Em entrevista ao El País, o cantor britânico fala da digressão Britpop Live 2026, da sobriedade, da ambição, da saúde mental e de uma carreira construída sob exposição permanente.
Robbie Williams continua a olhar para a própria vida como matéria de trabalho. Aos 50 anos, em plena digressão Britpop Live 2026 e com atuação marcada para 28 de agosto no festival Kalorama, em Lisboa, o cantor britânico voltou a falar sobre a carreira, os excessos, a saúde mental, a família e a relação quase compulsiva com a exposição pública. Em entrevista ao diário espanhol El País, Williams resume-se com uma frase que ajuda a explicar a persona que construiu desde a saída dos Take That: sente-se “um jornalista com um único tema: eu próprio”.
A conversa surge numa fase de reativação artística. Williams prepara Britpop, um álbum cujo título não é apenas nostálgico. O próprio cantor admite que há ali uma provocação; nunca pertenceu verdadeiramente ao movimento britpop e, segundo diz, foi até excluído desse universo. Chamar Britpop a um disco novo é, por isso, uma forma de reclamar um território que não lhe foi dado e, ao mesmo tempo, de irritar “as pessoas certas”.
O passado no grupo Take That continua a atravessar a narrativa pública do músico. Para uma geração, Robbie Williams será sempre o membro que saiu de uma das maiores boy bands britânicas no auge da popularidade; para outra, o artista que consolidou a carreira a solo com Angels e levou ao limite a imagem de excesso no vídeo de Rock DJ. O próprio admite que, se pudesse voltar atrás, provavelmente não teria começado a beber nem a consumir drogas. Mas recusa uma leitura simples de arrependimento: aquilo que viveu, diz, também contribuiu para fazer dele quem é.
A entrevista recupera ainda uma das linhas mais persistentes da sua biografia: a relação entre sucesso e colapso. O britânico, nascido em Stoke-on-Trent, em 1974, tem falado publicamente sobre dependência, ansiedade e depressão, temas revisitados na docussérie Robbie Williams, da Netflix, e também presentes na forma como descreve a própria música.
À exceção das canções mais ligeiras e dançáveis, diz o El País, muitas das suas composições gravitam em torno de uma luta mental constante. Essa dimensão passou também para a pintura, depois de o cantor ter apresentado a exposição Confessions of a Crowded Mind no Moco Museum, em Barcelona, dois anos depois da estreia em Amesterdão.
A sobriedade aparece agora menos como uma batalha diária contra a recaída e mais como uma confiança construída ao longo do tempo. Williams afirma que “não bebe há 25 anos” e que o problema, atualmente, não é resistir à substância, mas lidar com a vida como ela é. A diferença, explica, está no facto de hoje confiar mais em si próprio; se tiver ansiedade, não acredita que isso o empurre automaticamente para a cocaína ou para o álcool.
Essa dinâmica convive com uma ambição que o cantor não disfarça. Apesar de ser apresentado pelo jornal espanhol como o artista com mais álbuns número um no Reino Unido, Williams diz que continua a precisar de propósito. Já conheceu, afirma, a sensação de não ter missão, e associa esse vazio a uma espécie de morte. O propósito atual passa pela criação, mas também pela família. Garantir estabilidade económica aos filhos e às gerações seguintes surge como uma das suas principais motivações.
A paternidade é outro ponto em que Williams procura afastar-se de padrões herdados. Questionado sobre a dificuldade, comum em muitas famílias do norte de Inglaterra, de verbalizar emoções, o cantor responde que cada pessoa tende a comportar-se como foi criada, até perceber que certos comportamentos são tóxicos e escolher fazer o contrário. Diz que, por agora, os filhos são "amáveis, compassivos, sensíveis e carinhosos".
A entrevista também toca no modo como a fama mudou desde os anos 90. Robbie Williams reconhece que a ausência de telemóveis e redes sociais lhe deu uma liberdade que hoje dificilmente existiria, embora admita ter abusado. Ao mesmo tempo, questiona se a exposição constante da era digital talvez o tivesse impedido de viver publicamente tantos excessos. A comparação com artistas atuais, como Harry Styles, serve-lhe para sublinhar uma mudança cultural, no caso, aquilo que antes era visto como embaraçoso ou pouco credível num ex-membro de uma boy band pode hoje ser incorporado numa imagem pop considerada sofisticada.
Entre a ironia, a vaidade assumida e a vulnerabilidade, Robbie Williams mantém intacta a principal matéria-prima da sua carreira, ele próprio. Depois dos discos, da docussérie da Netflix e do filme Better Man (2024), em que a sua história é contada através de um macaco gerado por computador, o cantor parece continuar interessado em encontrar novas formas de se explicar.
No fim da entrevista, quando lhe perguntam quando deixará de entreter o público, responde que "não sabe". A relação com os fãs, no entanto, é simbiótica; Williams admite precisar deles, e eles, pelo menos alguns, parecem precisar daquilo que ele tem para oferecer.