As nossas almas ardem como cigarros
Pedro Marta Santos
07 de abril de 2020

As nossas almas ardem como cigarros

Fazem-se máquinas de roupa como robôs, lava-se a louça em transe, marca-se o ponto no discreto bunker a que chamávamos casa. Já não o é. É o endereço mais improvável da nossa prisão

As nossas almas ardem como cigarros, mas não as atirem já ao chão. O que é um homem sem se mexer? Aguarda. Aguarda pela oportunidade de se mover, dando sentido ao que faz, ao que deixa de fazer, ao que gostaria que fosse feito. No autoexílio, desesperamos – quem disser que não desespera, mente. E logo a si próprio, que é a pior forma de faltar à verdade. Sabemos que o mundo condena os mentirosos que nada mais fazem do que mentir, e recompensa os poetas, que só mentem sobre as coisas importantes. Ambos perceberam que terminou a imperial na esplanada, findou-se o vento de Verão, e a frescura da água vai evaporando, gotícula a gotícula (as malditas gotículas). Desejamos secretamente sevícias, penitências, o hara-kiri. Quantas vezes se pode ser original num sofá?

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