Descansem, descansem e depois queixem-se
José Pacheco Pereira Professor
14 de maio de 2017

Descansem, descansem e depois queixem-se

Sendo importante a questão europeia, com Le Pen defensora da saída da União e Macron ultra-europeísta, o core business da Le Pen é a emigração, o racismo e a xenofobia muito mais do que a Europa, e o core business de Macron não é o anti-Lepenismo, mas o business propriamente dito

Com a habitual inconsciência europeia, está tudo muito feliz e descansado porque Marine Le Pen não conseguiu sequer aproximar-se da Presidência da República em França. Eu também estou por não ter conseguido, mas não estou nada feliz e descansado com o resto. E o resto é que, se não fossem as características do sistema eleitoral francês de duas voltas, que facilita e muito o voto de recusa, Le Pen estaria taco a taco com Macron, como aliás esteve na primeira volta. Acresce que o número de votos brancos e nulos, não se podendo somar aos de Le Pen, mostram acima de tudo insatisfação com Macron, ao ponto de esses votantes aceitarem correr o risco de ajudar a eleger uma pessoa como Marine Le Pen, pela desconfiança e rejeição de Macron. O mesmo se pode dizer de uma parte das abstenções. Muitos franceses rejeitaram Le Pen, mas também muitos franceses só votaram em Macron porque não havia alternativa, e isso é um péssimo sinal de como as coisas estão em França onde uma candidatura genuinamente de extrema-direita, pode receber os votos de milhões de franceses.

Acresce que, sendo importante a questão europeia, com Le Pen defensora da saída da União e Macron ultra-europeísta, o core business da Le Pen é a emigração, o racismo e a xenofobia muito mais do que a Europa, e o core business de Macron não é o anti-Lepenismo, mas o business propriamente dito. A relação entre ambos é aquela que a União Europeia, e a direita do "ajustamento", não quer admitir: é que o que alimenta o crescimento da base de Le Pen são as políticas como as que Macron (e o Eurogrupo) defendem. Ou seja, um faz o terreno do outro, só que o outro em França é o pior dos "outros" que andam por aí na Europa.

Não há muitas razões para descansar, enquanto as políticas europeias são elas próprias as geradoras do populismo. E, como mostra a experiência do passado, sempre que se consegue evitar o pior há duas semanas a prometer mudanças e depois volta tudo ao mesmo. 

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