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O ilusionista portuense que ensinou Sandra Bullock a roubar está de regresso a casa

Hélder Guimarães é um ilusionista com carreira internacional, incluindo Hollywood, que já trabalhou com Sandra Bullock e Cate Blanchett. Agora, regressa ao Porto para abrir o Time For Magic, um espaço onde junta criação, espetáculo e investigação artística.

Renata Lima Lobo 21 de maio de 2026 às 07:00
Helder Guimarães abriu um novo espaço no Porto Time For Magic

Há precisamente 20 anos, Hélder Guimarães foi eleito Campeão do Mundo de Magia, em Estocolmo, na categoria Magia com Cartas. Desde então - além de muitos outros prémios - percorreu o mundo inteiro com a ilusão na manga e o Porto no coração. As oportunidades profissionais levaram-no a residir nos Estados Unidos da América, mas 15 anos depois está de regresso à cidade que o viu nascer e crescer. é o novo espaço da Rua da Picaria (porta 17) que abre ao público para que locais e visitantes se possam sentar à mesa com o ilusionista que já partilhou truques com as atrizes Sandra Bullock e Cate Blanchett.

É um estúdio criativo, mas também um palco, onde o ilusionista português preparou, para já, uma primeira fase de espetáculos. De 21 de maio a 21 de junho – de quinta-feira a domingo – o Time For Magic será a casa de espetáculos intimistas, limitados a 22 pessoas que se sentam à mesa com o ilusionista, tornando-se parte de uma experiência inédita em Portugal. E quanto a porta está fechada a magia também acontece, porque será esta a base criativa de trabalho de Hélder Guimarães que continua a ter muitos planos a nível internacional.

Um espaço (quase) só para si

Mais do que um ilusionista é também um contador de histórias. E o argumento que estará em cima da mesa no Time For Magic anda em torno de se dar a conhecer ao público, falando sobre este regresso a casa e o seu processo criativo. “Há pessoas que acompanham o meu trabalho e outras que vão-me reencontrar numa fase diferente. Vamos sentar-nos à mesa e dialogar, mas há realmente esta questão de interatividade e das pessoas poderem participar no espetáculo ativamente”, revela, explicando que irá tentar “condensar os últimos 15 anos” da sua vida numa hora e pouco de espetáculo. Sem barreiras físicas e sem luzes.

Ter um espaço no Porto era “um sonho antigo” que estava a ser planeado há algum tempo, mas que foi sendo adiado. Um espaço onde pudesse trabalhar, mostrar a sua magia e em condições que “criam uma experiência diferente para quem vê”. Ao mesmo tempo, vai preparando os seus espetáculos. Aliás, o The Hope Theory, que fez em 2024, já foi preparado a partir da invicta.

No Time For Magic estão a ser preparados projetos não só para os Estados Unidos como para outros países, numa “base onde podemos realmente ter ensaios com condições”. A preparação, conta à SÁBADO, “às vezes demora muito mais do que as temporadas” dos espetáculos, podendo atingir um ano e meio “só na parte de guião”. Porque depois há tudo o resto: luz, som, cenografia, encenação, desenvolvidas por colaboradores especializados que aqui conseguem trabalhar como equipa, de “forma mais contínua”.

No Time For Magic o público senta-se à mesa com o ilusionista Time For Magic

O caminho até aqui

Tem formação em Interpretação, pela ESMAE – Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, mas a paixão pelas artes da ilusão acabou por abraçar a magia, que desde cedo aprendeu com o pai, que praticava magia como hobby. A partir daí, desenvolveu esta arte sobretudo através do estudo e do contacto com outros profissionais. Em Portugal, a escassez de praticantes dedicados à magia com cartas levou-o a procurar referências internacionais, com especial destaque para a forte tradição espanhola nesta área.

O prémio no Campeonato do Mundo de Magia em 2006 acabou por abrir muitas portas e foi assim que começaram as viagens pelo mundo. Ainda tentou conciliar ambas as áreas, atraído pelo trabalho em grupo que o teatro proporciona, em contraste com a natureza mais solitária da magia, mas as constantes viagens tornaram essa conciliação impraticável. “Lembro perfeitamente que uma das primeiras coisas que fiz foi ir ao Japão. E logo aí há uma cultura completamente diferente a ver magia e as reações eram diferentes”, recorda.

