A escritora Lídia Jorge sublinhou esta quinta-feira a "voz singular" e "força inovadora" de António Lobo Antunes, cuja obra literária "junta a narrativa interna com o eco da história concreta da nação" portuguesa.
O escritor António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, morreu hoje aos 83 anos, confirmou à Lusa fonte editorial.
Contactada pela Lusa, Lídia Jorge considerou que Lobo Antunes "deixa uma obra de extrema singularidade em Portugal e um pouco por toda a parte", onde era publicado, em mais de 30 línguas.
"Não houve nenhum escritor contemporâneo entre nós que tenha tido a força inovadora que ele teve. Conseguiu fazer o que se pensava impossível: juntar o modelo do romance psicológico do início do século XX com a narrativa histórica de um país", descreveu a escritora.
António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 01 de setembro de 1942, licenciou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, tendo-se especializado em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas
O autor "juntou a narrativa interna com o eco da histórica concreta de uma nação, e, ao fazê-lo, colocou a sua obra na sequência dos grandes escritores europeus, na linha de Joseph Conrad em 'Coração das Trevas' [1899], sobre o colonialismo", disse Lídia Jorge.
Para a autora, Lobo Antunes "criou uma poética de interioridade que não é repetível, uma voz interior nos seus livros, densos e difíceis, que deixam uma marca única e criativa que não precisa de um Prémio Nobel".
"Um Prémio Nobel é sempre uma roleta russa", considerou a autora.
Em 2003, António Lobo Antunes recebeu o Prémio União Latina pelo conjunto da obra, juntando-se a outras distinções, nomeadamente o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), o Melhor Livro Estrangeiro publicado em França ("Manual dos Inquisidores") e ao reconhecimento pela Feira do Livro de Frankfurt (1997), na Alemanha.
O seu primeiro livro, "Memória de Elefante", surgiu em 1979, logo seguido de "Os Cus de Judas", no mesmo ano, sucedendo-se "Conhecimento do Inferno", em 1980, e "Explicação dos Pássaros", em 1981, obras marcadas pela experiência da guerra e pelo exercício da Psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.
Foi Prémio Camões em 2007.
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