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As novas alegações, as velhas suspeitas e as dúvidas que subsistem: a longa história do assassinato de Tupac

Trinta anos depois do homicídio do rapper norte-americano, o caso chegou a tribunal. Duane Davis é suspeito de ser o "mandante" do homicídio mas ainda há muitas dúvidas por esclarecer.

Tiago Neto 18 de agosto de 2026 às 17:11
Legenda de homenagem a Tupac Shakur no Passeio da Fama de Hollywood Chris Pizzello/Invision/AP

A 7 de setembro de 1996, Ingrid Stokes seguia num descapotável pelas ruas de Las Vegas quando ouviu os tiros. O automóvel onde viajava, com três amigas, estava pouco à frente do BMW que transportava Tupac Shakur e Marion “Suge” Knight. Stokes agarrou uma das amigas, puxou-a para baixo e o grupo fugiu, quase embatendo num veículo branco. “All hell broke loose” — instalou-se o caos — recordou Ingrid,  esta segunda-feira, 17 de agosto - quase três décadas depois dos acontecimentos -, na primeira audiência do julgamento do caso do assassinato do rapper e cantor norte-americano Tupac Shakur (1971-1996).

O depoimento, destacado pela , abriu uma inesperada janela sobre a noite de 7 de setembro de 1996, mas não identificou o autor dos disparos. Stokes não viu quem seguia no automóvel do atirador nem conseguiu determinar de onde partira a rajada. A sua descrição foi confirmada nas coberturas do e da  que acompanharam o primeiro dia de depoimentos no Tribunal Distrital do Condado de Clark, em Las Vegas, esta segunda-feira.

No banco dos réus está Duane “Keffe D” Davis, de 63 anos, antiga figura proeminente do gangue South Side Compton Crips e a primeira pessoa a ser formalmente acusada pela morte de Tupac. Davis declarou-se inocente de uma acusação de homicídio com arma mortal, agravada pela alegada intenção de promover ou favorecer uma organização criminosa. Se for condenado, pode enfrentar prisão perpétua.

Duane “Keffe D” Davis no tribunal, 30 anos após o assassinato de Tupac Steve Marcus/POOL Reuters via AP

A acusação não sustenta que Davis tenha premido o gatilho. Segundo a , os procuradores apresentam-no como o responsável pela organização do ataque; teria obtido a arma, reunido os homens que procuraram Tupac e Suge Knight e entregado a pistola aos ocupantes do banco traseiro do Cadillac branco de onde partiram os disparos. A lei do Nevada permite responsabilizar por homicídio quem incentive, ordene ou auxilie o crime, mesmo que não seja o autor material.

“Duane Davis não disparou. Mas planeou o ataque”, afirmou o procurador Binu Palal nas alegações iniciais, classificando o crime como uma vingança. Michael Sanft, advogado do arguido, respondeu que a narrativa da acusação é “ficção”. O julgamento, presidido pela juíza Carli Kierny, deverá prolongar-se durante cerca de um mês, embora a Reuters admita que possa chegar às seis semanas de duração.

O primeiro dia mostrou desde logo a fragilidade de uma investigação atravessada pelo tempo. A acusação prevê chamar entre 35 e 45 testemunhas, mas os outros três ocupantes do Cadillac morreram e muitas recordações têm agora quase três décadas. A arma nunca foi encontrada; o automóvel também não foi recuperado; e nenhuma testemunha presente no local conseguiu identificar inequivocamente o atirador.

Garry Dale, antigo agente da polícia de Las Vegas, foi a primeira testemunha. Cerca de dez minutos antes do ataque, Dale mandara parar o BMW de Suge Knight por não ter a matrícula visível. Descreveu a interação com Knight e Tupac como cordial e deixou-os seguir sem os multar. Pouco depois, respondeu ao alerta de tiros e acompanhou Tupac na ambulância. Quando lhe perguntou quem disparara, o rapper respondeu, segundo o antigo agente, algo semelhante a: “Não, nós tratamos disso.”

