Entrevista
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João Miguel Tavares: "Se vai escrever seis mil páginas, Ivo Rosa já fez o seu próprio julgamento de José Sócrates"

João Miguel Tavares: 'Se vai escrever seis mil páginas, Ivo Rosa já fez o seu próprio julgamento de José Sócrates'
Markus Almeida 07 de abril
Biografia Nome:

João Miguel Tavares

Cargo:

Jornalista

Nascimento:

1973

Nacionalidade:

Portuguesa

João Miguel Tavares criou uma série de televisão sobre um ex-ministro em prisão domiciliária por suspeita de corrupção. Antes de estrear na plataforma Opto, a 16 de abril, quisemos saber quanta realidade cabe nesta ficção.

Álvaro Vieira Branco. Fixe este nome. E resista à tentação de procurar trocadilhos ou de encontrar associações, que o apelido Sobrinho, o nomes próprios Luis e Filipe e a cor de um certo monte não são para aqui chamados. A SÁBADO insistiu, mas do outro lado da linha telefónica chegaram juras de que isto é ficção. Por isto, refira-se Prisão Domiciliária, a série que João Miguel Tavares e Patrícia Sequeira criaram para a plataforma de streaming Opto, sobre um ex-ministro das Obras Públicas (não é sobre quem está a pensar) colocado em prisão domiciliária por suspeita de práticas de corrupção, tráfico de influências, participação económica em negócio, prevaricação e abuso de poder (também não é esse senhor, nem aqueloutro). 

Escrita em co-autoria com três jornalistas (Catarina Moura, Tiago Pais e Rodrigo Nogueira), a série tem estreia marcada para 16 de abril, exatamente uma semana depois de se saber se o ex-primeiro ministro José Sócrates, que está desde 2017 acusado de 31 crimes de corrupção passiva, branqueamento de capitais, falsificação de documentos e fraude fiscal, num processo que já dura há sete anos, irá ou não a julgamento. Qualquer semelhança com a realidade (não) é pura coincidência. 

 Como é que o João Miguel Tavares vira argumentista de ficção televisiva?
Foi em 2013, a partir de uma ideia de Patrícia Sequeira, que é um peso grande na ficção televisiva e que se tem aventurado no cinema - ela fez o Snu e a pandemia tem adiado consecutivamente a estreia do seu mais recente filme, sobre as Doce. O objetivo era fazer uma série num sítio fechado, daí esta ideia de prisão domiciliária e de como ancorar uma série a uma casa sem precisar de exteriores ou de muitos cenários. Ela tinha pensado que devia ser sobre um corrupto, sobre um político português. Na altura, em 2013, quem estava preso até julgo que era o Duarte Lima, o Sócrates ainda não tinha sido detido. E como eu já escrevia bastante sobre corrupção, ela desafiou-me a tentar escrever isto. Na altura falei com o Tiago Pais e o Rodrigo Nogueira e fizemos um episódio piloto. A série depois teve várias versões, mais cómicas ou em tons mais negro, até que, de forma inesperada, no ano passado, em 2020, quando já não estava minimamente à espera, surgiu a Opto a querer ressuscitar a Prisão Domiciliária.

Aceitou logo? Escrever uma série de televisão já fazia parte dos seus planos?
Sempre gostei de ficção e de televisão e escrevi muito tempo sobre cinema e séries - foi por aí que comecei no Diário de Notícias, quando estava na secção de cultura, e ainda fiz crítica de cinema durante algum tempo. E gosto de fazer coisas variadas que não tenho por hábito praticar. Tenho uma grande tendência para dizer sim quando sou desafiado a fazer algo que nunca fiz. É um bocado aquela lógica do 'Acho que não sou capaz, por isso vou fazê-lo". É aí que descobrimos coisas sobre nós próprios e aumentamos as nossas capacidades. De repente, era preciso escrever tudo em quatro ou cinco meses. Perguntei ao Tiago e ao Rodrigo se ainda estavam interessados, juntámos a Catarina Moura, porque precisávamos de mais poder de fogo em termos de escrita mas também porque gostava que existisse uma mulher no meio, para não serem só três tipos.

Quem são os co-autores?
Jornalistas. Eu conhecia o Tiago, o Rodrigo e também a Catarina da Time Out, da qual fui um dos co-fundadores em Portugal. Em diferentes períodos, todos eles passaram pela revista, que tinha uma escrita que se queria irreverente e divertida, com um lado imaginativo e criativo. O meu desafio foi sempre o de encontrar um tom pouco habitual na ficção portuguesa, que tivesse humor mas também um lado dramático. Tentámos fazer algo que não se parecesse com nada, que as pessoas, quando vissem, dissessem 'Olha, nunca vi uma coisa assim em Portugal'. Trabalhámos em regime de co-autoria, no qual acabei por assumir o papel de interlocutor e de supervisão do argumento como um todo, mas estivemos todos numa posição muito igualitária na escrita, a mandarmos vir uns com os outros. A escrita foi um processo muito discutido, muito negociado.


O resultado é uma série de ficção sobre corrupção?
Tivemos muita sorte com a Patrícia porque nenhum de nós tinha experiência em televisão - somos quatro jornalistas - mas ela confiou em nós. Fazia falta a ficção portuguesa libertar-se das velhas amarras de, entre um lado, coisas muito popularuchas e telenovelas ou, por outro, do cinema de autor que às vezes é muito pesado. E é uma série sobre corrupção, evidentemente. Há da minha parte um grande background no sentido em que sempre escrevi sobre o tema e faço-o há muitos anos. É um assunto sobre o qual já pensei muito, não só ao nível de como é que as coisas se fazem, mas também sobre qual é o drive dessas pessoas: o que motiva a cabeça de alguém que foi apanhado, que é corrupto? Como é que isso influencia a sua vida? Como é que influencia a sua relação familiar? Para mim é muito mais interessante compreender isso do que fazer uma série de índios e cowboys, com os bons de um lado e os maus de outro. Queríamos personagens complexas, inteligentes, com os seus próprios objectivos, com qualidades e defeitos. Queria essa complexidade, e às vezes até dizíamos que em última análise, se fosse possível fazer uma série spin off de cada personagem, como no Breaking Bad e no Better Caul Saul, nós conseguiríamos fazê-lo.

Em 2013, quando criou a personagem Álvaro Vieira Branco, quem é que já tinha sido preso por corrupção em Portugal?
Não sei de cor, mas o Isaltino Morais já teria sido preso, embora o crime não fosse diretamente corrupção. O Duarte Lima já andava a ser investigado, mas não tinha sido acusado. Não sei se alguém do BPP... talvez o Rendeiro, mas ainda não tinha transitado em julgado. Acho que pessoas conhecidas que tivessem ido parar atrás das grades, só mesmo o Isaltino.

Isaltino a quem se associa sempre a imagem do charuto na mão, como parece ser o caso também de Álvaro Vieira Branco, pelo menos a julgar pelo trailer, uma vez que a série ainda está a ser finalizada. Coincidência?
O charuto é simultaneamente óbvio e irresistível. É demasiado bom para ser desaproveitado. Essa caricatura do grande industrial de charuto na boca vem desde sei lá quando, pelo menos desde os tempos do Bordallo Pinheiro. Mas a verdade é que as pessoas que se tratam bem gostam de fumar bons charutos. É uma visão irresistível, é por isso que o Álvaro fuma tantos.

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