O meu lema é “come e deixa comer” e não massacro os outros por causa do que comem. Já a mim não massacram, mas às vezes moem um bocado. E pelos vistos alguém não comer carne também dá muita vontade de rir.
Vou fazer uma homenagem que até hoje não fiz publicamente
porque a oportunidade não surgiu.
Quando estava no terceiro ano do curso deixei de comer
carne. Éramos dois com o mesmo nome na minha turma, e houve uma professora que
na brincadeira disse que o meu colega era o Miguel Mais Magrinho, e eu o Miguel
Mais… e calou-se. Não fiquei zangado, aliás no passado dia 25 de abril vimo-nos
na Avenida da Liberdade e foi um reencontro sorridente, mas na altura eu era um
pós-adolescente com as inseguranças próprias da idade (talvez de todas as
idades) e aquelas reticências ficaram-me na cabeça.
Não estando devidamente informado sobre nutrição, resolvi
que era da carne. E eliminei-a da minha dieta. No refeitório, comia peixe
quando havia, e se não havia comia a sopa e os acompanhamentos. As funcionárias
faziam o prato à nossa frente, e comecei a pedir “só as batatas e a salada” ou
“só o arroz e os legumes”. E elas foram notando. Vai daí, há um dia em que
chego ao refeitório, o prato é carne, eu já preparado para comer tudo menos a
dita, e a senhora que me vai fazer o prato diz: “Espere, que temos aqui uma
coisa para si.” E aparece-me com um tabuleiro com um prato vegetariano. Fiquei
todo contente, porque sempre comia uma coisa mais substancialzinha, mas também
pelo gesto atencioso.
Sem que eu alguma vez tenha pedido, isto tornou-se regra:
se havia peixe, comia o peixe; se havia carne, elas tinham um prato vegetariano
para meia dúzia de pessoas, porque havia mais três ou quatro vegetarianos por
ali, e porque alguns viam que eu estava a comer outra coisa, vinham espreitar e
entusiasmavam-se. As senhoras do refeitório chegavam a avisar-me de véspera:
“Amanhã é carne, quer que a gente lhe faça um daqueles pratos especiais?” A
resposta dava-se por si.
Houve uma ocasião que nunca vou esquecer: cheguei ao
refeitório à hora de almoço, e a senhora disse-me: “Hoje não havia mais ninguém
para o menu vegetariano.” E eu: “Não há problema, pode pôr o arroz e os
legumes.” Ela abre um sorriso e diz: “Não é preciso. Tem isto.” E mostra-me um
prato único, que tinham feito apenas para mim.
Avancemos sete anos. Estava a dar aulas no Liceu Camões e,
quando fui apanhar o comboio ao final da tarde, cruzei-me com uma delas na
Avenida 5 de Outubro. Reconhecemo-nos, sorrimos um para o outro e, além do
“olá, boa tarde”, falámos dois ou três minutos. Ela lembrava-se muito bem dos
pratos vegetarianos, e disse que era um gosto para todas fazerem aquilo.
Estou a fazer um agradecimento público às três (eram
três, se não me engano), porque agora valorizo muito mais o que elas faziam. Já
lá vão décadas desde que mudei os meus hábitos alimentares, e não há
sacrossanta reunião de família em que não ouça: “Tu não comes carne, não é?” Pois
estas três senhoras, que nem o meu nome sabiam — nem eu o delas, e tenho pena
—, olharam, viram, lembraram-se de ter esta simpatia e assim fizeram, sem uma
pergunta, um comentário, ou um daqueles risos ou sorrisos que não nos dão assim
muita vontade de rir ou sorrir com o risonho ou sorrisonho. Agradeço-lhes por cada
um dos pratos deliciosos, pela atitude, por serem Senhoras, e também porque me fizeram
sentir um bocadinho especial, e que atire a primeira pedra quem nunca. Elas também
se sentiam felizes, soube eu depois, ou pelo menos mais bem-dispostas, quando
faziam aquilo, porque, coisa que anda esquecida, ser atencioso, ser cortês, ser
generoso com os nossos sentimentos, faz-nos mais felizes. Talvez elas já
soubessem isso. Eu era um jovem e ainda estava em processo. Espero entretanto ter
aprendido essa lição valiosa.
No Natal de 2020, uns amigos ofereceram bilhetes a um
grupo para irmos todos ver o “Depois do Medo”, do Bruno Nogueira, na Altice
Arena. Fiquei muito impressionado com a capacidade dele de contornar os aspetos
técnicos de fazer humor num espaço com aquela lotação (o delay, por
exemplo, quando o timing é quase o ingrediente principal da stand-up
comedy), e ri-me com aquela crónica familiar que o Bruno Nogueira nos relatava,
em que as piadas não eram propriamente contra ninguém, eram apenas episódios da
sua vida. Nessa noite ele teve 14 mil espetadores na mão. Aplaudi de pé — e não
é costume.
E chegamos a outubro de 2026: o menu piço. Vi o sketch
numa rede social, portanto também pude ver as reações mais ou menos em direto.
Mais do que um humorista, o Bruno Nogueira é uma estrela. 850 mil seguidores.
