"Onde quer que eu vá / vou de corpo inteiro", versos que canta neste disco, lembraram-me um verso da Podem Falar [segundo tema do disco ‘Té Já, que Jorge Palma editou em 1977] "A distância que existe entre o não ser e o ser é uma questão de não se ter medo de ir longe de mais".
Esse espírito mantém-se, mantém-se. Procuro manter esse espírito, sim. Já agora, que seja por coisas positivas. Mas... no fundo é uma pessoa não se querer sentir limitada, não é? A liberdade é um valor fundamental para mim.
Há pouco, falava também dessa liberdade, quando dizia que não tinha uma necessidade premente de fazer este disco…
Não tinha, não. Economicamente... o disco é um marco, é uma recordação, tem um significado que acho importante e que quero preservar. E tem uma função prática que é espoletar a procura, isto é, trazer concertos. Eu não tenho sentido necessidade de um disco para ter concertos. Porque se me sentisse com a corda na garganta, 'ah espera aí que não tenho trabalho', aí se calhar em 15 dias fazia um disco [risos]. Mas não foi o caso, foi com muita calma, com o espírito de “há de fazer-se”. Na primeira fase ficaram cinco músicas feitas em que achei que sim, que iam para a frente, mas 2017, 2018 e 2019 foram anos extremamente ocupados. Não só com trabalhos mas também com viagens, que eu gosto muito de viajar. Viagens de longo curso, transoceânicas.
Onde foi?
Agora em pouco mais de um ano foi Cuba, no princípio do ano passado [2022], depois Tanzânia - safari - e depois Zanzibar. No final do ano foi Paris mas isso já é... não é bem uma viagem, é uma visita.
Reencontrou velhos amigos em Paris?
De sempre, de sempre. Ainda há pessoal amigo vivo em Paris e não só, em Copenhaga, em Berlim. E este ano [2023] há pouco tempo estive agora três semanitas na Guiné-Bissau. Isso faz muito bem à cabeça.
Ainda há gente a continuar a tocar na rua, entre esses velhos amigos em Paris?
Há.
Desta última vez não foi com eles tocar?
Não. Desta vez nem levei guitarra. Às vezes levo quando vou. Tenho uma guitarra pequenina que é a Baby Taylor. Por exemplo, para a Colômbia levei-a e toquei. Mas já não faço o dinheiro que costumava fazer em Paris. Paris e Europa, onde quer que fosse, fazia-se dinheiro. Também se cantava muito durante o dia todo, mas fazia-se “taco”. Hoje em dia se calhar estou mais burguês, a roupa é um bocadinho melhor, não tenho o ar esfomeado [risos]. E não tenho uma pessoa... uma pessoa quando é mais nova tem mais graça, não é? [risos].
Abriram uma garrafa de champagne quando o disco ficou pronto, ouvi dizer.
Foi, foi o “Quim” Monte [Joaquim Monte] lá do [estúdio] Namouche, descobriu lá uma garrafinha de espumante. Estava o produtor, estava a parte da banda que trabalhou nesse dia. Mas a banda já tinha feito o trabalho todo, praticamente. Estava o meu filho Vicente, que tocou teclados e guitarras acústicas, nesse dia ainda meteu mais uns apontamentos.
O ano passado [2022] foi o ano em que eu disse: porra, vamos lá fazer as canções que faltam e fazer um disco, andar para a frente com isto. No final do ano passado já estava praticamente feito. Não queria já engonhar mais... andava há muito nisto, “adia, agora é para a semana, agora é para o ano”. Não, vamos lá fazer isto.