Christa Pike em estado crítico após duas injeções letais falhadas: "Contei 7 agulhas no braço esquerdo"
Advogado de defesa relata o que viu na sala de execuções e médico explica e o que pode ter corrido mal.
A mulher que está no corredor da morte há 31 anos e na última quarta-feira sobreviveu às duas injeções letais que lhe foram administradas no Tennessee, Estados Unidos, está hospitalizada em estado crítico, segundo contaram os seus advogados à imprensa norte-americana. "Não sabemos qual é o prognóstico, sabemos apenas que está viva", explicou aos jornalistas Randy Spivey.
Condenada à pena de morte por homicídio, Christa Pike recebeu duas doses de pentobarbital, mas o coração continuou a bater e acabou por ser conduzida de emergência a um hospital.
Os advogados de Pike descreveram o que correu mal durante a tentativa de execução. "A equipa de execução tentou inserir um cateter intravenoso durante por uma hora", relatou Randy Spivey. "Contei pelo menos sete agulhas usadas só no braço esquerdo. Uma delas parecia estar torta quando foi retirada depois uma tentativa frustrada."
O advogado explicou também que os observadores foram mantidos numa sala escura, atrás de uma cortina fechada, depois da administração da segunda dose letal, e que "ficou claro que a senhora Pike ainda estava a respirar" minutos depois. "Ninguém sabia o que estava a acontecer atrás daquela cortina. Não tinha ideia de quando e se os profissionais médicos lhe estavam a prestar assistência."
O médico norte-americano Joel Zivot, que é contra a pena de morte, contou que este desfecho era evitável, mas completamente previsível. "Já tinha avisado de que isto poderia acontecer, escrevi sobre o tema no passado e tudo acabou por suceder neste caso de Christa Pike."
Segundo Zivot, professor de Anestesiologia e Cirurgia, a administração de uma injeção letal pressupõe a introdução de um cateter numa veia, um procedimento que tem de ser feito por profissionais de saúde treinados. Acontece que os médicos e as enfermeiras não realizam estes procedimentos em casos de penas de morte e as equipas que trabalham nas execuções não têm qualquer tipo de treino clínico.
"A inserção de um cateter intravenoso é um procedimento técnico específico, praticado por profissionais da área da saúde", explicou o médico, suspeitando que a dose letal de pentobarbital administrada a Christa Pike provavelmente se infiltrou no tecido do braço, em vez de entrar diretamente na corrente sanguínea. "É muito provável que ela tenha uma queimadura significativa num ou nos dois os braços devido ao pentobarbital, que suspeito possa ter penetrado nos tecidos. Isso exigirá cuidados por um período de tempo, ela pode estar com o coração debilitado."
A defesa acredita que o governador do estado do Tennessee - que mandou suspender todas as condenações até ao final do ano - deverá agora comutar a pena, isto depois de ter negado o pedido anteriormente. Stephen Ferrell, outro advogado de Christa Pike, disse que a equipa legal está a analisar todas as opções legais. "Queremos estudar isto com calma e garantir que a Christa recupere e tenha alguma participação na decisão sobre o que deseja".
O caso
Christa Pike, recorde-se, foi condenada à morte em 1996 pelo homicídio de uma jovem, de 19 anos. Tinha apenas 18 anos quando, juntamente com o namorado, espancou e torturou Colleen Slemmer até à morte num acampamento para jovens problemáticos. A mãe da vítima, May Martinez, esperava que a execução acontecesse. "Cada vez que penso nisso, penso em Colleen sentindo aquela dor e tentando levantar-se e fugir."
Os advogados Christa Pike apresentaram um pedido de clemência, juntamente com especialistas em direitos humanos da ONU que também pediram para que a execução - a primeira de uma mulher no estado do Tennessee em 200 anos - fosse suspensa.
Na base da argumentação estava o facto de se encontrar documentado um histórico de abuso sexual infantil, abandono e negligência. Os advogados de Christa Pike não têm dúvidas de que se o julgamento pelo mesmo crime acontecesse nos dias de hoje, como adolescente ela não receberia a pena de morte.
Foram entretanto descobertos detalhes sobre a infância da mulher que, segundo a defesa, o júri do julgamento nunca teve a oportunidade de considerar. "É incompreensível que não tenham apresentado nenhum detalhe do histórico de abuso e violação, mesmo sabendo disso", disse Sandra Babcock, especialista em questões de género e pena de morte da Faculdade de Direito de Cornell, que trabalhou na defesa de Pike, citada pela BBC. "O caso dela é tão singularmente fascinante, não apenas por causa do seu histórico realmente incompreensível de violência sexual, mas pela combinação disso com sua juventude e doença mental.
"O relatório de uma psicóloga forense, datado de 1995, revelou que Christa Pike foi negligenciada pelos pais, tendo sofrido abusos físicos e sexuais pelos vários maridos e namorados da mãe, tendo sido violada várias vezes, incluindo em criança, por um namorado da avó. Mas a defesa não utilizou o depoimento da especialista no julgamento e estes dados só foram conhecidos dez anos mais tarde, quando uma nova equipa de advogados pegou no caso e alegou assistência jurídica ineficaz para tentar anular a sentença, sem sucesso.
Em 2021 a mulher foi diagnosticada com transtorno bipolar na prisão e está medicada desde então. Outra psicóloga forense que analisou Christa Pike em 2023 e não tem dúvidas de que o crime foi cometido em circunstâncias excecionais. "A sua infância foi repleta de abusos físicos, sexuais e emocionais. Foi violentada sexualmente por vários homens, começando antes mesmo de entrar na escola", referiu, considerando que Pike sofria de episódios maníacos não tratados devido ao transtorno bipolar e transtorno de stress pós-traumático. "A combinação desses dois fatores influenciou significativamente o nível de ameaça que ela sentiu pela jovem que acabou por matar e sua falta de controlo emocional naquela situação."