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John Travolta estreia-se na realização com uma viagem pela idade de ouro da aviação

Aos 72 anos, o ator assinou "Propeller One-Way Night Coach", filme apresentado em Cannes e disponível na Apple TV a 29 de maio.

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Edição de 19 a 25 de maio
John Travolta estreia-se na realização com uma viagem pela idade de ouro da aviação
Tiago Neto 19 de maio de 2026 às 22:27
O elenco reunido em Cannes
O elenco reunido em Cannes Rocco Spaziani/Picture-Alliance/DPA/AP Images

A participação de John Travolta na 79.ª edição do Festival de Cinema de Cannes (12 a 23 de maio) teve um contorno diferente. Chegado enquanto ator, saiu do festival francês com uma nova designação no currículo: realizador. Aos 72 anos, o norte-americano apresentou Propeller One-Way Night Coach, a sua primeira longa-metragem atrás da câmara, um filme de uma hora que será lançado globalmente na Apple TV a 29 de maio.

O filme parte de um livro infantil homónimo que Travolta escreveu em 1997. No centro está Jeff, um rapaz fascinado por aviões que embarca com a mãe numa viagem até Hollywood, durante a idade de ouro da aviação comercial. A sinopse oficial da Apple apresenta a viagem como uma sucessão de refeições de bordo, hospedeiras de charme, escalas inesperadas, passageiros maiores do que a vida e uma visão quase mítica da primeira classe.

A estreia mundial aconteceu a 15 de maio, no Palais des Festivals, durante a 79.ª edição do Festival de Cannes, onde Travolta surgiu acompanhado pela filha, Ella Bleu Travolta, também atriz no filme. O momento acabou por ganhar outro peso quando o festival lhe entregou, de surpresa, uma Palma de Ouro honorária. “As lágrimas eram verdadeiras”, disse depois ao , ainda a assimilar a homenagem recebida no mesmo festival onde Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, ajudara a redefinir a sua carreira, em 1994. 

Na entrevista ao El Mundo, recorda que a paixão pela aviação começou ainda antes da idade do protagonista, teria cinco anos e vivia em Nova Jérsia, perto dos aeroportos de Newark, Kennedy e LaGuardia. Os aviões passavam a cerca de 600 metros da sua casa, suficientemente perto para conseguir distinguir companhias como a TWA, a Eastern ou a United. “Perguntava-me: quem irá naquele avião? Como se sentirá uma pessoa ao voar?”, recorda. 

O ator é piloto há décadas e tem feito desse interesse uma das marcas mais conhecidas da sua vida fora do ecrã. Ao El Mundo, Travolta diz que se perdeu “uma componente romântica” no ato de viajar de avião; o cuidado em vestir-se para voar, o carrinho da comida, a sensação de que entrar num avião era uma ocasião especial. Diz mesmo que sente falta de fumar a bordo, não tanto pelo gesto em si, mas pela mistura improvável do cheiro a tabaco com o “cordon bleu” de frango a aquecer. 

Essa ideia de época atravessa também a construção musical do filme, segundo o ator. Travolta afirma que Propeller One-Way Night Coach inclui 32 obras musicais, metade delas bandas sonoras de filmes clássicos. Para o agora ator-realizador, a idade de ouro da aviação comercial corria em paralelo com uma certa idade de ouro de Hollywood, sobretudo na forma como o cinema sabia articular imagem e som. “A idade de ouro do cinema usava a música melhor do que nós hoje”, diz na entrevista ao diário espanhol, defendendo que os realizadores desse período tinham uma consciência "mais apurada" da relação entre música e imagem. 

Fellini, Bergman, Lelouch, Truffaut, Orfeu Negro, Um Homem e uma Mulher são algumas das referências que cita para explicar a gramática sentimental. Quando a protagonista olha pela janela, Travolta diz que queria uma imagem entre Joan Crawford e Barbara Stanwyck; quando a luz dourada lhe atravessa o rosto, pensa em Bergman; quando o rapaz olha para uma hospedeira e compreende qualquer coisa sobre o seu futuro, pensa em Orfeu Negro. 

As primeiras reações da crítica têm sublinhado o caráter afetivo e nostálgico do filme, interessado em preservar uma ideia de encanto do que em atualizar Travolta às regras do cinema contemporâneo. O  descreveu o filme como uma estreia “estranha mas cativante” mergulhada na nostalgia de meados do século XX.

Travolta não apresenta a realização como um novo plano de carreira, mas como consequência de uma inspiração específica. Questionado pelo El Mundo sobre se esta nova faceta é um capricho ou um novo rumo, responde que só voltaria a fazê-lo se estivesse igualmente inspirado. Cita Tarantino e Pulp Fiction: quando existe essa força, diz, “não é um trabalho, é o teu impulso”. 

A carreira de Travolta sempre viveu de impulsos, quedas e regressos. Nascido em Englewood, Nova Jérsia, em 1954, chegou ao circuito das grandes produções de cinema nos anos 1970 com Febre de Sábado à NoiteBrilhantina, dois filmes de linguagem global.

Depois de uma travessia mais irregular nos anos 80, renasceu em 1994 com Pulp Fiction, no qual Quentin Tarantino o transformou em Vincent Vega, um dos papéis mais emblemáticos da década. Seguiram-se filmes como A Outra FaceEscândalos do CandidatoA Qualquer Custo ou Hairspray, numa filmografia que alternou entre cinema de autor, entretenimento e culto.

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