uma pessoa branca, não iam interromper o ensaio geral e fazer ameaças com o dedo apontado na minha cara. Esperavam, falavam com a produção e havia uma reunião, é assim que os profissionais fazem. Como era eu, artista, negra, sentiram-se legitimados”, explicitou a atriz
Perante a situação, a atriz considerou não existirem condições para apresentar o espetáculo e optou por subir ao palco apenas para explicar ao público os motivos da decisão.
Em declarações ao Jornal de Notícias, o presidente executivo d’A Oficina (estrutura que gere o Centro Cultural Vila Flor), Esser Jorge Silva, recusou comentar as acusações. Limitando-se a afirmar que a intervenção da artista constituiu um "uso abusivo do palco".
A reação de A Oficina
Em comunicado divulgado esta sexta-feira, 12 de junho, a cooperativa cultural A Oficina afirma lamentar os acontecimentos que impediram a realização da apresentação e reiterou a sua posição de “rejeição absoluta de qualquer forma de discriminação, incluindo racismo, sexismo ou assédio”.
A Oficina garante que a denúncia apresentada pela artista foi tratada com caráter de urgência, tendo sido desencadeada uma investigação interna para apurar os factos e que até ao momento não foram identificados comportamentos, atos ou insinuações de teor racial relacionados com a situação reportada. Apesar disso, a entidade decidiu encaminhar uma participação ao Ministério Público, com o objetivo de permitir uma investigação independente e aprofundada dos acontecimentos. A instituição solicitou ainda que o processo seja conduzido com a maior rapidez possível.
No mesmo comunicado, A Oficina expressou solidariedade para com todas as pessoas que possam ter sido afetadas pelo caso e reafirmou o seu compromisso com os princípios da igualdade, inclusão e respeito pela dignidade humana.