Demasiado(s) polarizados, todos iguais
Tiago Pereira Membro da Direcção e Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses
06 de abril

Demasiado(s) polarizados, todos iguais

A perspectiva da diversidade como riqueza ajudou-me a pensar-me no Mundo e na minha relação comigo e com as outras e os outros.


TC. Leio e faço a associação automática a Tribunal Constitucional. Não foi sempre assim. Sou de uma geração marcada pela emergência da internet e por uma progressiva facilidade de acesso à informação e comunicação. Vivi a chegada do mIRC a Portugal (onde tc correspondia a teclas), alguns anos depois da sua criação em 1995. Em 1995 tinha 12 anos e, a propósito da comemoração dos 50 anos do fim da 2ª Guerra Mundial, era lançada a campanha "todos diferentes, todos iguais". Esta campanha, de prevenção do racismo e xenofobia, foi muito impactante para mim tal qual foi o desenvolvimento da internet, para mim e para toda a sociedade. Nesse momento, a perspectiva da diversidade como riqueza ajudou-me a pensar-me no Mundo e na minha relação comigo e com as outras e os outros. A pensar a diversidade de percursos, experiências e crenças como factor de questionamento e desenvolvimento.

Era outro o tempo e foi com deslumbramento que 2 anos depois fui a Londres, única vez até 2004 que, com excepção de cidades fronteiriças, saí de Portugal. No ano seguinte "devorei" a Expo98 onde fui várias vezes no comboio que de perto da minha aldeia me levava e trazia desse outro Mundo que era uma Lisboa efervescente. Mais tarde a Universidade, aqui, e depois em Itália onde o Erasmus me deu finalmente Mundo, permitindo-me conhecer o país, viajar por países vizinhos e sentir-me no centro da Europa. Quatro momentos essenciais de contacto com a diversidade que muito me transformaram e que, com perda também (a transformação nunca resulta apenas em ganho), muito contribuíram para o que e quem hoje sou. Quatro momentos que partilham o tempo de transformação da forma como comunicamos em sociedade, nomeadamente com a generalização dos telemóveis e SMS, da internet, email e messenger e das redes sociais.

Em 2004, enquanto estudava Psicologia em Turim, nascia o Facebook e o país onde vivia discutia a "Lei Gasparri" e a reforma do sistema audiovisual à medida da possibilidade da sua posse (controlo?) pelo grupo ligado ao primeiro-ministro, Sílvio Berlusconi. O Erasmus deu-me Mundo, dizia. Mundo, no momento da emergência de um dos grandes impulsionadores das redes sociais do início do século XXI – o Facebook; e de um dos grandes impulsionadores do populismo nas democracias do início do século XXI – Berlusconi.

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