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A BD está em expansão. Sugestões para quem se quer iniciar no mundo das histórias aos quadradinhos

As histórias aos quadradinhos estão a ganhar espaço nos catálogos. Deixamos algumas recomendações para os mais variados leitores de clássicos do género.

Diogo Barreto 25 de fevereiro de 2026 às 08:00
Getty Images
Nos últimos anos, em lançamentos, autores e, acima de tudo, leitores, em Portugal. O último álbum de Astérix (Na Lusitânia) vendeu quase 150 mil exemplares. É um recorde absoluto para o género e uma aposta de sucesso para a editora das aventuras do pequeno gaulês. Mas não é só a Asa que aposta na banda desenhada. Todas as grandes editoras têm livros aos quadradinhos ou até mesmo chancelas inteiras dedicadas ao tema.  A BD parece uma aposta ganha em Portugal, mas é um mundo que pode parecer assustador a quem acabou de chegar. Qual o primeiro livro que se deve ler? Qual o estilo de arte ou de narrativa? Qual a melhor editora para começar? Abaixo são deixadas algumas sugestões de obras editadas em Portugal para o leitor de BD iniciante (ou até para o mais veterano).

Aventuras

O último álbum de Astérix é um fenómeno de vendas (o facto de se passar na Lusitânia ajuda, claro). Mas há muitos anos que as aventuras de Astérix e Obélix fazem parte de um imaginário coletivo nacional quando se fala em banda desenhada. As primeiras publicações surgiram na revista Pilote em 1959 e o primeiro álbum, Astérix, o Gaulês, foi editado em 1961. Nesse mesmo ano, em maio, as aventuras dos gauleses apareceram pela primeira vez em Portugal, nas páginas da revista Foguetão. O livro inicial chegaria a Portugal em 1967 (em França saíam, nesse ano, o nono e décimo títulos da saga).  Desde então, tradição as famílias portuguesas lerem as aventuras aos quadradinhos das personagens inventadas por René Goscinny e Albert Uderzo. Entre os melhores livros contam-se Astérix Legionário, Astérix e Cleópatra, Astérix e O Domínio dos Deuses ou Astérix e a Volta à Gália. E a verdade é que a BD francófona foi, durante muitos anos, rainha em Portugal. As Aventuras de Tintim, de Hergé; Blake & Mortimer, de Edgar P. Jacobs; Os Smurfs, de Peyo; Lucky Luke, de Morris e René Goscinny; ou Corto Maltese de Hugo Pratt (escrito por um italiano, mas editado inicialmente em França) foram todos sucessos de vendas.

Manga

A fama dos livros aos quadradinhos não é nova em Portugal. Durante muitos anos, crianças leram as histórias do Tio Patinhas e outras personagens da Disney que eram contadas em revistas vendidas em papelarias por todo o País (coleções como a Comix ou Hyper-Disney). Mas hoje os leitores mais novos gravitam mais em direção à banda desenhada japonesa. A Devir tem apostado em editar volumes de manga em Portugal como os clássicos Dragon Ball (Akira Toriyama) e Naruto (Masashi Kishimoto), mas também êxitos mais recentes como My Hero Academia (de Kohei Horikoshi) ou Jujutsu Kaisen (de Gege Akutami). A Penguin também lançou uma chancela dedicada à manga, a Distrito Manga. Tem títulos como As Navegantes da Lua (Naoko Takeuchi), Ghost in the Shell (Shirow Masamune) ou Ataque dos Titãs (Hajime Isayama).