Brent Becker, antigo detetive de homicídios, recordou por sua vez as dificuldades encontradas logo no início da investigação. Suge Knight, apesar de ter sobrevivido ao ataque, apresentou-se para ser interrogado acompanhado por três advogados e afirmou que não reconhecera ninguém. Becker disse ao tribunal que considerou o depoimento ensaiado e que acreditou que Knight estava a mentir. Atualmente a cumprir uma pena de 28 anos por um homicídio voluntário sem relação com este processo, o fundador da editora Death Row Records consta da lista de testemunhas, mas já declarou que não pretende colaborar.

Keffe D acusado de orquestrar assassinato de Tupac em tribunal 30 anos após o crime Associated Press

Também foi reproduzida em tribunal uma gravação de uma conversa entre Davis e Fred Miller, antigo detetive da polícia de Los Angeles. Miller investigava o assassinato de Christopher Wallace, o rapper conhecido como Notorious B.I.G., Biggie ou Biggie Smalls, ocorrido em 1997. Davis chegou a ser brevemente considerado nesse inquérito por ter estado numa festa a que Biggie compareceu antes de ser morto, mas a juíza esclareceu aos jurados que a polícia não acredita que tenha participado nesse crime.

A noite do crime

Tupac e Suge Knight encontravam-se em Las Vegas para assistir ao combate de pesos-pesados entre os pugilistas Mike Tyson e Bruce Seldon, no MGM Grand Garden Arena. Tyson venceu em menos de dois minutos. À saída, Tupac reconheceu Orlando “Baby Lane” Anderson, sobrinho de Davis e membro dos South Side Compton Crips.

A tensão tinha antecedentes. Segundo a reconstrução da , Anderson estivera envolvido meses antes numa agressão e tentativa de roubo de um medalhão da Death Row Records a um dos seguranças de Knight. A editora discográfica mantinha ligações a membros dos Mob Piru, uma fação do gangue Bloods, rival dos South Side Crips.

As câmaras de vigilância do MGM Grand registaram Tupac a desferir o primeiro golpe contra Anderson, antes de vários elementos do seu grupo se juntarem à agressão. É neste momento que a acusação encontra o motivo do homicídio: Davis teria ficado furioso com o tratamento dado ao sobrinho e alegadamente decidira procurar Tupac e Knight para retaliar.

Horas depois, Tupac seguia no lugar do passageiro de um BMW preto conduzido por Knight. Dirigiam-se ao Club 662, onde o rapper deveria atuar, acompanhados por uma comitiva da Death Row distribuída por cerca de dez automóveis. O ataque ocorreu por volta das 23h15, quando o BMW parou num semáforo no cruzamento da East Flamingo Road com a Koval Lane, perto da Strip, a mais importante avenida da cidade de Las Vegas.

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Mike Tyson (à esq.) enfrentava Bruce Seldon no MGM Grand Garden Arena
Foto: Associated Press
O BMW 750iL no qual seguiam Suge Knight e Tupac
Foto: Associated Press
O interior do carro minutos após os disparos que feriram Knight e vitimaram Tupac Shakur
Foto: Las Vegas Metropolitan Police Department via AP

Um Cadillac branco aproximou-se pelo lado direito. Alguém no banco traseiro abriu fogo. Tupac foi atingido quatro vezes, incluindo no peito, num braço e numa coxa. Knight sofreu apenas ferimentos ligeiros provocados por uma bala ou fragmentos desta. O rapper foi transportado para o University Medical Center e morreu seis dias depois, a 13 de setembro de 1996. Tinha 25 anos.

Os primeiros suspeitos

A investigação concentrou-se cedo nos South Side Compton Crips e, em particular, em Orlando Anderson. A  confirma que as autoridades o consideraram durante anos o provável atirador. Anderson negou qualquer participação e nunca foi acusado. Morreu em 1998, aos 24 anos, num tiroteio sem relação com o caso, junto a um local de lavagem de automóveis em Compton – cidade adjacente a Los Angeles, berço de artistas como Kendrick Lamar e .

