Mais do que Belém, Ventura faz mira à liderança da direita. “A nova direita”
O líder do Chega passou à segunda volta na corrida presidencial. O resultado serviu para fazer mira a São Bento (não a Belém) e proclamar-se como líder do “espaço não socialista”.
Para André Ventura, as Presidenciais têm servido como um meio para
um fim. Em janeiro de 2021, um ano e meio depois de ser eleito como
deputado único, usou o sufrágio presidencial para testar o seu peso
político. O resultado? Atingiu a marca do meio milhão de votos,
acima dos 10%, que prepararia o caminho para as legislativas de 2022,
onde elegeria o primeiro grupo parlamentar. Em 2026, André Ventura,
presidente do Chega, líder da oposição e candidato presidencial,
passou à segunda volta na corrida a Belém com 23%, mais de um
milhão de votos – e serviu para se proclamar como líder do
“espaço não socialista”, fazendo mira não a Belém mas a São
Bento.
“A direita
fragmentou-se como nunca, mas os portugueses deram-nos a nós essa
liderança”, afirmou o líder do Chega. “Obrigado aos portugueses
que reconheceram que só havia uma alternativa ao socialismo que nos
destrói”, afirmou. Apresentando-se como campeão da direita,
“líder do espaço não socialista”, o presidente do Chega
dedicou grande parte do seu discurso a apelar o seu voto “a quem
não é socialista”: “Eu quero deixar uma mensagem clara a todo o
povo que não quer o PS, mas também a todos os lideres não
socialistas. A direita não perdeu estas eleições, a direita ganhou
estas eleições”, afirmou.
Tiro a Montenegro e colagem de Seguro ao PS
Perto das 23h30 no
Hotel Marriott, onde o Chega faz as noites eleitorais há mais de
cinco anos, André Ventura foi o penúltimo a subir ao palanque para
o seu discurso da vitória. Recebido em apoteose, ao lado da mulher e
vários deputados e elementos do núcleo duro, como Patrícia Almeida,
Diogo Pacheco de Amorim, Pedro Pinto e Rui Paulo Sousa, posicionou-se
como o candidato que quer congregar a direita. Depois, em oposição,
empurrou os rivais para a esquerda. “Conseguimos derrotar um
candidato do Governo e do Montenegrismo [Luís Marques Mendes,
candidato apoiado pelo PSD]. Conseguimos derrotar o candidato que se
dizia liberal, mas que esteve na agenda globalista e woke [João
Cotrim Figueiredo]”, atacou.
O discurso do líder do Chega revela já o guião para a segunda volta, marcada para 8 de fevereiro: colar António José Seguro ao PS e às governações socialistas. “Seguro representa a tralha de José Sócrates em Portugal. Os restos de António Costa para Portugal. Esse país que não quer José Sócrates, não quer António Costa. (…) António José Seguro vai fazer-nos retroceder anos (…) não quer um país cristão (…) quer imigração descontrolada”, foi afirmando.
A comparação com Mário Soares
No fim, comparou-se com Mário Soares em 1986. Nessas presidenciais, o socialista venceu na segunda volta as eleições após Freitas do Amaral (centrista candidato com o apoio do Governo) ter vencido à primeira volta. “Passados 40 anos da última vez que houve uma segunda volta, em 1986, o espaço da esquerda estava fragmentada. O candidato da esquerda (que acabou por vencer) perdeu à primeira volta. Agora há uma fragmentação à direita – e é isso que vai acontecer connosco.”
A primeira volta das presidenciais culminaram com André Ventura, apoiado pelo Chega, e António José Seguro, apoiado pelo PS, a disputar a Presidência. Nas eleições presidenciais de hoje, André Ventura subiu um ponto percentual em relação a 2025 e obteve 1.321.387 votos (quando faltam contabilizar 12 consulados), menos 116.494 que em 2025. Entre as regiões a destacar, o candidato do Chega venceu em Faro e Madeira, um bastião do PSD, subindo o resultado percentual do partido que lidera, o Chega, em relação às legislativas de 2025, mas com menos votos absolutos contados. Nestas eleições, a votação dos emigrantes, círculo dominado pelo Chega, diminuiu massivamente (menos 84%) em relação às legislativas de maio de 2025, mas mesmo contabilizando apenas o território nacional, André Ventura teve menos 48.156 votos.