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Pedro Proença Advogado
28.08.2026

O Gangue dos Rolex e a dimensão esquecida da segurança

As origens europeias deste modus operandi conduzem-nos inevitavelmente a Nápoles. Há vários anos que grupos napolitanos se especializaram no roubo de relógios de elevado valor, deslocando-se sazonalmente para cidades e destinos turísticos frequentados por pessoas de elevado poder económico.

Há crimes que valem pelo prejuízo que provocam e outros que valem também pelo medo que deixam atrás de si. Os roubos de relógios de luxo que se têm multiplicado em Portugal pertencem claramente às duas categorias. O chamado “Gangue dos Rolex” é uma designação mediática apelativa que representa uma forma de criminalidade organizada, itinerante e transnacional que Portugal não inventou, mas que já chegou às nossas ruas.

As origens europeias deste modus operandi conduzem-nos inevitavelmente a Nápoles. Há vários anos que grupos napolitanos se especializaram no roubo de relógios de elevado valor, deslocando-se sazonalmente para cidades e destinos turísticos frequentados por pessoas de elevado poder económico. Portugal conhece o fenómeno há bastante tempo pois já em 2017 três italianos associados pelas fontes policiais à criminalidade napolitana foram detidos depois de sucessivas deslocações a Lisboa para roubar relógios, em scooters, a condutores de automóveis de luxo.

O fenómeno entretanto internacionalizou-se. Em 2024, uma operação coordenada pela Europol levou a 35 detenções relacionadas com grupos sediados em Nápoles que atuavam em vários países europeus. O método era particularmente organizado e envolvia equipas de três a cinco pessoas, olheiros junto de hotéis e restaurantes de luxo, identificação de quem usava relógios valiosos, seguimento da vítima, ataque rápido e fuga normalmente em scooter.

E continua atual pois em maio deste ano, uma nova operação europeia levou à detenção em Nápoles de 12 suspeitos pertencentes às chamadas “paranzas”, grupos especializados que se deslocavam para Marbella, Málaga, Barcelona, Ibiza e Palma de Maiorca. A investigação espanhola revelou ainda que depois do roubo, outros elementos encarregavam-se de retirar os relógios de Espanha e introduzi-los em circuitos internacionais de receptação.

É precisamente aqui que encontramos a parte menos visível do “Gangue dos Rolex”. Sem receptação não existe verdadeiramente um Gangue dos Rolex. Existe apenas um ladrão com um relógio roubado na mão.

Um Rolex, um Patek Philippe ou um Audemars Piguet pode valer 20, 50, 100 ou mesmo 200 mil euros. Mas o criminoso que o arranca do pulso da vítima não realiza automaticamente esse valor. É necessário transformar o objeto roubado em dinheiro e isso exige intermediários, transportadores, receptadores e compradores.

Investigações espanholas revelaram relógios retirados do país poucas horas depois dos roubos, frequentemente por via aérea, seguindo para Itália, onde existiam receptadores de confiança. Noutras redes internacionais foram detetados mecanismos destinados a dificultar a identificação dos relógios e a facilitar a sua reintrodução no mercado.

É, portanto, um erro concentrar toda a atenção policial no indivíduo que circula de scooter e arranca o relógio. Esse é apenas o rosto mais visível da organização. Tão importante como prender o assaltante é seguir o relógio e o dinheiro e, sobretudo, perceber quem recebe o objeto, quem o transporta, quem o transforma, quem o comercializa e quem finalmente o compra.

Os acontecimentos recentes mostram que Portugal está plenamente exposto ao fenómeno. Só nos últimos dias tivemos um turista ameaçado com arma de fogo na Quinta do Lago e um episódio particularmente dramático em Lisboa, no qual quatro homens terão roubado dois relógios e um fio avaliados em cerca de 100 mil euros. A perseguição que se seguiu terminou com a morte de um dos suspeitos. A estes juntam-se outros roubos recentes de relógios avaliados em 52 mil e 18 mil euros. A PSP, contudo, ressalvou que não estava ainda confirmada a ligação dos suspeitos do episódio mortal a uma organização específica.

Tudo isto conduz a uma dimensão da segurança pública frequentemente esquecida. Não basta haver segurança; é indispensável que as pessoas sintam que estão seguras. Segurança objetiva e segurança percebida não são a mesma coisa.

Um país pode apresentar estatísticas demonstrando que determinados tipos de criminalidade diminuíram e, simultaneamente, ter cidadãos convencidos de que a violência está a aumentar. Essa percepção pode ser influenciada pela experiência pessoal, pelo comportamento das pessoas que nos rodeiam, pela repetição mediática de acontecimentos violentos e, sobretudo, pela sensação de vulnerabilidade no espaço público. E essa sensação produz consequências reais.

Quando alguém deixa de usar um relógio na rua, evita determinada zona, deixa de caminhar à noite, altera o restaurante que frequenta ou começa permanentemente a olhar para trás para verificar se está a ser seguido, a insegurança já venceu uma parte da batalha, mesmo que essa pessoa nunca venha efetivamente a ser vítima de um crime.

É por isso que a segurança percebida deve ser encarada como parte integrante das políticas públicas de segurança. Não para substituir os números pela emoção, mas também não para responder à inquietação dos cidadãos apenas com estatísticas.

A normalização da violência é particularmente perigosa. Quando sucessivos episódios violentos passam a integrar a paisagem quotidiana e começamos a adaptar a nossa vida à possibilidade de sermos vítimas, alguma coisa mudou.

O verdadeiro desafio para o Estado é, por isso, duplo. Por um lado reduzir a criminalidade e, por outro, aumentar a confiança dos cidadãos na capacidade das instituições para a prevenir e combater.

Porque uma coisa é a incidência estatística da violência. Outra, muito diferente, é viver com medo dela.

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