Relatório conclui ainda que portugueses dos 18 aos 25 responsabilizam governos e estão pouco informados quanto a soluções e percursos profissionais ligados à transição energética.
Os jovens portugueses sofrem hoje de um paradoxo central relativo à crise climática e a transição energética: estão preocupados mas sentem impotência em relação à questão; estão conscientes dos problemas mas têm conhecimentos superficiais das soluções; têm uma visão pragmática da ação climática mas estão lúcidos quanto ao papel de governos e empresas; são exigentes com estes atores mas têm confiança muito limitada na sua intervenção; estão interessados em carreiras ligadas ao tema mas não conseguem traduzi-lo em escolhas profissionais.
Marcha pelo Clima durante a Conferência dos Oceanos de 2022, em LisboaDR
São estas as conclusões do Estudo Nacional sobre a Perceção dos Jovens Portugueses em relação às Alterações Climáticas e Sustentabilidade, realizado pela Fundação EDP em parceria com a The Equator Company, com base em 1000 entrevistas online, quatro grupos focais com 27 jovens e 16 entrevistas realizadas entre dezembro e fevereiro. Foram consultados jovens entre os 18 e os 25 anos residentes em Portugal, numa amostra representativa por género, idade e região em que metade era composta por estudantes e a outra por trabalhadores.
As conclusões apontam para uma geração distante do negacionismo climático – 86% reconhecem a ação humana como causa das alterações climáticas e 83% consideram-nas uma ameaça à vida humana, com apenas 3% a declararem que não procuram informação sobre o tema –, mas também do ativismo: 16% fizeram voluntariado ambiental, 12% envolveram-se em associações ou grupos locais e apenas 8% participaram de manifestações ou protestos, com 38% sem qualquer participação ou envolvimento, números que não diferem significativamente da participação cívica geral em Portugal.
A falta de informação pode estar por trás desta ausência. Apesar de 63% considerarem ter algum conhecimento sobre o assunto, este incide mais sobre os problemas do que as soluções, com os autores a apontarem para a dificuldade em identificar soluções concretas, a fraca compreensão dos mecanismos de transição energética e a fraca ligação entre clima, economia e escolhas de futuro como principais causas.
As principas fontes de informação apontadas pelos jovens são a televisão (52%), as redes sociais (51%) e a pesquisa online (45%). A escola (56%) também desempenha um papel central, mas os inquiridos queixam-se de falta de transversalidade no estudo das alterações climáticas, da superficialidade na abordagem das dimensões económica, tecnológica e profissional ou da perda de relevância do tema ao longo do percurso académico.
Quanto às responsabilidades a apurar, os jovens têm poucas dívidas, apontando o dedo às instituições políticas e económicas numa leitura sistémica do problema. O governo nacional (30%), a União Europeia (25%) ou a Organização das Nações Unidas (20%) são algumas das entidades mencionadas, com apenas 11% a colocar ênfase nos cidadãos individuais. “Não é só uma questão de reciclar mais. As decisões grandes estão nas empresas e nos governos", diz um jovem não-identificado citado pelo estudo.
As empresas (63%) são de longe as mais responsabilizadas pelas alterações climáticas, com 50% dos inquiridos a considerá-las "muito responsáveis" e 13% a julgá-las "bastante responsáveis". Queixam-se, sobretudo, das narrativas de greenwashing, falta de coerência entre discurso e prática e ausência de resultados mensuráveis e escrutináveis.
Em relação ao seu próprio papel, os jovens estão divididos: apontam o elevado custo de vida (48%), o preço das soluções sustentáveis (46%) e a falta de informação sobre a eficácia das medidas (32%) como barreiras estruturais à ação, mas, em simultâneo, 60% acreditam que os jovens podem ter impacto na tomada de decisão, e 55% creem que a sua própria contribuição pode gerar resultados.
No entanto, de acordo com o relatório, os caminhos não parecem claros. 43% dos jovens declaram gostar de trabalhar em áreas ligadas à sustentabilidade, mas esse interesse não se traduz em escolhas de carreira, dizem os autores, graças, mais uma vez, à falta de informação concreta, à perceção das profissões como pouco qualidicadas e prestigiadas e à fraca ligação entre sustentabilidade, formação e mercado de trabalho.
Jovens alarmados mas impotentes face à crise climática, revela estudo
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