Por que é que contar votos na Irlanda é tão demorado?

Negócios 29 de fevereiro de 2016

O país que acolhe mais empresas tecnológicas na Europa é dos que mais tempo demora a contar votos: dois, três ou até mais dias. Veja aqui o que explica este anacronismo.

Por David Santiago - Jornal de Negócios

Sede da Google e de outras empresas de vanguarda na área das tecnologias de informação, a Irlanda está a deixar meio mundo boquiaberto pela tremenda demora em apurar os resultados das eleições legislativas que tiveram lugar na passada sexta-feira. A explicar este aparente anacronismo não está a dimensão do país, apenas 4,5 milhões de habitantes, mas o sistema político constituído em 1922 após a independência da República da Irlanda. São três os pilares sobre os quais assenta o sistema irlandês e que se traduzem num processo moroso: círculos eleitorais com assentos parlamentares múltiplos, voto único transferível e múltiplas contagens que têm de ser feitas aos boletins de voto. Em especial este último, dado que a contagem dos votos, além de demorada é também peculiar. Mas tudo começa com a forma como os eleitores irlandeses exercem o seu direito de voto no boletim. Em vez de uma cruz, podem votar em vários candidatos, do mesmo partido ou de múltiplos, escolhendo com recurso a números ordinais a ordem dos candidatos (ex: 1º, 2º, 3º).
 
A isto chama-se o voto único transferível, que basicamente significa que um determinado eleitor pode estar a transferir o seu voto, por exemplo para a sua segunda escolha. Isto se o primeiro candidato escolhido já tiver ultrapassado a quota necessária à eleição ou se, pelo contrário, já tiver sido eliminado por falta de apoios. Se também a segunda escolha já tiver sido eleita ou eliminada, o voto é transferido para a terceira opção. E por aí adiante.
 
O eleitor pode escolher vários ou somente um candidato, dependendo das suas próprias preferências. Se, a título de exemplo, um eleitor quiser evitar a eleição de um determinado candidato, pode votar em todos os candidatos menos naquele que não quer ver eleito.
 
A complexidade do sistema continua. Apesar do reconhecido desenvolvimento tecnológico do país, não só o voto mas também a contagem é analógica. Esta contagem também tem particularidades. Desde logo, apesar de as eleições terem sido realizadas na passada sexta-feira, só no dia seguinte, sábado, 27 de Fevereiro, às 09:00, é que os boletins de voto são retirados e a contagem é iniciada.
Há três tipos de pessoas envolvidas no processo de contagem. Há depois três tipos de pessoas envolvidas no processo. Os "tallymen", observadores apontados pelos partidos e candidatos e que são incumbidos da observação de todo o processo de contagem e de abertura das urnas de votos. Há também os "counters", que como o nome indica estão encarregados da contagem dos votos e, por fim, os "supervisors", encarregados de controlarem todo o processo.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login