Paulo teve de reaprender a andar, mas sobreviveu ao coronavírus

Não foram só os seus pulmões que deixaram de funcionar, os rins também entraram em falência. Esteve 18 dias na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Egas Moniz, oito dos quais sem consciência, a lutar pela vida. Perdeu 12 quilos, a voz e o ânimo. E demorou mais de um mês para os recuperar.

Não foram só os seus pulmões que deixaram de funcionar, os rins também entraram em falência. Esteve 18 dias na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Egas Moniz, oito dos quais sem consciência, a lutar pela vida. Perdeu 12 quilos, a voz e o ânimo. E demorou mais de um mês para os recuperar.

Sentia-se impotente para tudo, até para um gesto tão simples como virar-se na cama. Tentava aguentar, mas, a meio da noite, as dores apertavam e tinha de mudar de posição. Aqueles dias foram, sobretudo, e também, um exercício de humildade. Além do corpo atrofiado, a medicação desarranjava os intestinos. De 2 em 2 horas, também tinha de chamar para lhe mudarem a fralda.

"Eu estou acostumado a dar ordens e a mandar e, de repente, tive de habituar-me a pedir uma coisa tão simples como mudarem-me a fralda", recorda. "Mas via na cara daquelas pessoas que, não só não achavam repugnante, como estavam sempre bem-dispostas. E, às vezes, logo a seguir a mudarem-me, acontecia novamente", conta.

Paulo Amaral, 55 anos, foi uma das primeiras pessoas a serem internadas na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Egas Moniz, no contexto da Covid-19. Ocupou uma das 11 camas daquele serviço durante 18 dias – de 24 de março a 10 de abril. Durante esse período, esteve em risco de vida: não foram só os pulmões que entraram em falência, também os seus rins deixaram de funcionar.

Paulo teve de reaprender a andar, mas sobreviveu ao coronavírus

"Não tenho imagens, mas recordo-me de ficar por segundos sem conseguir respirar, o que dá vontade de morder ou fazer alguma coisa, e depois ouvir um barulho e sentir um alívio."

"Não tenho imagens, mas recordo-me de ficar por segundos sem conseguir respirar, o que dá vontade de morder ou fazer alguma coisa, e depois ouvir um barulho e sentir um alívio."

Paulo teve de reaprender a andar, mas sobreviveu ao coronavírus

"Adoro café, mas, quando cheguei a casa, sabia-me a tabaco, tive de reaprender a gostar. Também não conseguia comer pão, porque não salivava, só me sabia bem sopa e coisas mais líquidas, e até a água me agoniava."

"Adoro café, mas, quando cheguei a casa, sabia-me a tabaco, tive de reaprender a gostar. Também não conseguia comer pão, porque não salivava, só me sabia bem sopa e coisas mais líquidas, e até a água me agoniava."

Texto Lucília Galha 
Fotografia Miguel Baltazar 
Vídeos Vítor Hugo Azevedo 
Edição Mariana Branco
Webdesign Edgar Lorga 
Produção multimédia Sandro Martins 
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