Histórias de crescimento

Já neste século, a novela gráfica ganhou um novo embalo e começaram a contar-se histórias que outrora não tinham lugar nos quadradinhos. Numa tese de 2020, intitulada Inventar a vida: autobiografia e autoficção em banda desenhada, Gil Sousa defendia que "após um período de relativo desinteresse, a autoficção tem vindo a revelar a sua relevância na produção contemporânea de obras de escrita de vida" no mundo da novela gráfica. O apogeu do género terá chegado com Blankets, a obra-prima de Craig Thompson, editada em Portugal pela Devir. Desenhada a preto e branco, esta novela gráfica segue a história de um jovem que cresce numa família tradicional e conservadora e que tem de encontrar o seu lugar num mundo que sente que não o entende. Memórias de aventuras com o irmão, um primeiro amor e a descoberta do sonho de ser artista são desenhados com mestria por Craig Thompson, que tem também editada em Portugal a obra Habibi. Já Fun Home - A Family Tragicomic, de Alison Bechdel, infelizmente, não está traduzido para português ainda e é também um dos pontos altos deste estilo. Um livro recentemente editado em Portugal que aborda temas de crescimento em formato BD é Patos - Dois Anos nas Areias Petrolíferas, de Kate Beaton. Uma história sobre violência de género, miséria e camaradagem, magistralmente contada.

Super-heróis

Quando se fala em banda-desenhada, muitos leitores pensarão, imediatamente, em Marvel e DC. As duas editoras norte-americanas foram responsáveis por popularizar o estilo graças a personagens como Batman, Super-Homem, Homem-Aranha ou Capitão América. Com publicações semanais e universos com dezenas de personagens principais (e milhares de secundárias), milhões de leitores começaram a ler graças a estas aventuras desenhadas. E um dos consensos é de que o apogeu do género surge com Watchmen (de Dave Gibbons e Alan Moore), editado em Portugal pela Levoir. É uma história de desencanto com o mundo dos super-heróis e da América pós-II Guerra Mundial. Alan Moore, um dos principais autores norte-americanos de BD, desconstrói conceitos como a idolatria e a segurança numa obra cujas interpretações lhe causaram muitos dissabores.

Livros históricos

É um género que tem uma clara Bíblia: Maus, de Art Spiegelman, é um dos grandes clássicos da BD mundial e figura em várias listas de "Melhores Livros de Sempre". A narrativa segue a história de Vladek Spiegelman, judeu polaco sobrevivente de Auschwitz, que narra a história de como os judeus foram perseguidos na Alemanha nazi e assassinados sob a forma de fábula: os judeus são os ratos, os nazis os gatos e os americanos os cães.  O estilo de contar eventos históricos em traços deu frutos e uma das principais autoras deste género editada em Portugal é Keum Suk Gendry-Kim, autora que traduz para páginas as dores de uma Coreia dividida. A Espera conta a história das famílias separadas pela guerra entre as duas Coreias. Já Erva acompanha a vida de uma jovem criança sul-coreana que foi vendida pela família e escravizada sexualmente por soldados japoneses durante a II Guerra Mundial. Os títulos são editados em Portugal pela Iguana (outra editora dedicada às novelas gráficas do grupo Penguin).
Outro dos clássicos do género é Persépolis, a história da autora Marjane Satrapi, jovem iraniana com pontos de vista punk e que é apanhada pela revolução de 1979, vendo a sua família progressista ser obrigada a aderir a um regime ultraconservador. O livro é editado pela Bertrand mas Satrapi tem dois livros editados na Levoir (Bordados, sobre conversas entre várias mulheres de uma família iraniana progressista que se vê a braços com uma guinada social, e Frango Com Ameixas, sobre o seu tio-avô, que entra numa espiral depressiva a partir da quebra de um instrumento).

As adaptações dos clássicos

A Relógio d'Água parece ter encontrado um nicho de mercado para publicar BD: as adaptações de clássicos da literatura. Quer seja a versão em novela gráfica de Duna (de Frank Herbert), o recontar da história de A Amiga Genial, de Elena Ferrante, em formato gráfico ou uma adaptação de 1984, de Orwell, desta vez em quadradinhos, há dezenas de escolhas disponíveis para o leitor que quer experimentar os clássicos num formato diferente, ou para captar novos leitores para o catálogo da editora (que, em vários casos, edita o livro original e a versão gráfica do mesmo). A RTP tem também a sua versão de Grandes Clássicos da Literatura em Banda Desenhada, em parceria com a Levoir. Há livros como A Mensagem, de Fernando Pessoa, O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, ou Peregrinação de Fernão Mendes Pinto nesta coleção.

