Secções
Entrar

Aprenda a liderar as emoções para deixar o amor fluir

Susana Lúcio 14 de fevereiro de 2026 às 07:55

Estar apaixonado não é suficiente para manter um relacionamento saudável. É fundamental conhecermo-nos primeiro, para depois criar cumplicidade com o outro, diz a psicóloga Márcia Melo.

No Dia dos Namorados não se fique apenas com os jantares românticos. Para garantir um relacionamento feliz tem de falar abertamente sobre o que quer e ouvir o outro sem reagir impulsivamente. Esta é a tarefa mais difícil para os casais, segundo a psicóloga Márcia Melo, fundadora do Instituto da Felicidade Inteligente. A SÁBADO entrevistou a especialista sobre liderança e maturidade emocional.
O amor não basta para conseguir manter uma relação saudável? Claro que o amor é essencial. É uma das emoções mais importantes que nós podemos sentir, o amor e a gratidão. Agora, a maturidade emocional é fundamental porque um dos grandes desafios dos relacionamentos é a reação sem reflexão. A maturidade emocional permite que as pessoas não reajam por impulso, mas com ponderação. A ideia romântica de que o amor supera tudo está errada? É mesmo uma ideia romântica. No início de um relacionamento há aquela paixão e tudo se aceita, mas depois acontece o amadurecimento da relação e tem que haver uma capacidade de tolerância à diferença. Para isso tem de existir maturidade emocional. O que é maturidade emocional? A maturidade emocional está relacionada com o desenvolvimento da inteligência emocional. Nós fomos ensinados a estar sempre a olhar para os outros e não a olhar para nós, não aprendemos a fazer essa reflexão interna. Quando reagimos, fazêmo-lo por impulso e, na maioria das vezes, reagimos da forma errada. Precipitamo-nos na análise que fazemos do comportamento do outro e vamos criticar, lamentar e julgar. O outro sente que está a ser atacado? Sim, pode sentir que há uma acusação. Mas se houver maturidade emocional significa que, antes de reagir, nós vamos refletir e pensar qual a resposta ajustada para cada caso, mesmo sob pressão. E a ideia de que numa relação o outro tem de entender e aceitar quem somos? Há muito esse pensamento e o curioso é que a pessoa do casal que pensa assim, está a exigir do outro aquilo que ela própria não está a fazer. As pessoas estão sempre a apontar ao outro e exigir do outro aquilo que elas não fazem. Mas se nós queremos causar uma transformação, a primeira coisa a transformar tem que ser dentro de nós: eu não posso esperar que o outro me vá compreender se eu não faço isso.
Márcia Melo fala sobre a importância da autocompreensão no amor
A maturidade emocional é algo que deve ser trabalhado antes de um relacionamento? Sim e nós não vivemos numa sociedade que estimula o treino e o desenvolvimento da inteligência emocional. Basta olhar para o sistema de ensino, que continua a avaliar a inteligência cognitiva e não o desenvolvimento da inteligência emocional. Como é que podemos desenvolver a inteligência emocional? A inteligência e a maturidade emocional podem ser treinadas, independentemente da idade que tenhamos. Quando nós conseguimos ter essa maturidade emocional, conseguimos melhorar a relação amorosa, bem como as relações com os filhos, familiares e também com os colegas de trabalho. Tem de ser uma reflexão connosco próprios? Se queremos melhorar algo na nossa vida, temos que começar por melhorar algo em nós e isso passa pela liderança emocional. Saber liderar as nossas emoções, conseguir decidir quais são os pensamentos certos para nos alinharmos no caminho que queremos seguir. Quando nós somos líderes emocionalmente, somos emocionalmente maduros. Numa relação parece não haver tempo para pensar como se reage a uma situação.
