Respostas para tempos de medo
Eduardo Dâmaso Director
26 de março de 2020

Respostas para tempos de medo

A indecisão inicial de Christine Lagarde, governadora do Banco Central Europeu, quase nos matava de susto. Pelo cinismo de deixar Itália entregue a si própria

Mário Centeno, na dupla qualidade de ministro das Finanças e de presidente do Eurogrupo, veio esta semana dizer que a resposta europeia à crise "não vai ter limite e vai ser muito solidária". Espera-se que sim e, sobretudo, que seja rápida. As primeiras reações europeias não foram nem rápidas nem animadoras. Agora, ao menos, que a Europa, tal como Centeno em relação à sua permanência na pasta das Finanças, arrepie caminho. Porque se o tempo é de guerra, como disseram, não há margem para deserções da linha da frente nem para indecisões. Nas guerras verdadeiras, a indecisão só produz uma coisa: a morte própria e a alheia. O general que hesita, habitualmente mata os seus soldados.

A indecisão inicial de Christine Lagarde, governadora do Banco Central Europeu, quase nos matava de susto. Pelo cinismo de deixar Itália entregue a si própria e pela aparente inconsciência sobre a dimensão da tragédia em curso. Basicamente, Lagarde remetia para os governos e para os orçamentos nacionais a resposta a esta crise. Não estava a perceber a magnitude da recessão que aí está. As Bolsas deram-lhe um sinal muito vermelho e o BCE veio, felizmente, corrigir o tiro. Veio dizer que, afinal, percebeu a real dimensão do que está em jogo e, portanto, abrir os cordões à bolsa com um pacote de 750 mil milhões de euros para início de conversa. Vai comprar dívida pública dos países e dívida das empresas, injetar liquidez nas economias e, muito importante para Portugal, assumir que compra mais aos países que o necessitem, sem olhar ao peso das respetivas economias no quadro europeu. Não há limites para o compromisso do BCE com o euro, escreveu depois Lagarde. Nunca como hoje necessitamos de líderes que tenham coragem e falem verdade. E que apresentem verdadeiras respostas para estes tempos de incerteza e medo.

A hora dos bancos
Para lá do BCE, os bancos nacionais estão obrigados a uma solidariedade clara para com as populações. Foram os contribuintes de cada país que pagaram – e ainda pagam - a crise do subprime e que, portanto, salvaram a banca. Escrevo a uma segunda-feira e espero, francamente, que na quinta, quando esta revista sair para os quiosques que resistem, António Costa não tenha necessidade de continuar a mandar recados à banca portuguesa. Espero que esta tenha vindo a terreiro dizer de que matéria concreta se faz a solidariedade dos bancos. Se estão mesmo do lado dos portugueses, como a Caixa Geral de Depósitos já começou por fazer, ou se vão continuar escudados em artificialismos jurídicos para ganhar com esta crise, à custa dos clientes. Seria desastroso e uma indecência!

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