O mundo em 2021
Nuno Rogeiro
15 de fevereiro

O mundo em 2021

Naturalmente obcecados com a árvore do nosso problema, perdemos por vezes a noção da floresta global. A seguir, uma perspetiva do que esta poderá ser, com os dados disponíveis e previsíveis

EUA – O gigante ex-imperial está dividido. Talvez tão repartido como na altura da Guerra Civil. Todos têm armas, todos desconfiam, todos vociferam.
A esperança ingénua de que um líder unificador bondoso pudesse reinar em harmonia, ajudado por media racionais e pedagógicos, fica como mero desejo. Por outro lado, é ainda preciso – mais uma vez – um período de reflexão, de interioridade, de resolução.
O julgamento de Trump fratura ainda mais, mas é necessário. Qualquer sociedade decente deve ter um pacto: os contenciosos discutem-se nos tribunais, e os órgãos de soberania precisam de decidir sem a coação da rua.
O que se diria se os bandos Antifa e os elementos mais extremos do BLM tivessem ocupado o Congresso, para impedir uma contagem de votos que favoreceria Trump? Não se pode assim confundir a liberdade de associação, manifestação e protesto, com a chantagem sobre um parlamento eleito.
Ou melhor, pode-se. Mas então escolhe-se a via da revolução, que aparece em muitas bocas. Ora a verdade é que o mundo não conheceu nunca os EUA como superpotência e ao mesmo tempo como nação em contestação interna. De 1861 a 1865, o Norte não poderia ter ditado condições a ninguém no estrangeiro, ou pedido o respeito pelo direito internacional, enquanto combatia o Sul. E vice-versa.
Mas, ao mesmo tempo, o gigante desperta da dúvida, e prossegue uma política externa que continua a ter, como é natural, amigos e inimigos, rivais e aliados.
Por outro lado, naquela esfera mais pequena que pode ser feita e desfeita por decretos presidenciais (por oposição a leis), cada equipa da Casa Branca desmantela parte do que considera "pesada herança" dos antecessores. E ao fazê-lo, cria clientelas e descontentes. Escolhendo entre a economia "verde" e o emprego imediato na economia mais fácil, Joe Biden vai criar e satisfazer adeptos, mas criará legiões de revoltados.

Europa – A crise da Covid mostrou duas coisas: uma Europa unida em elementos essenciais, como a ajuda aos membros, e dividida quanto a medidas de saúde e resposta à emergência. Não se vê que 2021 possa desmontar esta esquizofrenia. Por outro lado, a mesma Europa tem um novo rival: o Reino Unido, também europeu mas atlântico e separado. É a Londres que a nova administração de Washington piscou primeiro o olho: o eixo continua, seja quem for a ocupar os tronos.

Médio Oriente – O facto mais relevante é a nova aproximação de Israel aos árabes, no intuito de isolar o Irão. Quanto à Turquia, terá de escolher. E os palestinianos não serão os atores principais do filme.

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