Este sketch ultrapassou os 130 mil “gostos” e os 3500 comentários, que
maioritariamente — e este é o ponto — gozam com quem não come carne. Para
a meia dúzia que ainda não viu, a situação é esta: numa tal “época distópica”
que, claro, é a nossa, o Cliente Número Um pede a feijoada de gambas e merece a
aprovação do Bruno Nogueira. O Cliente Número Dois quer sopa, legumes, iogurte
e fruta. E o Bruno não gosta. Não o diz, mas vê-se pela cara, tanto que no fim
o Cliente Número Dois nem pode tocar num tabuleiro e se quiser ir picando
qualquer coisa, tem de comer diretamente do balcão. Ele e outros que entretanto
chegam são piços, e vão comer o menu piço, ficamos a saber.
Fiquei confuso. Num vídeo de 21 de janeiro, antes da
segunda volta das presidenciais, Bruno Nogueira concluía que “o Montenegro, o
Marques Mendes e o Cotrim são (alegadamente, ressalva ele) três piços, três
piçalhões, um bouquet com a cabeça de três piços”. E porquê? Porque não
apoiavam António José Seguro e, sugeria o Bruno, “engraçavam com o outro”, cujo
nome não é dito no vídeo.
Pensei que um piço era isso, mas afinal um piço também é
quem almoça sopa e legumes. Passei os olhos pelos comentários ao sketch,
e andam todos mais ou menos à volta do que é ou não é um piço, e alguns pobres
utilizadores brasileiros bem perguntam “Mas o que é um piço? No Brasil não
temos essa palavra”, e não conseguem uma resposta esclarecedora, porque a
maioria dos homens comentadores estão ocupados a denunciar quem anda por ali e
é um “ávido consumidor do menu piço” (e muito tempo dedicam eles a contemplar
esta situação!), enquanto a maioria das mulheres comentadoras faz insinuações e
inuendos que decerto muito as aparentam às senhoras suas mães, porque houve um
tempo em que as senhoras casadas mães de família não conseguiam falar dessas
coisas sem se engasgarem e corarem, ou então riam, riam muito. As filhas já não
se engasgam nem coram (até porque estão a escrever), mas, tal como as mães,
andam por ali a rondar e a insinuar, sem chegar ao cerne do que as eriça. Deve
ser mesmo verdadeiro o adágio de que todos nos tornamos os nossos pais.
E eu confesso que não percebo o que as irrita, ou a eles,
nem o que os incomoda, ou a elas. Deixei de comer carne há quase três décadas, e
à vaca, ao porco e ao frango juntaram-se entretanto outros seres do reino
animal — e agora já não é para não ser gordo, é porque entraram considerações
éticas na equação. Não faço questão de falar disso quando estou em convívio, e se
acontece é porque alguém me pergunta ou comenta. O meu lema é “come e deixa
comer” e não massacro os outros por causa do que comem. Já a mim não massacram,
mas às vezes moem um bocado. E pelos vistos alguém não comer carne também dá
muita vontade de rir. Não tenho mais remédio senão aceitar que as coisas são
assim mesmo. Não me passa pela cabeça processar o Bruno Nogueira. (Embora
reconheça a qualquer um o direito de se sentir ofendido por uma piada, e jamais
ridicularizaria quem se sente.)
Voltando ao sketch, o primeiro cliente quer as
gambas, e o Bruno aprova. Poderão não saber, cliente e Bruno, ou talvez saibam,
não sei, que na produção de camarão (e gambas) se faz, nas fêmeas, uma coisa
chamada “ablação do pedúnculo ocular”, que é basicamente tirar-lhes os olhos,
porque isto faz com que se reproduzam mais. Por extenso, “é amputado o
pedúnculo ocular, com uma tesoura ou bisturi”, seguindo-se a “cauterização a
quente”, devendo o procedimento durar “um minuto, no máximo, para não stressar
o animal”. Pronto, o que vale é que os humanos são compassivos, como se vê. Que
isto não faça diferença ao Cliente Número Um, ou ao Bruno, que suponho escreveu
o sketch, é lá com eles. Acho mais absurdo, ou mesmo triste, que queiram
rir-se de mim e de outros que não comem estas coisas. Recusamo-nos a ingerir
criaturas a quem arrancaram os olhos para elas nos darem mais comida para
enchermos a bocha?! Meu Deus, somos mesmo palhaços!
O livro Sapiens, de Yuval Noah Harari, é um enorme
êxito editorial em Portugal. Em 2020 caminhava para os 150 mil exemplares
vendidos. Não sei em quantos irá agora, mas uma coisa é certa: é muito exemplar
vendido. Pergunto-me é se as pessoas leram o livro, porque na pg. 121 nos é
explicado que, na indústria da carne, um vitelo é separado da mãe e trancado
numa jaula pouco maior que o seu corpo, e é ali que vive a sua curta vida de 4
meses, para os músculos ficarem sempre fracos e a carne ser macia e suculenta.
“Está entre os animais mais infelizes do planeta”, conclui Harari, mas que isso
não detenha os não piços — entre eles o Bruno Nogueira, suponho — de se
banquetearem e lamberem os dedos!
