Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros considera que considerou que a guerra contra o Irão, lançada a 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel, é "claramente ilegal".
O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros João Gomes Cravinho considera que Portugal deveria ter privilegiado a defesa do Direito internacional em vez de ceder a base das Lajes aos Estados Unidos para uma guerra "claramente ilegal" contra o Irão.
João Gomes Cravinho, ex-ministro dos Negócios EstrangeirosTiago Petinga/Lusa
"Eu penso que o nosso ênfase teria de ter sido diferente, teria de ter sido mais no sentido de defender a legalidade internacional", defendeu João Gomes Cravinho em entrevista à agência Lusa em Bruges, na Bélgica, onde assumiu recentemente o cargo de reitor do Colégio da Europa.
O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros (2022-2024), que antes ocupou a pasta da Defesa (2018-2022), considerou que a guerra contra o Irão, lançada em 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel, é "claramente ilegal" e, para um país como Portugal, "inserido no quadro da União Europeia (UE), a defesa do Direito internacional é um ponto fundamental".
"Porque nós, num quadro de esmorecimento do Direito internacional, num quadro em que o Direito internacional fica muito fragilizado, ficamos ainda mais expostos. Portanto, temos de fazer tudo o possível para defender o Direito internacional e, claramente, estamos perante uma guerra ilegal", reforçou.
Questionado se, ao abrigo do acordo das Lajes, não era inevitável Portugal ceder a base aos Estados Unidos, Gomes Cravinho respondeu que se pode entrar em "detalhes jurídicos que são interpretados de acordo com a vontade política".
O ex-ministro frisou que o acordo das Lajes "diz claramente que, para ações militares que não estejam no âmbito da NATO, Portugal tem de dar o seu consentimento", e reconheceu que, no caso da guerra no Irão, com base nas informações disponíveis, "não partiram das Lajes aviões para bombardear o Irão".
"Agora, a base das Lajes foi utilizada apenas para transporte? É evidente que o transporte servia para alguma coisa, era fundamental para alguma coisa... Quem quiser politicamente argumentar que a base não foi utilizada para ações ofensivas contra o Irão, pode sempre encontrar [uma justificação], mas a questão é política muito mais do que jurídica", defendeu.
Apesar desta crítica à postura do Governo português, João Gomes Cravinho considera que a UE "esteve genericamente bem" na resposta à guerra no Irão, sobretudo porque "ninguém avançou com um apoio direto a uma guerra que é ilegal, que não é ganhável pelos Estados Unidos, nem vai produzir resultados positivos".
A avaliação é, no entanto, diferente, no que se refere à resposta dada pelo bloco à ameaça de imposição de tarifas do Presidente norte-americano, Donald Trump.
João Gomes Cravinho afirmou não se rever numa "postura de aceitação da ideia" de que a UE "estava a espoliar os Estados Unidos e, portanto, aceita tarifas de 10% ou 15% a troco de zero", criticando o acordo comercial de Turnberry, entre Bruxelas e Washington.
"Não é bem um acordo comercial, é uma cedência comercial face a ameaças de Trump", afirmou, frisando que países como a China ou o Canadá, que retaliaram contra a ameaça de tarifas, "vão acabar por ficar em melhor posição do que a UE".
"Creio que foi um erro, mas isto é volátil, ou seja, não creio que seja um erro irrecuperável por causa da volatilidade da postura americana", disse.
Relativamente às ameaças de Trump de utilizar a força militar para anexar a Gronelândia, Gomes Cravinho considerou que a UE "esteve bem", frisando que o acordo de segurança anunciado por Donald Trump na semana passada serviu para que ele "salvasse a face" e "é o reconhecimento" de que o Presidente dos Estados Unidos não conseguiu o que desejava.
"É um acordo que põe por escrito uma série de coisas que já lá estavam e faz uma atualização do acordo de 1951 sem acrescentar nada. O facto de haver uma forte resposta da Europa creio que foi relevante", elogiou.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.