Ao se multiplicarem as viagens, também aumentou a inquietação artística que acabou por resultar numa fase definidora da sua carreira: “Foi quando eu percebi que gostava de desenvolver esta questão de espetáculos com narrativa e de misturar tanto a minha formação de teatro como as ilusões, como o próprio humor, que vem também um bocadinho do stand-up. Ou seja, conseguir que essas coisas todas funcionassem como um objeto artístico único e diferente”. E, “muito inusitadamente”, em 2011 surgiu a hipótese de ir trabalhar para os Estados Unidos, numa altura em que as portas em Portugal “estavam-se a fechar”. O oposto aconteceu do outro lado do oceano. No mesmo ano em que se mudou tornou-se um dos protagonistas do espetáculo de ilusionismo Nothing to Hide, encenado por Neil Patrick Harris (Foi Assim Que Aconteceu).

Não demorou muito tempo a ser distinguido pela Academia de Artes Mágicas de Hollywood, recebendo em 2012 e 2013 o prémio Parlour Magician of the Year, e em 2014, subiu ao palco principal das TED Talks, em Vancouver, Canadá.

Paralelamente aos espetáculos, foi recebendo propostas para fazer, por exemplo, assessoria para filmes. “Fiz coisas muito engraçadas lá, muitas delas nem sequer posso falar, porque tive que assinar contratos de confidencialidade”, avança. Mas outras pode. É o caso dos filmes Ocean's 8 (2018) e Mestres da Ilusão: Nada é o que Parece (2025).

A arte de roubar

Enquanto estava a atuar em Nova Iorque, Hélder Guimarães foi contactado por uma equipa de produção que tinha visto o seu espetáculo e ficado interessada na forma como abordava o engano. O projeto era o filme Ocean's 8 - com Sandra Bullock e Cate Blanchett nos principais papéis - uma história sobre um grupo de mulheres que planeia assaltar a Met Gala. O filme já contava com um assessor mágico, mas, conta Hélder Guimarães, “não estavam super-contentes” com o que ele trazia para a mesa.

“Precisavam de alguém que explicasse “como é que esta questão do engano funciona, mais numa de conman, de roubo, de alguém que trabalha o engano para outros fins que não um espetáculo de magia. Mas o processo de engano é o mesmo, eu também estudo isso, também estudo essas personagens”, recorda Hélder Guimarães.

O convite, no entanto, era bastante limitado à partida: pediram-lhe ajuda apenas para uma cena específica, relacionada com um ambiente de casino, e o ilusionista não só explicou como a situação poderia funcionar na vida real, como sugeriu alternativas, enquadrando o problema de forma mais ampla. Foi nesse momento que a perceção da equipa mudou: perceberam que tinha “outro tipo de capacidade” e que estavam perante alguém com uma compreensão alargada dos mecanismos do engano. Acabou a trabalhar diretamente com Bullock e Blanchet, “para lhes explicar como é que funciona esta questão do engano, como é que é possível enganar outra pessoa e explicar-lhes alguns mecanismos, uns mais concretos e também a questão quase filosófica de abordagem”.

Cate Blanchett e Sandra Bullock em "Ocean's 8" DR

E tem “histórias muito giras”. Uma envolve Sandra Bullock. Logo no primeiro dia de ensaios, a atriz quis aprender a atirar cartas, uma técnica que permite controlar a direção. A certa altura, as cartas acabaram espalhadas pelo chão e, enquanto o ilusionista se baixava para as apanhar, Sandra Bullock juntou-se de imediato. “Estávamos os dois ali a trabalhar para o mesmo, sem qualquer questão de celebridade”, lembra, sublinhando a naturalidade e o espírito de colaboração. Com Cate Blanchett, a experiência também foi também "engraçada". Hélder Guimarães conta que estava sentado à mesa no set com alguém da produção, a manusear o baralho de cartas, quando a atriz se juntou e começou a interagir. "Ela chegou, sentou-se e começou a falar comigo claramente em personagem, sem exagero uns 20 minutos. Estava ali a fazer um exercício para ela, foi muito giro", recorda.

E destaca a abordagem diferente ao trabalho de ambas as atrizes: “A Sandra Bullock queria mesmo aprender a fazer as coisas, ou seja, queria mesmo pegar nos objetos e fazer. E a Cate Blanchett já estava a pensar muito mais na questão de onde é que a câmara está, como é que eu posso falsear isto para a câmara

Hélder Guimarães acabou por ter contributo direto na construção de algumas cenas. Por exemplo, numa em que Sandra Bullock entra numa loja e executa um esquema de roubo numa loja de produtos de beleza, que resulta de “um trabalho de planeamento conjunto”. Mais tarde, já no final do filme, há ainda uma cena que também foi cuidadosamente coreografada. Nesse processo, foi o próprio que explicou à atriz como funcionam as técnicas de carteirista.

Agora, o público pode abrir os bolsos à sua carteira (voluntariamente, claro) para conhecer melhor o ilusionista e a sua arte no novo Time For Magic. Os bilhetes começam nos 35€.

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