Os grandes pioneiros do biológico

Os grandes pioneiros do biológico
Lucília Galha 12 de agosto de 2017

Quando Ângelo Rocha começou, o mercado era tão pequeno que ia à Alemanha escoar os produtos que cultivava; a família de Henrique começou por produzir para comer e hoje é um dos maiores fornecedores; Pedro passou de cliente militante a patrão de uma grande loja e Joana faz “trabalho de ourives” com minilegumes. O biológico é uma tendência e uma oportunidade, uma convicção tornada negócio

Até aos oito anos, Alfredo Cunhal Sendim passava o mês de Setembro no Alentejo, numa das herdades do avô (um latifundiário com 7 mil hectares de terra) chamada Freixo do Meio. Mas esse seria o seu único contacto com a terra até aos 25. O menino de Lisboa fazia desportos de mar e o que queria mesmo era estudar Oceanografia. Não foi o que aconteceu. Não só acabou por se dedicar à terra e se mudar para o campo, tal como o avô, como converteu a herdade da sua infância numa produção biológica de referência. O lugar onde em 1997 se produziu a primeira carne biológica certificada (um peru preto) e onde hoje se encontra toda a dieta – além dos legumes e da fruta, há frango, ovos, leite, azeite, vinho, conservas e enchidos –, excepto o peixe. O mesmo que agora vende para grandes superfícies como o El Corte Inglés, tem uma loja no Mercado da Ribeira na capital e alimenta 80 famílias em Lisboa, Montemor-o-Novo e Évora. E que possui ainda um restaurante, que serve um cozido (biológico) em panelas de barro a mais de 100 pessoas, e uma "casinha de hóspedes".

Até chegar aqui o caminho foi difícil. Tudo começou em 1990 quando as terras da família, que depois do 25 de Abril tinham sido nacionalizadas, retornaram aos seus proprietários. Nessa altura, Alfredo mudou-se para o Freixo com a mãe e os três irmãos (dois homens e uma mulher). O sonho do mar já tinha ficado para trás: tirou o curso de Engenharia Zootécnica.

A família começou por produzir cortiça, ovelhas e trigo mas, desencantada com os resultados, decidiu voltar a um sistema agrícola ancestral, o montado – ecossistema que suporta uma grande variedade de espécies animais e vegetais. A agricultura biológica acabaria por ser uma consequência dessa decisão. "Passámos a ter muita diversidade de produtos, mas quantidades pequenas", conta Alfredo Sendim à SÁBADO. "Então, pensei que através da diferenciação pudéssemos chegar a mercados diferentes e convenci a minha família numa noite a converter a produção."

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