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Morreu Marjane Satrapi, a escritora que desenhou a repressão e revolta das mulheres iranianas

A autora de Persépolis morreu "de tristeza" aos 56 anos, um ano depois da morte do seu companheiro.

Diogo Barreto 04 de junho de 2026 às 15:18
AP Photo/Alessandra Tarantino, Fil

Foi com traços grossos de tinta da china em quadrículas brancas que Marjane Satrapi se propôs a contar a sua história e a da sua família, ao mesmo tempo que falava sobre todo um povo. Persépolis, obra maior da banda desenhada, transformou-a num nome reconhecido internacionalmente e numa voz contra a opressão do regime iraniano, principalmente contra as mulheres. Marjane morreu esta quinta-feira, aos 56 anos. Morreu "de tristeza", um ano depois da morte do seu mario, Mattias Ripa.

Nascida em 1969, Marjane passou os primeiros anos da sua vida em Teerão, a capital iraniana e tinha dez anos quando se deu a revolução que instaurou o regime dos aiatolas. Inicialmente os seus pais, marxistas de classe média alta, viram com esperança a revolta que pôs fim ao regime ditatorial do xá Mohammed Reza Pahlavi. Mas ao fim de alguns meses da revolução de 1979 percebem que a revolta foi tomada pelos fundamentalistas iranianos que substituem um regime autoritário por um outro. Preocupados com a opressão governamental, os pais enviaram-na para a Europa onde passou boa parte da adolescência e juventude. Eventualmente, Marjane regressaria ao Irão apenas para se exilar em França a partir de 1994. 

Em Persépolis, a sua obra mais conhecida, narrou a sua infância e adolescência marcadas pelas restrições impostas pela liderança islâmica após a revolução de 1979. A obra começou a ser publicada em França em 2000 e saiu em quatro volumes, o último dos quais em 2003. A obra teve os seus dois primeiros volumes lançados em Portugal em 2003, pela Polvo, e os seguintes em 2012 e 2015, pela Contraponto e pela Bertrand.

Premiada no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême em 2001, a primeira edição foi seguida por mais três volumes e adaptada para o cinema por Marjane Satrapi em 2007, com codireção de Vincent Paronnaud, filme que ganhou o Prémio do Júri no Festival de Cannes naquele ano. "Embora este filme seja universal, quero dedicá-lo a todos os iranianos", declarou na altura Marjane Satrapi, que, nos últimos anos, continuou a denunciar as ações da República Islâmica do Irão.

Em 2005, noutra obra, Frango com Ameixas, ganhou o prémio de Melhor Álbum em Angoulême. Aqui contava a história de Nasser Ali Khan, o seu tio avô, músico famoso iraniano, tocador de tar. A história acompanha o músico que se debate com uma tristeza enorme que o leva a decidir morrer depois de ver o seu precioso instrumento partido. 

Marjane Satrapi recusou a Legião de Honra francesa em 2025 para denunciar a "atitude hipócrita da França em relação ao Irão", país que vivenciava na época uma nova onda de repressão. "Recusar a Legião de Honra não é, de forma alguma, uma ação ou um pensamento contra a França. Pelo contrário, amo profundamente este país, que é o meu", esclareceu a autora que se nacionalizou francesa em 2006.

"Marjane Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida", falecido em 08 de abril de 2025, lê-se no comunicado enviado à agência AFP. Na sua conta no Instagram, a autora carregava a marca da dor causada pela perda do marido em 2025, com diversas publicações com a mensagem "Perdi o amor da minha vida".

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