O policial noir

A estética noir tem sido amplamente utilizada na banda desenhada, sendo que talvez o exemplo mais conhecido esteja nos álbuns de Sin City, de Frank Miller, editado pela Devir em Portugal.  Mas mais recentemente uma outra BD inspirada pelos policiais noir tem tido grande sucesso crítico: Blacksad, uma história de detetives protagonizada por um gato.  No entanto, até os super-heróis tiveram direito ao seu momento quase noir com a criação de Hellboy, o anti herói demoníaco que caça monstros nazi.

As tiras de jornais

Snoopy (ou Peanuts), Malda, Calvin & Hobbes, Garfield, Bartoon. A tira de cartoon faz parte da imprensa mundial há décadas. E há centenas de livros que as compilam para leitores que preferem ler várias seguidas em vez de esperar pela edição do jornal do dia seguinte. Recentemente, a Iguana editou O Indispensável do Snoopy - 75 Anos, de Charles M. Schulz, bem como o álbum Toda a Mafalda, de Quino. A Gradiva há anos que é a casa de Calvin & Hobbes, de Jim Davis, tendo dezenas de álbuns que reúnem as histórias do rapazinho respondão e do seu tigre de peluche. É também na Gradiva que se encontram os álbuns de Zits ou FoxTrot, enquanto Baby Blues é editada, há mais de duas décadas, na Bizâncio.

Os nacionais

Também Portugal tem escritores de BD entre os seus autores. Luís Afonso colabora com a imprensa há décadas, seja no Público (Bartoon), A Bola (Barba e Cabelo), Jornal de Negócios (SA) ou na RTP (A Mosca). Mas tem também álbuns para além das tiras jornalísticas. Nos últimos anos surgiu um nome incontornável na BD nacional: o pianista, cineasta e escritor Filipe Melo (sempre em colaboração com o ilustrador peruano Juan Cavia). Primeiro com as aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy (quarteto constituído por um entregador de pizzas, uma cabeça de gárgula, um demónio milenar e um lobisomem) e depois com Os Vampiros, uma novela gráfica construída a partir da guerra do Ultramar e que relata a perda da humanidade por parte dos soldados portugueses. Mais recentemente, a dupla editou Comer/Beber, sobre o poder evocativo do paladar e do ato de partilhar comida, e, em 2020, Balada para Sophie, a obra-prima do duo. Atualmente são editados pela casa das Letras, mas os seus álbuns foram inicialmente editados na Tinta da China. Duarte & Henrique Gandum têm vindo a publicar a saga de banda desenhada CONGO, nos últimos anos, e este ano vão editar Portugal Jurássico, pela Mudnag Edições. Filipe Pina e Filipe Andrade são também dois nomes essenciais na banda desenhada nacional (BRK fez com que Filipe Andrade fosse contratado para desenhar pela Marvel) e A Fórmula da Felicidade (de Nuno Duarte, Osvaldo Medina e Ana Freitas e editado pela Kingpins) é um dos grandes títulos da BD nacional. Luís Louro é outro nome (e traço) incontornável da BD nacional.

Os independentes

Há um nicho de BD altamente produtivo em Portugal que são as publicações independentes. Seja em fanzines, edições de autor, livros de artista, webcomics ou até em tiras publicadas nas redes sociais, dezenas de autores não desistem de fazer BD, mesmo que não dê dinheiro, apenas por amor à arte. Qualquer seleção de exemplos neste género se torna injusta por todos os que são deixados de fora, mas alguns exemplos possíveis de dar são os livros do Gato Mariano ou os livros editados pela Gorila Sentado. Mas talvez a editora de BD independente mais importante do mercado nacional seja mesmo a Chilli com Carne, que editou centenas de fanzines ao longo da sua história e que o continua a fazer, dando oportunidade para novas vozes da BD se darem a conhecer em Portugal.
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