As linhas com que a Europa se cose em 2026
A convergência de fatores externos e internos vai continuar a pressionar os decisores europeus à medida que o crescimento económico continua morno, a erosão de consensos e as pressões sobre os governos se intensificam, a competição por recursos naturais acelera, a crise climática não abranda e os ataques híbridos e a insegurança cibernética passam a ser mais frequentes.
Visto de Bruxelas, a Europa enfrenta em 2026 três riscos principais: rivalidades geoestratégicas entre grandes potências, competição geoeconómica a nível global e fragmentação e polarização políticas. Estes vetores de mudança vão influenciar a forma como os governos dos 27 e as instituições da União Europeia respondem a um número crescente de desafios geopolíticos, económicos, ecológicos, digitais e demográficos. A convergência de fatores externos e internos vai continuar a pressionar os decisores europeus – tanto públicos como privados – à medida que o crescimento económico continua morno, a erosão de consensos e as pressões sobre os governos se intensificam, a competição por recursos naturais acelera, a crise climática não abranda e os ataques híbridos e a insegurança cibernética passam a ser mais frequentes. A julgar pelas primeiras semanas de janeiro, os Europeus devem preparar-se para mais a incerteza e volatilidade em 2026.
As rivalidades geoestratégicas serão uma dinâmica determinante para a Europa em 2026. A Rússia continua a ser a principal ameaça à segurança da Europa Ocidental. Os riscos que resultam do revisionismo militar russo vão depender em grande medida da evolução da guerra contra a Ucrânia. Para ganhar vantagem em eventuais negociações, o Kremlin poderá redobrar as suas ações de guerra híbrida para testar a determinação dos europeus. Para além de ter de lidar com a Rússia, a UE continuará a ter de gerir a ascensão sustentada e assertiva da China, incluindo o alinhamento de Pequim com Moscovo. Depois de anos em que as relações sino-europeias se degradaram politicamente, houve, em 2025, uma tentativa de estabilização por parte dos líderes europeus, mas, como discutimos aqui, sem grandes avanços positivos. Para além disso, a pressão americana para que a Europa ganhe distância relativamente à China deverá continuar.
Como o drama dos últimos dias sobre a Groenlândia demonstrou, a maior mudança geopolítica para a Europa pode vir a ser um afastamento estratégico mais pronunciado dos Estados Unidos face à UE e à NATO, promovido por uma administração americana eurocética. A recente Estratégia de Segurança Nacional não deixa margem para dúvidas sobre as prioridades políticas da administração Trump para a Europa e sobre os seus aliados preferenciais no continente. Na atualidade, e independentemente de quem venha a ocupar a Casa Branca no futuro, a autonomia estratégica da Europa em matéria de segurança e defesa deixou de ser uma opção entre muitas: é uma necessidade existencial.
Enquanto a noção de esferas de influência ganha terreno, ilustrada pela intervenção americana para prender o ditador venezuelano Nicolás Maduro, as ditas potências médias continuarão a evitar tomar partido na crescente rivalidade entre a China e os EUA. Países como a África do Sul, a Arábia Saudita, o Brasil, a Índia, a Indonésia, e a Turquia vão continuar a ter um papel relevante no desenho da nova ordem global e oferecem à UE uma oportunidade de diversificação económica e comercial, juntamente com países como a Austrália, Canadá, Coreia, Japão, Noruega, Singapura, Suíça e Reino Unido que, do ponto de vista estratégico e político, continuam próximos da Europa.
A competição geoeconómica deverá continuar a definir 2026 a nível internacional. A juntar às medidas protecionistas e às barreiras comerciais que se consolidam por esse mundo fora, a Europa vai continuar a apostar nas suas políticas de 'segurança económica'. Ou seja, a segurança e a resiliência, não a eficiência económica, continuarão a ser critérios na tomada de decisões económicas e industriais da UE, com implicações para mercados e sociedades que prosperaram com a globalização e com a abertura.
Neste domínio, as prioridades para a Europa são claras: reforço das cadeias de abastecimento e diversificação em áreas críticas, redução de dependências de fornecedores únicos ou não confiáveis, combate ao excesso de capacidade produtiva da China, proteção de infraestruturas físicas e digitais e a manutenção do acesso a recursos críticos e matérias-primas fundamentais para as transições limpa e tecnológica. Na medida em que a maioria das economias avançadas e emergentes prossegue objetivos semelhantes, a UE tem de continuar a gerir aquilo que é hoje designado por ‘interdependência competitiva’.
Por outro lado, a UE vai manter o objetivo de maior diversificação económica e comercial, não sem obstáculos como o acordo com o Mercosul bem demonstra. Tal como as medidas para enfrentar a crise climática ou as políticas de imigração, a globalização e os tratados comerciais tornaram-se igualmente alvos de discursos populistas e nacionalistas por toda a Europa. É através destes temas que a influência de partidos radicais tem crescido, sem que os partidos pró-europeus tenham conseguido contrariar esta tendência de forma eficaz.
Ora, a polarização e a fragmentação políticas, vão permanecer na Europa. Embora haja sinais de que, quando testados na governação, alguns partidos radicais podem ter dificuldades como aconteceu recentemente nos Países Baixos, em França, na Alemanha e no Reino Unido (mas não só) as sondagens mostram o crescimento de partidos de direita populista eurocéticos. A somar a isto, a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA serve de impulso para as agendas políticas e culturais destes partidos. Com eleições na Hungria em abril de 2026 e em França, Espanha, Polónia e Itália durante 2027, poderemos vir a assistir ao apoio da administração americana a partidos que pretendem enfraquecer o papel da UE.
Com o crescimento da influência de partidos populistas, nacionalistas ou da direita radical no desenho político e institucional europeu, os níveis de consenso necessários para fazer avançar o projeto de integração europeia estão diminuídos ou mais difíceis de atingir. Isto pode levar a um enfraquecimento das instituições da UE, em especial da Comissão Europeia, em favor de soluções nacionais ou intergovernamentais para problemas partilhados.
A Europa em 2026
Os europeus têm de se preparar para um ano incerto e volátil onde riscos geoestratégicos e geoeconómicos interagem e convergem e os níveis de fragmentação política tanto a nível nacional como da UE impedem os consensos e compromissos necessários. São as linhas de fratura com que vamos ter de nos coser nos próximos tempos.
Sem esquecer as dificuldades, é bom lembrar que há um enorme potencial de futuro para explorar na Europa e que os pró-europeus devem também olhar para os próximos atos eleitorais nos vários países europeus como uma oportunidade para refundar e fazer avançar o projeto europeu de forma mais autónoma e estratégica. Assim seja.
P.s. Este texto é inspirado na minha contribuição inicial para o relatório anual de riscos para 2026 publicado pela Agora Strategy que pode ser lido aqui.
As linhas com que a Europa se cose em 2026
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