O grande desafio das relações é que há reação a tudo. As pessoas reagem, não decidem e, muitas vezes, já disseram coisas que não queriam ter dito e é difícil voltar para trás. Qual é o primeiro passo para sermos líderes das nossas emoções? É preciso conhecermo-nos. Muitas vezes, a pessoa nem sequer sabe bem o que quer para ela própria, não se cuida, não se respeita, não sabe o que é o melhor para ela. Isso vai refletir-se em todos os aspetos da sua vida. Depois há que comunicar as nossas necessidades ao outro? O diálogo é sempre fundamental. As emoções têm uma coisa fantástica: são contagiosas. O estado emocional das pessoas é contagiante para o bom e para o mau. Isto significa que se alguém começa a desenvolver a sua maturidade emocional e a liderar as suas emoções e os seus pensamentos, vai ser mais serena, vai ter mais compaixão, vai ser mais compreensiva e esta atitude vai ter impacto no parceiro. A ausência de maturidade emocional potencia as discussões? Sim, somos contagiados pelo outro para o conflito. Uma das partes está exaltada e reclama, a outra reage da mesma forma e o tom de voz vai subindo. Está provado que num conflito quando alguém se exalta e o outro baixa o tom de voz e fala de forma mais calma, o outro vai acabar por descer também e vai igualar. Nós temos a tendência a espelhar o que os outros estão a fazer connosco. Considera existir dependência emocional em alguns casais. Numa relação saudável e equilibrada tem de haver diálogo e cumplicidade. Isto quer dizer que os dois decidem. São duas entidades diferentes, com objetivos profissionais diferentes, mas também com objetivos de casal e isso tem que ser dialogado. Eu penso que há muito a fazer nesta área, principalmente, nas mulheres. Eu sou mãe de três filhos e nunca a minha carreira ficou de lado por eu ser mãe. Tem que haver esta complicidade no casal para se apoiarem mutuamente. Como se manifesta essa dependência? Por exemplo, as mulheres sentem que primeiro está a família, primeiro estão os filhos, primeiro está o casal e depois estão elas. Isto significa que ela não lidera as suas emoções, não se respeita, não se trata, não se cuida. Mais tarde ou mais cedo, isso vai provocar ressentimento. A dependência emocional acontece quando colocamos a nossa felicidade no reconhecimento dos outros. Estamos dependentes da opinião dos outros e não controlamos o nosso equilíbrio emocional, que vem de dentro. O equilíbrio vem de dentro. É esta a principal dificuldade dos casais? Acima de tudo é o desequilíbrio interno que cada um sente e que se reflete no casal. Portanto, quando este trabalho interno acontece vai impactar no relacionamento. Eu já tive várias pessoas a pensar em seguir para um divórcio e, quando se alinharam, perceberam que de facto o relacionamento estava a ser o espelho da desorganização interna. Há padrões inconscientes que prejudicam a relação? Esses padrões estão associados à baixa autoestima. Têm a ver com a forma com que a pessoa reage e que é, muitas vezes, inconsciente. Na filosofia que eu ensino, muito focada na prática, conseguimos mudar padrões de pensamento com treino. Por exemplo, existem pensamentos no nosso inconsciente que fazem parte de todos nós, como os medos: o medo da solidão, o medo da rejeição, o medo da crítica, o medo de falhar. Quando não lideramos os nossos pensamentos e as nossas emoções, vamos reagir a esses medos de forma errada. Estou a falar daqueles pensamentos automáticos que são sempre boicotadores, que nos dizem: ‘Isto vai piorar’, ‘Tu não és capaz’, ‘Ele está a fazer isto por isto.’ Estes pensamentos são o nosso maior inimigo. É aqui que entra a liderança emocional? Se soubermos liderar as nossas emoções, refletimos na resposta certa. Está aprovado que quando reagimos por impulso, não conseguimos ter a perceção da resposta certa. O ideal é respirar fundo, aguardar 40, 50 segundos para decidir a melhor resposta. Parece difícil parar para pensar, numa sociedade que preza o imediato. Tem de ser treinado. Para haver transformação pessoal é preciso 15 a 20 minutos por dia de treino. Costumo dizer que o que acontece só nos afeta se deixarmos. A forma como nós reagimos ao que acontece é responsabilidade nossa.
Artigos recomendados
As mais lidas