Diz-se que somos o que comemos. A frase remonta, pelo
menos, a 1826. Talvez isto explique que atualmente se ande a matar porventura
mais do que nunca, não só em guerras, como por aí, na cidade e no campo. Se
somos autênticos selvagens que não olham à crueldade para comer umas coisinhas
boas, porque não havíamos de ser da mesma maneira quando nos fazem chegar a
mostarda ao nariz?
Não, não como carne de vaca, nem vitelo nem frango, nem
gambas nem camarão, nem polvo, javali, tartaruga ou canguru, e digo isto de
cabeça erguida. (Para quem fala a linguagem dos inuendos e graçolas: estou a
falar da cabeça em cima dos ombros.)
Mas há aqui outra questão. No tal vídeo sobre as
presidenciais, o Bruno Nogueira chama piços aos que secretamente “engraçam com
o outro”. Lendo os comentários elogiosos ao seu sketch do menu piço,
arrisco dizer que muitos dos fãs são justamente os que engraçam com o outro. E de
certeza (ou alegadamente, vá) que o Bruno sabe isto. Basta ter olhos para ler.
Não tenho nenhuma dúvida de que o seu coração político bate por outros lados, e
o sketch do Casting Salazar, que quase duplicou o número de “gostos” e
mais que duplicou o número de comentários, aponta nesse sentido. (Também podia
argumentar o contrário, mas acho que ele é mesmo de esquerda, ou
esquerda-centro, ou centro simpático.)
O certo é que, com o sketch do menu piço, deu
muita artilharia aos simpatizantes do outro, que detestam quem não come carne,
aliás homens que não comem carne, e previsivelmente passam daí aos homens que
gostam de homens. Porque é disso que trata a maioria dos comentários. Quem come
o menu piço, e de facto só vemos homens no sketch, são os homens que
comem… piço. E, porque sou mais atencioso para com os utilizadores brasileiros
do que a maioria que foi deixar “gostos” e comentários no vídeo, mais esclareço
que, citando o Dicionário de Calão da Universidade do Minho, piço é “abono de
família, pénis, pila, badalo, caralho, black and decker, etc.”
Quem come o menu piço — os homens que comem o menu
piço — são os que gostam destes sinónimos todos. Estou a bater na tecla dos
homens, porque de facto a cena não envolve uma única mulher, seja atriz ou
figurante. Resta-me saudar a sensibilidade do humorista ao ar dos tempos,
porque, para quem quer estar do lado certo da História, há insultos que em 2026
de facto já não são aceitáveis, mesmo que na brincadeira. Outros ainda são,
pelos vistos.
No fundo, também não acho que era aí que o Bruno Nogueira
queria chegar, mas infelizmente foi para onde as reações ao seu trabalho
entornaram, e duvido que isso ele não tenha conseguido prever. Não é dono das
reações do público? Claro que não, mas a esse tipo de argumento chama-se uma
palavra cujo significado só percebi recentemente: gaslighting.
Queira-se ou não, assuma-se ou não, esta anedota tem
visados, tem um alvo, e grosso modo (calma, é uma expressão do latim,
significa “de modo impreciso” ou “por alto”, não é nada do que talvez uma
mão-cheia dos tais 3500 comentadores se preparasse para apontar!) gera
comentários e risos que são hostis, depreciativos e bem mais devedores da raiva
do que da boa-disposição. São muito aparentados lá ao outro que o Bruno
Nogueira menciona sem nomear no vídeo das presidenciais, e a toda a sua fação, que
normalizou essa maneira de estar na Assembleia da República, na descida da
Avenida da Liberdade no 25 de Abril, nas manifestações, na rua, nas caixas de
comentários e, muito recentemente, no estúdio da Rádio Universidade de Coimbra.
É sabido que, na maioria dos casos, a inspiração dos
humoristas nasce da depressão ou da raiva. A novidade é que, hoje em dia, o
humor parece estar a ser feito para que o riso que provoca venha também dessas
bandas. Muito longe vão os tempos desse clássico inultrapassável do humor
português, o sketch dos Caixões Vilaças, de Herman José, que nos faz
chorar a rir e, até onde alcanço, não está a depreciar nada nem ninguém.
Resumindo e baralhando, fiquei sem perceber onde
quis o Bruno Nogueira chegar com este sketch. Percebi sim, que foi
buscar “gostos” (votos de popularidade) aos que simpatizam com o outro, tal
como logo a seguir, com outro sketch, os foi buscar aos que não
simpatizam com o outro. Isto é democrático. Isto é ser mainstream. Isto
é ser um comediante que não tem nada a provar a ninguém, que é por mérito
próprio uma estrela do entretenimento, e que decerto já entrou para a história
do humor português. Às vezes, um dos grandes do humor nacional também pode ser
— alegadamente — um grande piçalhão.
O meu lema é “come e deixa comer” e não massacro os outros por causa do que comem. Já a mim não massacram, mas às vezes moem um bocado. E pelos vistos alguém não comer carne também dá muita vontade de rir.
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