A identidade do homem que disparou continua, ainda hoje, por estabelecer. O Cadillac seria conduzido alegadamente por Terry “Bubble Up” Brown, tendo Davis no lugar do passageiro. No banco traseiro seguiriam Anderson e Deandrae “Freaky” Smith, também conhecido como Big Dre.

Apesar de Anderson ter sido o suspeito mais consistente, um antigo elemento próximo do grupo, Denvonta Lee, apresentou ao júri uma versão diferente. Segundo Lee, Smith ter-lhe-á contado que Anderson não dispunha de um ângulo livre para disparar e que foi o próprio Smith quem pegou na arma e abriu fogo. Lee não estava em Las Vegas e relatou apenas uma conversa posterior, pelo que o depoimento não constitui observação direta. Smith morreu em 2004, alegadamente de causas naturais, e Brown foi assassinado em 2015.

A polícia não identificou publicamente o atirador e o julgamento de Davis pode terminar sem resolver essa questão. O objeto do processo é saber se o arguido comandou e propiciou o ataque, não necessariamente determinar qual dos dois homens sentados atrás efetuou os disparos.

As palavras que reabriram o caso

Davis era conhecido dos investigadores há décadas. Nas alegações iniciais, a acusação afirmou que falou com o FBI em 1998 e 1999, reconhecendo que estivera em Las Vegas na noite do crime, embora então negasse responsabilidade. Em 2008, durante uma entrevista realizada no âmbito da investigação à morte de Biggie, descreveu a sua presença no Cadillac e disse ter entregado uma arma aos homens do banco traseiro. Voltou a falar com a polícia de Las Vegas no ano seguinte.

As conversas estavam abrangidas por um acordo de colaboração – um proffer agreement – que limitava a possibilidade de as mesmas serem usadas diretamente contra ele. A defesa tentou, por isso, impedir a sua utilização. No entanto, Davis começou mais tarde a contar publicamente a mesma história.

Em 2018 participou em entrevistas e num documentário; em 2019 publicou, com Yusuf Jah, o livro de memórias Compton Street Legend. Identificou-se como um dos únicos sobreviventes que conheciam a verdade, admitiu que seguia no Cadillac e escreveu que obtivera a arma e a passara para o banco traseiro. Segundo a polícia, foram precisamente essas declarações públicas que reativaram o processo.

A defesa alega agora que o livro foi dramatizado para gerar notoriedade e lucro, que não é claro quais as passagens efetivamente escritas por Davis e que as entrevistas repetiram uma história comercialmente conveniente. A acusação contrapõe que Davis promoveu repetidamente a obra como um relato verdadeiro.

Em junho, a juíza Kierny autorizou a utilização do livro como prova judicial. De acordo com a , a magistrada considerou que Davis adotara as declarações como suas, independentemente de ter ou não redigido todas as páginas. Reconheceu, contudo, que havia questões legítimas sobre a promessa feita ao arguido em 2008 de que não seria processado pelo conteúdo da entrevista.

A investigação levou, em julho de 2023, a buscas numa casa em Henderson, nos arredores de Las Vegas, pertencente à mulher de Davis. A 29 de setembro desse ano, Davis foi detido e indiciado por um grande júri. Foi apresentada no caso desde 1996. 

O artista por detrás do mito

O interesse no processo ultrapassa largamente a resolução de um crime antigo. Tupac Amaru Shakur tornou-se uma das figuras mais influentes e contraditórias da cultura popular norte-americana: rapper, poeta, ator e filho de ativistas ligados ao movimento dos Panteras Negras.

Nascido em Nova Iorque, em 1971, com o nome Lesane Parish Crooks, estudou interpretação, poesia e dança antes de iniciar a carreira musical como elemento ligado aos Digital Underground. O primeiro álbum, 2Pacalypse Now, surgiu em 1991. Em apenas cinco anos lançou uma obra que oscilava entre a denúncia da violência policial, do racismo e da pobreza urbana e a agressividade do chamado gangsta rap.

Canções como Brenda’s Got a Baby, Keep Ya Head Up e Dear Mama revelavam uma escrita social e vulnerável; California Love, Ambitionz Az a Ridah e Hit ’Em Up, do disco All Eyez on Me (1996) ajudaram a construir a sua imagem mais combativa. Paralelamente, participou em filmes como ,  e .

