A autora de Persépolis morreu "de tristeza" aos 56 anos, um ano depois da morte do seu companheiro.
Foi com traços grossos de tinta da china em quadrículas brancas que Marjane Satrapi se propôs a contar a sua história e a da sua família, ao mesmo tempo que falava sobre todo um povo. Persépolis, obra maior da banda desenhada, transformou-a num nome reconhecido internacionalmente e numa voz contra a opressão do regime iraniano, principalmente contra as mulheres. Marjane morreu esta quinta-feira, aos 56 anos. Morreu "de tristeza", um ano depois da morte do seu mario, Mattias Ripa.
Nascida em 1969, Marjane passou os primeiros anos da sua vida em Teerão, a capital iraniana e tinha dez anos quando se deu a revolução que instaurou o regime dos aiatolas. Inicialmente os seus pais, marxistas de classe média alta, viram com esperança a revolta que pôs fim ao regime ditatorial do xá Mohammed Reza Pahlavi. Mas ao fim de alguns meses da revolução de 1979 percebem que a revolta foi tomada pelos fundamentalistas iranianos que substituem um regime autoritário por um outro. Preocupados com a opressão governamental, os pais enviaram-na para a Europa onde passou boa parte da adolescência e juventude. Eventualmente, Marjane regressaria ao Irão apenas para se exilar em França a partir de 1994.
Em Persépolis, a sua obra mais conhecida, narrou a sua infância e adolescência marcadas pelas restrições impostas pela liderança islâmica após a revolução de 1979. A obra começou a ser publicada em França em 2000 e saiu em quatro volumes, o último dos quais em 2003. A obra teve os seus dois primeiros volumes lançados em Portugal em 2003, pela Polvo, e os seguintes em 2012 e 2015, pela Contraponto e pela Bertrand.
Premiada no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême em 2001, a primeira edição foi seguida por mais três volumes e adaptada para o cinema por Marjane Satrapi em 2007, com codireção de Vincent Paronnaud, filme que ganhou o Prémio do Júri no Festival de Cannes naquele ano. "Embora este filme seja universal, quero dedicá-lo a todos os iranianos", declarou na altura Marjane Satrapi, que, nos últimos anos, continuou a denunciar as ações da República Islâmica do Irão.
Em 2005, noutra obra, Frango com Ameixas, ganhou o prémio de Melhor Álbum em Angoulême. Aqui contava a história de Nasser Ali Khan, o seu tio avô, músico famoso iraniano, tocador de tar. A história acompanha o músico que se debate com uma tristeza enorme que o leva a decidir morrer depois de ver o seu precioso instrumento partido.
Marjane Satrapi recusou a Legião de Honra francesa em 2025 para denunciar a "atitude hipócrita da França em relação ao Irão", país que vivenciava na época uma nova onda de repressão. "Recusar a Legião de Honra não é, de forma alguma, uma ação ou um pensamento contra a França. Pelo contrário, amo profundamente este país, que é o meu", esclareceu a autora que se nacionalizou francesa em 2006.
"Marjane Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida", falecido em 08 de abril de 2025, lê-se no comunicado enviado à agência AFP. Na sua conta no Instagram, a autora carregava a marca da dor causada pela perda do marido em 2025, com diversas publicações com a mensagem "Perdi o amor da minha vida".