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Renato Gomes Carvalho Membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses
22.10.2026

Ser feliz não é estar sempre bem

Num tempo em que mostrar-se fantástico parece frequentemente ser uma espécie de obrigação, que é amplificada pelas redes sociais, não esqueçamos que não fomos feitos para viver em euforia permanente.

Desde os primórdios do pensamento humano que se reconhece a ideia de que nós não reagimos diretamente à realidade, mas à interpretação subjetiva que fazemos dela. Essa interpretação influencia o que sentimos, pensamos e fazemos, sendo especialmente importante, por exemplo, em situações de adversidade, onde normalmente o que se chama ter uma atitude positiva - para simplificar a ideia - tem demonstrado eficácia na capacidade de lidar com as dificuldades.

Mas a tal atitude positiva não significa negar o que sentimos, rejeitar as experiências mais dolorosas ou ignorar que nem sempre estamos, ou nos sentimos, bem. Há uma diferença entre viver e procurar sentido nas dificuldades e fingir que elas não existem.

Num tempo em que mostrar-se fantástico parece frequentemente ser uma espécie de obrigação, que é amplificada pelas redes sociais, não esqueçamos que não fomos feitos para viver em euforia permanente. O vasto leque de emoções que caracteriza a experiência humana, incluindo a tristeza, a desilusão, a zanga, entre outras, é para ser vivido.

Certamente que um estado permanente de tristeza ou raiva é inadaptativo e frequentemente carece de intervenção profissional. Mas a nossa vida emocional é feita de contrastes, de emoções agradáveis e dolorosas, de momentos de clareza e de incerteza. Essa variedade faz parte da nossa humanidade e da experiência de vida. O desafio, portanto, não está em eliminar as emoções desagradáveis, mas em reconhecê-las, compreendê-las e integrá-las. Ou, como dizia uma antiga campanha britânica na área da saúde mental, it’s ok not be ok.

Sim, o otimismo é importante nas nossas relações pessoais e no trabalho, mas não estar continuamente nesse estado não é sinal de fragilidade. É aqui que reside o problema da chamada positividade tóxica, assente na ideia de que nos devemos manter sempre positivos, independentemente do que a vida nos traz. Esta exigência parte de uma visão limitada do que é ser humano e acaba por ser perversa, na medida em que transforma emoções naturais em sinais de fraqueza e obriga as pessoas a reprimirem a experiência através de uma espécie de felicidade artificial.

Se a felicidade não é um destino fixo nem um estado permanente de alegria, mas um caminho subjetivo, construído ao longo do tempo, então esse caminho envolve bem-estar, sentido, autonomia, competência e ligação aos outros, bem como a capacidade de viver toda a gama das emoções humanas, incluindo as mais dolorosas. Ser feliz não significa estar sempre eufórico. Envolve também ter espaço para sentir, processar e crescer com aquilo que a vida traz.

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