, que o integrou em 2017, considera que a combinação entre indignação, fragilidade e a dicção poética e conversacional de Tupac alargou as possibilidades expressivas do hip-hop. Shakur conseguiu colocar cinco álbuns no primeiro lugar das tabelas norte-americanas e recebeu seis nomeações para os Grammy. All Eyez on Me, lançado em fevereiro de 1996, continuava nas tabelas de temas mais ouvidos do hip-hop quando Tupac morreu. Dear Mama tornou-se, em 2010, a primeira canção de rap incluída no National Recording Registry da  norte-americano.

A sua figura continha também profundas contradições. A consciência política convivia com letras misóginas e com uma vida marcada por violência e processos judiciais. Em 1995 cumpriu parte de uma pena por abuso sexual, condenação que sempre contestou. Foi durante esse período que se aproximou de Suge Knight, que garantiu a sua libertação sob fiança enquanto decorria o recurso, e assinou pela Death Row Records.

De amigos a inimigos: Tupac e Biggie, Costa Oeste versus Costa Este

A rivalidade com , tornou-se uma das narrativas centrais do hip-hop dos anos 1990, mas começou como amizade. Os dois, Tupac e Biggie, atuaram juntos, frequentaram a casa de Tupac e conviveram durante as filmagens de Fugir do Bairro.

A rutura ocorreu depois de 30 de novembro de 1994. Tupac foi assaltado e atingido a tiro no átrio dos Quad Recording Studios, em Manhattan, Nova Iorque. Biggie e Sean “Puff Daddy” Combs encontravam-se num estúdio do mesmo edifício. Tupac passou a acusá-los de terem conhecimento antecipado do ataque e de não o avisarem. Ambos negaram categoricamente.

A tensão aumentou quando Biggie lançou . Tupac interpretou a canção como uma provocação alusiva ao atentado, embora Biggie tenha afirmado que fora gravada antes e não se dirigia ao antigo amigo. Depois de sair da prisão e se juntar à editora Death Row, Tupac passou a simbolizar a Costa Oeste, enquanto Biggie e a Bad Boy Records representavam Nova Iorque e a Costa Este.

Editoras, grupos com ligações a gangues e meios de comunicação transformaram o conflito pessoal numa guerra cultural. Em 1996, Tupac lançou Hit ’Em Up, ataque explícito a Biggie, Combs, à Bad Boy e à família do antigo amigo. A canção continua a ser considerada uma das mais violentas diss tracks – música criada com o principal objetivo de atacar, insultar, expor ou menosprezar outra pessoa – da história do rap.

Keffe D julgado por assassinato de Tupac Shakur, 30 anos depois AP File

Isto não significa que Biggie tenha participado no assassinato de Tupac. Nunca foi acusado e negou sempre qualquer envolvimento. A tese agora levada a tribunal descreve o homicídio como uma retaliação imediata dos South Side Compton Crips pela agressão a Orlando Anderson, embora reconheça que as rivalidades entre a Death Row, a Bad Boy e os grupos associados criaram o ambiente em que a violência ocorreu.

Biggie foi morto a 9 de março de 1997, seis meses depois de Tupac, quando abandonava uma festa da indústria musical em Los Angeles. Tinha 24 anos. Ninguém foi condenado pelo crime. Os investigadores admitiram, durante anos, a possibilidade de se ter tratado de uma retaliação pela morte de Tupac, mas a hipótese nunca foi provada. Para já, o homicídio permanece por resolver.

É este conjunto de factos, versões, memórias tardias e mitologia que chegou agora ao tribunal. A acusação tentará provar que Davis falou durante anos porque conhecia e dirigira o plano; a defesa procurará convencer os jurados de que falou precisamente porque uma história sensacionalista lhe trazia dinheiro e atenção. Até existir um veredicto, Duane Davis permanece presumivelmente inocente e a identidade de quem matou Tupac continua, juridicamente, sem resposta.

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